DE NOVO O “INDEX LIBRORUM PROHIBITORUM”

Publicado em 20/02/2020 - nilson-bortoloti - Da Redação

DE NOVO O “INDEX LIBRORUM PROHIBITORUM”

Num período negro da Igreja Católica, na Idade Média, do qual ela se penitencia, foi lançado o “Index Librorum Prohibitorum” que era o Índice dos Livros Proibidos. O documento dizia respeito a uma relação de publicações consideradas heréticas, anticlericais ou lascivas e proibidas pela Igreja.

Assim, inúmeras obras de enorme importância para a humanidade foram queimadas. 

Quando a gente acha que este período das trevas, das inquisições e das cruzadas, foi superado, eis que nos aparecem alguns malucos terraplanistas, criacionistas, tentando-nos impor certos conceitos retrógrados em nome de um falso moralismo.

A Secretaria de Estado da Educação de Rondônia mandou retirar das prateleiras das escolas, por serem leituras “não recomendáveis para os jovens” dezenas de obras de escritores consagrados, tais como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Nélson Rodrigues, Rubem Fonseca, Carlos Heitor Cony e até os estrangeiros Franz Kafka e Edgar Alan Poe.

Pasmem os prezados leitores que obras como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” consta da fatídica lista. O livro de Machado de Assis, talvez a sua principal produção, considerada como obra prima da literatura universal, não escapou do fogo do inferno, mais modernamente diríamos da tesoura do novo censor.

Nós, professores de português, que chegávamos a virar piruetas para que nossos alunos desenvolvessem o gosto da leitura, Machado sempre à frente, estamos indignados. E só não prosperou o infausto decreto porque a imprensa foi contundente e o governo de Rondônia teve que voltar atrás da decisão tomada. 

Todas as cabeças com o mínimo de lucidez concordam com a importância da leitura na formação de crianças e jovens.

Dia desses, conversando com um advogado, ele me confessou que jamais havia lido um livro em toda a sua vida. A perplexidade, talvez o constrangimento, impediram-me de dizer-lhe: “amigo, procure uma outra profissão. Você não pode ser advogado, pois o instrumento do advogado é a palavra e você não pode dominar bem esta ferramenta indispensável na sua ocupação sem a leitura. Eu jamais lhe confiaria uma causa, porque esta estaria, certamente fadada ao insucesso. “

O tal advogado não poderia exercer a advocacia e nenhuma outra profissão que exigisse alguma complexidade intelectual porque a palavra, antes de tudo, é  instrumento do pensamento.

É incompreensível que burocratas analfabetos funcionais venham impor regras, sem consultar quem entende da matéria. Tais funcionários, aposto, não leram as obras que agora vedam.

Para justificar a sua infindável preguiça, internalizam, tais “defensores da moral e dos bons costumes”, em uma visão estreita,  certa compreensão de mundo simplista, como se ao deixar de tomar conhecimento de determinados temas mais complexos, eles estariam “puros” e não se envolveriam nos dramas que caracterizam a humanidade. É a chamada “paz de cemitério”.

Dito de outra forma, Fecham-se em copas, mantendo-se ao largo de temas que exigiriam uma elucubração mental mais trabalhada e do alto da sua arrogante ignorância julgam-se no direito de traçar normas para todos.

Ou melhor, talvez não seja de todo incompreensível, quando o principal mandatário da educação, o Ministro, escreve “imprecionante”(com c).

Como diria Stanislaw Ponte Preta, Impressionante e triste é o   festival de besteiras que assola o país. 

Por: Nilson Bortoloti