'EL CID' ENFRENTA POLÍCIA COM RETROESCAVADEIRA

Publicado em 20/02/2020 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

'EL CID' ENFRENTA POLÍCIA COM RETROESCAVADEIRA

Nomes existem que nos fazem entrelaçar o presente com o passado. Já tive a oportunidade de aqui escrever sobre um herói nacional da Espanha, El Cid. Ele nasceu na aldeia de Vivar, ao norte de Burgos, que foi a Capital do Reino e, atual, da Comunidade Autônoma de Castilla y León. Pois bem, de carne e osso, El Cid, o Campeador, era Don Rodrigo Diaz de Vivar, ou de Bivar, porque a língua castelhana muito leva à pronúncia do "v" como "b". Ele viveu durante o ano 1.000 d.C., ou seja, no século XI, época em que os muçulmanos haviam se consolidado em quase toda a Península Ibérica, região em que no futuro se tornariam Espanha e Portugal. Na verdade, a Ibéria, como era chamada na Antiguidade, viu a desagregação do Império Romano do Ocidente, ali estabelecido, chegar à ruína final no ano 476 d.C., quando povos germânicos depuseram seu último imperador, que, ironicamente, tinha no seu nome o de um dos fundadores de Roma mais o do seu primeiro imperador - Romulus Augustus. Assim, os visigodos dominaram a região por mais de duzentos anos, ali construindo uma unidade cristã. Entrementes, com a morte do Rei Vitiza, seu filho e sucessor ao trono, Ágila, sofre um Golpe de Estado, perdendo parte do reino para Roderic, filho de antigo rei desse povo germânico. Ágila pede ajuda aos islâmicos do norte da Àfrica, pois, geograficamente, é fácil de se perceber que Argélia e Marrocos são próximos, até hoje habitados por muçulmanos de pele escura, naquele tempo chamados de mouros (do latim, maure = negro). Assim é que o general árabe Tarik bin Ziyad, comandando poderoso exército,  atravessa o Estreito de Gibraltar, tomando as cidades de Córdoba e Toledo. O domínio mouro se estende por toda a Ibéria, que os novos conquistadores passaram a denominar de Al Andaluz, durando do ano de 711 d.C. (séc.VIII) até a queda do Reino de Granada em 1492 (séc. XV). Além deste grande e poderoso reino, instituiu-se o Califado de Córdoba e uma divisão através de emirados.

                              Historiadores revelam que foi um período de permanentes conflitos pela ação da reconquista, pois os cristãos visigodos, empurrados para o norte, ao invés da rendição travavam lutas de reconquista, sob o comando de Pelágio, na montanhosa Astúrias. Entretanto, em outras regiões submetidas aos mouros havia uma convivência respeitosa ao ponto de, muitas vezes, católicos e muçulmanos utilizarem o mesmo templo para seus cultos religiosos. Em que pesem choques culturais e religiosos, a presença árabe na Península Ibérica é reconhecida como uma etapa civilizatória, com notáveis contribuições para o ocidente nas áreas da astronomia, náutica, cartografia, arquitetura e medicina, trazendo conhecimentos de chineses, indianos e persas, inclusive os algarismos hindus, que passaram a ser conhecidos como arábicos.

Rodrigo de Bivar, descrito no início deste texto, ficou órfão de pai aos 15 anos de idade, sendo acolhido pelo Rei de León, Dón Fernando I. Na corte real ele tornou-se amigo do infante príncipe Sancho. Anos depois, com a morte de Dón Fernando, o reino é assim dividido com os filhos: León para Afonso; Castela para Sancho; Galiza para Garcia; Toro para Elvira e Zamora para Urraca. O amigo de infância, Sancho, o nomeia Alferes do novo Reino. Aos 23 anos Rodrigo de Vivar ganha importante batalha contra o Alferes de Navarra e passa a ser conhecido por Al Sayd, em árabe, ou El Cid, o Senhor, na condição de chefe militar, o Campeador, significando o campeão.

Sancho, julgando-se o sucessor direto do reino do pai, trava lutas diante dos reinos dos irmãos no intuito da sua reunificação. Numa dessas batalhas Sancho é assassinado e seu irmão, Afonso VI passa a reinar sobre Léón y Castilla. Aqui, unem-se cristãos e muçulmanos, lutando junto com El Cid e  D.Afonso VI para deterem um inimigo em comum, procedente do norte da África, o emir Ben Yussuf, que tinha o propósito de conquistar toda a Península, destituindo seus governantes árabes que se mostravam complacentes com os cristãos. Vitorioso, Dón Rodrigo, El Cid, se casa com a filha do Conde de Oviedo. Alvo de desconfiança do rei, é desterrado, indo junto com um Exército de 300 homens se abrigar no Principado ou Taifa de Valência, do seu amigo mouro, Al Kadir, aqui havendo uma dúvida exposta numa das fontes de minhas consultas para este artigo, o Dr. Roberto Aniche, médico, filatelista e membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores; a outra fonte é a Profa. Fernanda Paixão Pissurno, graduada e mestra pela UFRJ, além da Wikipédia. A dúvida em questão é se El Cid se fortificou com seus homens na taipa de Valência tendo Al Kadir como protegido ou cliente?  Não posso deixar de mencionar que na minha juventude tive a oportunidade de ver aqui em Muzambinho, no nostálgico Cine São José, o filme El Cid, uma produção ítalo-americana de Samuel Bronston, de 1961,  estrelado por Charlton Heston, Sophia Loren, Raph Vallone e outros. Uma película comovente.

