A pirralha mensageira do bem

Publicado em 13/12/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A pirralha mensageira do bem

As pessoas são mesmo contraditórias. Pelo simples fato de crianças morrerem enquanto procuravam a diversão que estava mais próxima do nível de vida deles, no pancadão da favela paulistana de Paraisópolis, muitos já classificaram esses jovens de maconheiros, drogados ou bandidos. Mesmo que fossem, seriam fruto de uma sociedade desigual, injusta e preconceituosa. Pela sua tenra idade, mesmo que se encaixassem nessa rotulagem deturpada, mereceriam melhor compreensão e chances de uma mudança de vida. Porque a maioria era de crianças, alguns eram pouco mais do que crianças. Reflitamos bem e raciocinemos se mesmo nós, que nos julgamos comportados ou bem sucedidos na vida, se lá na nossa puberdade e adolescência não possamos ter cometido pequenas infrações às regras sociais. Nem por isso, a maioria aderiu à bandidagem pelo restante da vida.

Mas, o comportamento contraditório, até invejoso das pessoas, é muito mais frequente e comum do que se pensa. Miremos nas críticas atuais despejadas nas nossas redes sociais, sei lá se mundo afora, a respeito da adolescente sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que acaba de ser capa da “Time”,  uma das revistas mais respeitadas e tradicionais dos Estados Unidos da América - EEUU. Não é dessas capas de apelo à sensualidade, exibindo corpos femininos para leitores tarados, mas uma capa simbólica e majestosa de uma garota trajando calça comprida preta, agasalho cor de salmão, calçando tênis, e olhando para o alto como que invocando a Deus, enquanto se equilibra sobre rochas, onde se quebram ondas do mar. O título desta capa é graúdo: “Person of the Year”,  Personalidade do Ano.

Mas, as mesmas pessoas contraditórias e oportunistas, que, preconceituosamente, viram os noves garotos mortos como potenciais bandidos, agora não enxergam numa estudante sueca, que se celebrizou por matar aulas todas as sextas feiras, em Estocolmo, para protestar diante do Parlamento Sueco, em 2018, em favor do Meio Ambiente planetário, como uma saudável visionária na luta pela nossa natureza ameaçada.

Reações negativas e depreciativas espoucaram aqui no Brasil. Simplesmente porque Greta condenou pelo Twitter os novos assassinatos de indígenas da Nação Guajajara, no Estado do Maranhão, no começo desta semana. O exemplo mais contundente partiu nada mais nada menos do que do próprio Presidente da República, Jair Bolsonaro que, do alto da sua arrogância de formação militar, não hesitou em comprar briga com uma adolescente que sonha com um melhor futuro para a humanidade. Em inglês, no @Greta Thunberg se lê: “Os povos indígenas estão sendo literalmente assassinados por proteger a floresta contra o desmatamento ilegal. Isto se repete frequentemente. É uma vergonha que o mundo permaneça em silêncio a respeito disso”. Ao mesmo tempo, ela cita a líder Sonia Guajajara: “Este crime não pode ficar impune”. Em entrevista, Bolsonaro fulminou: “A Greta já falou que os índios morreram porque estavam defendendo a Amazônia. É impressionante a Imprensa dar espaço para uma pirralha dessas aí, PIRRALHA”.

Certo é que dois grandes braços da Igreja Católica, o CIMI - Conselho Indigenista Missionário - e a CPT - Comissão Pastoral da Terra - ambos ligados à CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - fundados no início dos anos 1970, com finalidades assemelhadas de defesa dos povos da floresta e no acompanhamento de conflitos envolvendo os trabalhadores rurais, especialmente na Amazônia, tem denunciado e se colocado diante dos permanentes ataques e invasões de grileiros, posseiros e garimpeiros contra os índios e os rurícolas. Relatório produzido por uma dessas entidades demonstra que este ano produziu o maior número de assassinatos de índios nos últimos 11 anos, sete mortos.

Por certo que tenho feito críticas à grande imprensa empresarial, que privilegia e defende as maquinações do capitalismo. Mas, no caso da idealista garota sueca, o que se vê é uma unanimidade da mídia mundial em favor dela, porque essa imprensa tem a lucidez de perceber que estamos todos no mesmo barco, isto é, na superfície arredondada da Terra, uma imensa e natural nave espacial, cada dia mais ameaçada de exterminação por seres atrasados - não somente dos terraplanistas - mas dos gananciosos e imediatistas, que acumulam riqueza e poder sem a perspectiva de que serão ceifados pela morte. A capa da “Time” é um tributo à mensageira do bem, que, agora, em rede social, sintetiza na sua biografia, com bom humor, uma palavra em português, @Greta Thunberg, PIRRALHA.  

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)