PENA DE MORTE E ANGÚSTIA

Publicado em 21/01/2011 - ze-nario - Zé Nário

Uma semana depois dos trágicos acontecimentos na região serrana do Rio de Janeiro, a visualização das áreas atingidas e a descrição dos dramas dos sobreviventes ainda me enchem de angústia. São imagens dolorosas e impressionantes que as emissoras de TV nos esfregam na cara. Tantas e várias formas de nos afligir e de nos fazer pesarosos para faturar com a audiência. Cenas de guerra em uma das regiões mais belas do Brasil, cuja ocupação data dos primórdios da nação brasileira. Parece que houve um bombardeio ali. E já se fala em mil mortos na tragédia, números muito expressivos para ocorrências naturais dessa estirpe. E dizem que a pena de morte não existe no país... Está aí a prova em contrário. Centenas de pessoas foram condenadas à morte nas cidades serranas do Rio. Muitas delas completamente inocentes, principalmente as crianças e os poucos ignorantes das graves condições de risco em que viviam. Todos pereceram sob a pena capital por crimes ambientais mais ou menos graves, mas não passíveis de pena de morte.
As tragédias anunciadas que aconteceram no Rio de Janeiro também incluíam o sentenciamento dos cerca de mil envolvidos à pena de morte. Só que eles não sabiam. Ou fingiam não saber. A ocupação irregular das encostas e margens dos cursos d’água, áreas de preservação permanente (APP) está prevista na legislação ambiental, mas é ignorada constantemente pela classe política. Por vários motivos. E são esses administradores que condenaram à morte essas cerca de mil pessoas. E elas aceitaram passivamente porque a maioria ambém tem culpa.   
Muitas dessas áreas perigosas são até “doadas” aos moradores, pelos políticos inescrupulosos, sem se importarem com o risco. O que importa é capitalizar alguns votos, em detrimento da segurança dos moradores dessas áreas. Famílias numerosas ocupam áreas nas encostas e margens de rios, como se fosse a coisa mais natural do mundo, enquanto os políticos fazem vista grossa e até incentivam a ocupação. Mas, a verdade tem que ser enfatizada, a coisa mais natural do mundo é exatamente o que aconteceu, ou seja, a água subir e arrastar tudo a sua volta.
A água não é a vilã da história. Vilões são os ocupantes dessas áreas em que a água reinava soberana. Ela vem sendo desafiada ao longo dos anos e em algumas oportunidades, como aconteceu agora, ela mostra sua força.
O pior de tudo é saber que dentro em pouco toda essa área devastada será ocupada novamente. Pelos sobreviventes ou por outros infelizes que serão explorados de novo pela classe política local. Serão deixados lá nas áreas de risco até que a natureza se encarregue novamente de promover uma limpeza periódica. E todos os contribuintes pagarão pelo erro dessas pessoas e dos políticos que não cumprem sua função pública que é trabalhar para a proteção de seus eleitores.
E assim, meio que disfarçadamente, a pena de morte sobrevive entre nós. De tempos em tempos, principalmente no verão, centenas de pessoas são condenadas à pena capital, à revelia e até inocentemente. E, pelo visto, isso não tem data para acabar. Muito embora, as soluções existam. São muito menos dolorosas e dispendiosas do que o descaso atual. Mas tais soluções contrariam muitos interesses de gente poderosa e inescrupulosa.
Por isso, é doloroso admitir, ainda conviveremos um bom tempo com a terrível angústia de ver nossos semelhantes serem massacrados pelas forças da natureza, numa tragédia amplamente anunciada e totalmente ignorada.

José Nário de Fátima Silva - Muzambinho/MG