Em 27/3/2015 trouxe à baila neste semanário o artigo: A HONRA DE 'EL CID' E A HUMILHAÇÃO DOS ACHACADORES. Transcrevo trechos para facilitar a rememoração: ...[...] "Um acontecimento político ocorrido na semana passada, na Câmara dos Deputados, em Brasília, me fez associá-lo ao filme, causando-me semelhante emoção. Justamente, porque foi protagonizado por outro Cid - Cid Ferreira Gomes - investido no cargo de Ministro de Estado da Educação da República Federativa do Brasil, exibindo uma postura atual e garbosa parecida com a do lendário cavaleiro espanhol. Enquanto o guerreiro medieval usava lança e espada como armas, o nosso guerreiro-político cearense usou apenas a palavra e o dedo indicador em riste para hipnotizar, horrorizar e derrotar centenas de parlamentares que ouviam o discurso que ele pronunciava da tribuna do parlamento federal. Não só os pseudo-governistas da base de apoio da Presidente Dilma Rousseff, também muitos oposicionistas. [...] Cid Gomes, palestrando para estudantes no Estado do Pará, referiu-se a 300 ou 400 achacadores que compunham a Câmara dos Deputados. Pois bem, convocaram o Ministro para lhes dar satisfação. Esses santos ofendidos aproveitaram a oportunidade para constranger o Governo que dizem apoiar, ou melhor, que 'maltratam/magoam/extorquem/ou roubam sob ameaça', conforme a palavra 'achaque' está definida nos dicionários aos quais recorri. [...] os políticos que a compõem (Câmara) estão aumentando a pressão sobre o Poder Executivo - leia-se Presidente Dilma - pouco se importando se a infeliz já está sendo acuada pela Oposição no Congresso Nacional, pelos inconformados eleitores do Aécio, pela imprensa golpista e, talvez, pelos sempre intrometidos serviços secretos dos Estados Unidos da América que almejam a queda dos governos latino-americanos de esquerda. [...] Cid Gomes tem razão, pois os deputados federais, dito governistas, passaram dos limites. [...] Cid decidiu que melhor contribuiria para com a Presidente e para com a Nação se sustentasse a pecha imposta aos deputados. Não seria tíbio nem covarde em retirar o que tinha dito. Repetiu com galhardia que a Casa continha achacadores e não hesitou em apontar o dedo indicador para eles, principalmente para o Presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), dizendo-lhe que é melhor ser chamado de mal educado do que de achacador. Gesto de tamanha dignidade e de papel pedagógico na lama da política brasileira, foi repercutido pelos órgãos da grande imprensa mais como 'um bate-boca' do que um verdadeiro libelo contra deputados oportunistas".

NESTA 4ª feira, 19 de fevereiro de 2020, o brasileiro El Cid Campeador reapareceu em cena. Destemido, arrojado, pilotando sozinho uma máquina pesada, cuja única proteção era estar num plano mais alto, dentro de uma espécie de cabine de vidro ou de plástico duro, ele decidiu enfrentar um bando de policiais cearenses insubordinados, que promovia greve ilegal na cidade de Sobral, sua terra natal. O movimento, que não é apenas grevista e pacífico, irrompeu em vários pontos do Estado, inclusive Fortaleza, estando os amotinados mascarados e praticando ações de vandalismo. Na verdade, o Senador Cid Gomes (PDT/CE), ex-Governador do Ceará, pela tarde chegou de avião à cidade e dirigiu-se para o 3º Batalhão da Polícia Militar do Estado do Ceará, em Sobral, onde policiais amotinados, por questões salariais, promoviam badernas por toda a cidade desde a noite desta 3ª feira, 18. Eles furtaram umas duas dezenas de viaturas oficiais da PM cearense, ou mesmo as tomaram à força de colegas que faziam o policiamento móvel, colocando-as em pontos estratégicos para o interesse do movimento, esvaziando os pneus dos veículos e bloqueando ruas. Além do mais, ocuparam o próprio batalhão, expulsando os colegas que não aderiram ao movimento de protestos. Cid Gomes e o irmão Ciro são aliados do reeleito Governador do Ceará, Camilo Santana (PT), dentro de uma  ampla coligação partidária. Provavelmente, veio em defesa do governador.

Cid Gomes conseguiu uma retroescavadeira e com ela forçou uma grade de proteção do Batalhão, bloqueada por dentro por policiais rebeldes. Em dado momento ele foi atingido por dois tiros disparados por policiais, ainda não confirmados se os projéteis eram verdadeiros ou eram balas de borracha, havendo ambas as versões. Um dos tiros o feriu na clavícula e a outra teria se alojado no pulmão esquerdo. Horas depois, o Hospital do Coração, local, anunciava que o Senador estava fora de perigo e deveria ser transferido no dia seguinte para Fortaleza. O governador Camilo Santana pediu e o Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, já determinou o envio da Força Nacional de Segurança para o estado nordestino a fim de atuar neste momento de rebelião da própria PM do Ceará. 

Momentos antes de tentar invadir o Batalhão da PM de Sobral, uma atitude corajosa, mas, realmente, desnecessária, insensata e temerária, assim discursou o senador para um grupo de pessoas, conforme publicado no "site" cearense 'O POVO ON LINE': "Eu vim aqui defender a paz e a tranquilidade do povo de Sobral. Ninguém será chantageado, ninguém deixará de trabalhar, de abrir as suas portas e caminhar com tranquilidade em Sobral. Uma coisa é se amotinarem em um local, outra são os próprios que deveriam manter a paz e a tranquilidade serem eles próprios os incitadores de violência. Eu tô aqui desarmado, e vou enfrentar quem armado estiver, sob o custo da minha vida. Mas ninguém vai fazer o que esses bandidos  tão fazendo aqui em Sobral".

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)