Covid-19: variante do coronavírus do Reino Unido pode ter chegado a Minas

Publicado em 15/02/2021 - saude - Da Redação

Covid-19: variante do coronavírus do Reino Unido pode ter chegado a Minas

Pesquisadores da UFMG realizam sequenciamento genético de amostras mineiras para investigar se mutações estrangeiras já estão presentes no Estado


A variante do coronavírus detectada no final de 2020 no Reino Unido, que cientistas suspeitam que seja mais transmissível e esteja relacionada à alta de casos de Covid-19, parece já ter chegado a Minas Gerais. Um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sequencia o genoma de vírus coletados no Estado e observaram sinais da mutação britânica nas amostras mineiras. 

“Já havíamos sequenciado genomas de Minas antes do momento da primeira onda, em 2020, e agora voltamos a sequenciar amostras mais recentes, de dezembro e janeiro. Será um trabalho contínuo, não só para rastrear variantes que foram identificadas em outros lugares, mas também para identificar se alguma nova surgir”, diz o virologista e professor da UFMG Renato Aguiar, coordenador da iniciativa, que é apoiada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e pelo Ministério da Saúde como parte do Corona-ômica, projeto de sequenciamento do vírus. Segundo ele, resultados preliminares de trabalhos de colegas sugerem que a variante sul-africana também pode estar no Estado, o que ainda precisa de provas. 

Para cravar que as variantes internacionais estão no Estado, ainda é necessário avançar no sequenciamento. Por ora, a variante de Manaus não foi descoberta em solo mineiro, e também não existe uma variante específica de Minas. O grupo sequencia material de cerca de 50 amostras mensais, atualmente, e pretende chegar a cem. O Centro de Tecnologia em Vacina (CT-Vacina), vinculado à UFMG, também faz parte do projeto Corona-ômica. A Fundação Ezequiel Dias (Funed) começou um trabalho similar, em que auxiliará o Ministério da Saúde no sequenciamento de 300 amostras. 

O projeto do professor Renato Aguiar havia sido interrompido em 2020 devido à falta de verba, que agora foi cedida pelos ministérios federais. “Não conseguimos sequenciar a mesma quantidade que outros países, como a Inglaterra, por falta de recursos. O sequenciamento é caro, custa de R$500 a R$600 por amostra. Se não houver aporte, seja do ministério, da Secretaria de Estado da Saúde ou da prefeitura, não conseguimos”, detalha Aguiar. 

Além do sequenciamento, ele diz que a UFMG iniciará um projeto para avaliar a resposta imunológica de pessoas vacinadas ou curadas da Covid-19 contra as novas variantes. 

Ritmo lento de vacinação no Brasil favorece variantes potencialmente perigosas

Quanto mais o Brasil demora a avançar na vacinação contra a Covid-19, mais chances o coronavírus terá de evoluir para uma versão mais perigosa. Ele não é um ser inteligente que planeje como pode infectar mais gente ou se tornar mais ameaçador. Como qualquer vírus, depende da circulação de pessoas para se espalhar e se replica sem parar no organismo dos infectados. Quanto mais pessoas contraem o vírus, mais chances ele tem de se replicar, e é aí que as mutações ocorrem: toda vez que o coronavírus se replica, copia sua própria estrutura, mas inevitavelmente passam erros no processo. São as mutações, que podem ser benéficas ou não ao vírus. Uma mutação que permita que ele seja mais transmissível é uma boa notícia para ele, do ponto de vista evolutivo, e uma péssima notícia para os seres humanos.

Uma das preocupações de cientistas é que o coronavírus tenha chegado a mutações parecidas de forma independente em vários pontos do mundo quase ao mesmo tempo, o que eles chamam de evolução convergente. Ela pode indicar que ele está se adaptando para driblar um obstáculo: a quantidade de pessoas que já foram infectadas. Em sua coluna no jornal “Folha de S.Paulo”, o biólogo Atila Iamarino alerta que elas podem representar um escape de imunidade, isto é, teriam mudanças o bastante para escapar do sistema imunológico de quem já foi infectado antes.

O biólogo e pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Gabriel Maisonnave reforça a hipótese e destaca a importância das vacinas para frear o avanço de mutações perigosas. “Não é à toa que variantes mais perigosas surgiram em locais de surto. A vacinação não impede a circulação dos vírus, mas a transmissão começa a diminuir quando 20%, 30% delas são vacinadas e despenca quando 70% são”, diz.

As principais vacinas que já são aplicadas no mundo parecem ser capazes de conter os caso graves pelas novas variantes — embora a sul-africana pareça enfraquecer algumas delas, inclusive a da AstraZeneca, disponível no Brasil. O microbiologista e pesquisador do Instituto Questão de Ciência (IQC) Luiz Almeida explica que as vacinas que utilizam RNA do vírus, opções da Pfizer e da Moderna, podem ser adaptadas à novas variantes, e que a Coronavac, que utiliza toda a estrutura do vírus, também deve dar conta do recado. “Ela tem mais alvos para criar anticorpos. E as vacinas treinam muito melhor o sistema imunológico do que a imunidade natural”, conclui.


Por GABRIEL RODRIGUES -  O TEMPO