O Novo Normal

Publicado em 31/07/2020 - raul-dias-filho - Da Redação

O Novo Normal

Alguém, além de mim, já teve a sensação de que o tempo voltou a voar, em vez de engatinhar como estava fazendo no começo da pandemia? Me lembro que, ainda no início do ano, comentei algo como ‘estamos em janeiro e daqui a pouco já é Natal de novo’, me referindo à rapidez com que os dias, as semanas e os meses estavam passando. Aí, quando esta maldita doença virou nossas vidas pelo avesso e manteve todos confinados, o ponteiro do relógio parece que deu uma sossegada e os dias ficaram intermináveis. Parecia que passavam dois dias entre o almoço e o jantar. De lá para cá já se foram cinco meses. Cento e cinquenta dias que, à medida em que o tempo passa, parecem passar cada vez mais rápidos. De repente, olhamos no calendário e perguntamos: ‘nossa, já é sexta feira??’  Sabe o que é isso? Nos acostumamos com a nova rotina. Criamos novos hábitos e nos adequamos a eles. Desde sempre somos assim, seres projetados para se adaptar e sobreviver às mais duras condições, aos mais inóspitos ambientes, às mais terríveis catástrofes. E essa fase de adaptação parece concluída. Já percebeu que, de repente, sair com aquela máscara, que no começo era tão incômoda e esquisita, ficou comum? Higienizar alimentos, manter distância segura, usar álcool em gel, lavar freneticamente as louças com detergente, tudo isso faz parte do novo normal. Porém, o que não pode, o que é inconcebível e até desumano, é nos acostumarmos com o número de brasileiros que continuam morrendo todos os dias. São mais de mil por dia. Todos os dias! E a gente ouve isso com uma naturalidade que beira a insensatez. Parece que a doença só nos toca, só nos fere, só nos atinge, quando se aproxima de nossos familiares ou amigos. Mas isso não quer dizer que sejamos insensíveis ou indiferentes à dor alheia. O fato é que a repetição da tragédia faz com que nos acostumemos com ela. Até que um choque de realidade nos desperte. Vou contar uma história que ilustra bem o que é se acostumar com estatísticas que falam de mortes e de mortos, se anestesiar para a realidade e, de repente, ser esbofeteado por ela. Aconteceu comigo em 2006, quando fiz a cobertura da queda do avião da Gol, na floresta amazônica, quando todas as 154 pessoas a bordo morreram. Para quem não sabe ou não se lembra, um Boeing da Gol caiu no Mato Grosso, na mata fechada da Amazônia, depois de ser atingido, em pleno voo, por um jatinho Legacy que levava alguns executivos endinheirados para os Estados Unidos. Depois da colisão o jatinho conseguiu pousar mas o Boeing se esfacelou no ar e caiu, em pedaços, numa área de 20 quilômetros quadrados de selva. Na época,  fiquei dezoito dias na região fazendo a cobertura para a Record TV. E enfrentei obstáculos quase incontornáveis de logística. Como o avião havia caído numa área de mata fechada, de difícil acesso, o Exército e Aeronáutica definiram uma fazenda, chamada Jarinã, como base das equipes de busca. E eu estava hospedado na cidade mais próxima, chamada Peixoto de Azevedo. Só que ‘mais próxima’ aqui é quase figura de linguagem porque a cidade ficava a 200 quilômetros da fazenda. Por estrada de terra. Eram quatro horas pra ir e quatro pra voltar. Por isso, nos primeiros dias, eu ia até a fazenda, gravava entrevistas e voltava antes do entardecer para gerar o material para São Paulo. Até que um dia houve um imprevisto e fiquei até o final da tarde, quando os helicópteros que transportavam os soldados retornavam à fazenda. Nunca consegui esquecer aquela imagem. Está entre as mais tristes e melancólicas que já vi. Havia também uma beleza marcante e cruel, por causa da paisagem. Era final de tarde, eu estava com os braços apoiados sobre uma cerca de madeira, parecidas com a de curral, e o sol avermelhado do final de inverno começava a se esconder atrás da imponente floresta amazônica quando, de repente, surgiram os helicópteros. No começo, como minúsculos pontos pretos no horizonte. Depois, aos poucos, o ‘flap flap’ dos motores foi crescendo, os helicópteros foram tomando forma e revelando os grandes cestos pendurados que transportavam. Os corpos estavam ali. Foi quando me dei conta que aqueles números que eu divulgava todos os dias sobre ‘corpos resgatados’ se referiam a pais, mães, filhos, avós, netos, amigos. Os cestos guardavam também sonhos, carreiras, sorrisos, planos. Todos definitivamente encerrados. Terminados. Sem chance de recomeço. Entende o que eu digo? Não é que antes havia um repórter insensível que acordou de repente para a realidade. É que nos acostumamos com a tragédia, ou somos um pouco insensíveis a ela, enquanto ela está distante de nós. Enquanto ela nos ronda somente pelos números frios das estatísticas ou pelos depoimentos de pessoas que não conhecemos. Por isso, não espere um choque de realidade, como ver um parente ou amigo doente, para perceber a gravidade do momento que vivemos. Não se trata de chorar por doentes ou mortos desconhecidos. Se trata de não perder a capacidade de, simplesmente, se entristecer. E também de se indignar. E, ao mesmo tempo, manter fortes a fé, esperança, otimismo e alegria de viver. Sim, eu sei, é muito desafiador conviver com tantas sensações e sentimentos. Mas é o que nos resta. É o que nos moverá. Então, voltando ao começo, se você, como eu, percebeu o tempo passar mais rápido de novo, não se preocupe. É um bom sinal. Significa que não estamos inertes, entregues, anestesiados. Pelo contrário, mostra que estamos vencendo a primeira batalha. Só não podemos esquecer que uma guerra é feita de inúmeras batalhas. E, por certo, teremos outras pela frente.  

Por hoje é isso. Semana que vem tem mais. Até lá. 


Raul Dias Filho - é jornalista e repórter especial da Record TV