SARAMPO QUE DÁ EM CHICO TAMBÉM DÁ EM FRANCISCO

Publicado em 12/04/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

SARAMPO QUE DÁ EM CHICO TAMBÉM DÁ EM FRANCISCO

No tocante ao noticiário recente da grande imprensa brasileira, que divulgou com indignação e certo barulho, que uma epidemia de sarampo já teria acometido cerca de quatro milhares de venezuelanos, imaginei que ficaria legal parodiar o conhecidíssimo ditado popular que diz: “pau que bate em Chico também bate em Francisco”. Isto porque o tom de quase desdém com que a notícia foi proclamada dava a entender que o caos na saúde havia mesmo se instalado na Venezuela. Tanto que a ONU - Organização das Nações Unidas - entrou no assunto e classificou o surto de sarampo como uma emergência sanitária. O que isto significa?  Nada mais do que uma situação em que o combate ao sarampo deve executar uma imediata ação de vacinação e outras medidas concorrentes, tornando-as obrigatórias para a população susceptível à moléstia. Mas, os locutores de rádio e os apresentadores de televisão pareciam transmitir outro recado para nós brasileiros: não insistam em apoiar regimes socialistas porque o fim deles é a falência até na saúde. No entanto, se esquecem de que Cuba, suportando toda a perseguição política e bloqueios econômicos impostos pelos Estados Unidos e seus aliados, ao longo dos 50 anos de regime comunista, tornou-se célebre pelo seu sistema de saúde, inclusive na prática de uma medicina avançada muito procurada por estrangeiros. Sem falar no que representou a ciência médica na antiga União Soviética, e mesmo hoje na democracia russa. Muito menos fazem críticas ao sistema de saúde da China comunista, que dá conta no atendimento de mais de um bilhão de habitantes. O sarampo é mais uma cortina de fumaça, outra aliada na inarredável ofensiva do mundo capitalista com o objetivo da derrubada do governo venezuelano, que teve que se fechar para resistir a tais investidas internacionais, que colocam à frente o verdadeiro usurpador, o deputado e autoproclamado presidente paralelo, Juan Guaidó.

O que é mesmo o Sarampo? Vamos dar-lhe uma visão mais ampla para maior entendimento dos leigos e recapitulação por parte dos profissionais da área de saúde. Primeiramente, diremos que é uma doença altamente contagiosa, cosmopolita, sem preferência por sexo ou raça, mas, predominante nas crianças. É causado por um vírus, das centenas que existem na natureza, sendo transmitido por partículas respiratórias expelidas pelo doente ou por contato direto. Os vírus, de modo geral,  já foram considerados como os mais simples dos seres vivos, por serem constituídos de um ácido nucleico - RNA ou DNA - que é envelopado por uma camada de proteína. Houve uma época em que os seres vivos eram divididos em dois grandes reinos: vegetal e animal. Isto aconteceu entre 1707 e 1778, época em que viveu o naturalista e médico sueco, Lineu, considerado o pai dessa classificação moderna. Todavia o avanço instrumental, principalmente com o microscópio eletrônico, possibilitou melhores estudos dos seres vivos, sendo hoje mais aceita a classificação de Whittaker, de 1969, que os agrupou em cinco reinos: Monera, Protistas ou Protoctistas, Fungi, Plantae ou Metaphyta e Animalia ou Metazoa. Não se deve confundir vírus com bactérias, pois estas são seres unicelulares, ou seja, constituídos de uma só célula e sem delimitação do núcleo por uma membrana, incluídas no reino Monera, ao lado das algas azuis ou cianobactérias. Num patamar além, o reino dos Protoctistas, engloba seres unicelulares com o núcleo bem definido, os chamados protozoários (proto = primitivo + zoo = animal), como as diversas espécies de ameba, os plasmódios causadores da malária, o tripanossoma causador da doença de Chagas, o ‘Trichomonas vaginalis’, de doença genital em mulheres, bem como espécies de algas unicelulares ou pluricelulares. Os vírus são microrganismos tão mínimos que, relatam, ser necessário um milhão deles para dar o diâmetro de um fio de cabelo. Eles sobrevivem somente dentro de células, sendo parasitas intracelulares obrigatórios.

É inegável o surto atual de sarampo na Venezuela, com mais de 4.000 casos neste ano, além de 6.375 casos em 2018, afetando o vizinho brasileiro, Roraima, com 355 casos. Todavia, outros dois estados brasileiros notificaram casos ao Ministério da Saúde, através das suas secretarias de saúde, de janeiro de 2018 a janeiro de 2019, segundo a OPAS - Organização Panamericana da Saúde: Amazonas, 9803 infectados, sendo que em julho/2018, Manaus decretou ‘emergência em saúde’; e o Pará, com 62 casos. A mesma OPAS, através de sua Folha Informativa, atualizada em fevereiro deste ano, em sintonia com a OMS - Organização Mundial de Saúde - divulgou que o Sarampo acometeu 12 países das Américas, num total de 17.361 casos nesse mesmo período de um ano, incluindo os infectados brasileiros e venezuelanos, onde aconteceram, respectivamente, 12 e 76 mortes. Nos Estados Unidos foram 349 casos no mesmo período, com casos isolados em outros países americanos como Argentina, Canadá e Chile.

De acordo com a referida Folha Informativa foram 110.000 mortes em todo o mundo durante o ano de 2017 em decorrência do sarampo. Por outro lado há cálculos de que entre os anos de 2.000 a 2.017 o número de mortes em todo o planeta caiu em 80%, poupando-se 21,1 milhões de mortes graças à rotina e às campanhas de vacinação contra o sarampo. Mesmo assim, a BBC Divulgação, citando como fonte a OMS, ainda registra casos da doença também na Europa em 2018, dos quais pinçamos alguns quantitativos: Ucrânia, 53.218; Sérvia, 5076; França, 2913; Itália, 2517; Rússia, 2256; e, no Oriente Médio, Israel, 2919.

Houve certos momentos em que o sarampo foi considerado erradicado, inclusive no Brasil, graças a uma vacina segura e eficaz. Porém, esse conforto levou as pessoas e os próprios governos a afrouxarem os esquemas e as campanhas de vacinação. Para piorar, tem havido atualmente grupos de resistência contra as vacinas sob a alegação de implicações danosas para o ser humano, inclusive de mortes. Outros apregoam teorias conspiratórias de desconfiança nos governos e de benefícios únicos para a indústria farmacêutica. Nos Estados Unidos e na Europa os movimentos contra as vacinas são muitos e denominados de “antivaxxers”.

Torna-se lamentável esse retrocesso de uma doença que estava bem controlada em todo o mundo. Na maioria dos casos o sarampo é uma doença de baixa gravidade, mas as suas complicações como otites, encefalites, convulsões, diarreias e, especialmente, pneumonias é que podem causar letalidade.

Neste dia 8 de abril de 2019, surpreendi-me com uma notícia em telejornal noturno da Rede Globo dizendo que “Nova York decreta ‘emergência em saúde pública’ por causa de 285 pessoas acometidas de sarampo”. No dia seguinte, pude confirmar a informação no Estado de Minas (em.com): “Nova York ordena vacinação obrigatória em bairro afetado por sarampo”. Nesta 4ª feira, 10, encontramos no “site” https://veja.abril.com.br:  “Nova York declara emergência devido a surto de sarampo”, ilustrado com foto do prefeito novaiorquino Bill de Blasio, com grande “banner”, ao fundo, dizendo: “Don’t wait. Vaccinate”. Foram 285 os casos notificados  na região do Brooklin desde outubro passado. Diante desta nova situação e das estatísticas de países importantes que acima estampamos, inclusive do nosso, a Venezuela não poderia ser contemplada com a impiedade da nossa imprensa. A paródia vai bem colocada: “sarampo que dá em Chico também dá em Francisco”.  

*Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) 

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