LITERATURA É ARTE?

Publicado em 20/07/2012 - ze-nario - Zé Nário

Tenho observado, continuamente, as relações das pessoas com as artes, porque a todo instante vemos manifestações de artes. Elas povoam deliciosamente nossa existência e enobrecem o nosso viver. Porém, infelizmente, a maioria dessas manifestações ainda depende da ajuda do poder público. E distorções acontecem em virtude disso. Aqui na cidade, em especial, muitas são as ocorrências artísticas patrocinadas pelo poder público. Temos o carnaval, considerado um dos mais animados do interior brasileiro. Temos os shows em praça pública, que são muitos. Eles acontecem durante a “Agrotur”, no aniversário da cidade e na virada do ano.
Temos também os shows das “folias de reis”, congadas e congêneres durante os encontros folclóricos anuais. Além desses shows, outros acontecem esporadicamente durante todo o ano. 
E estes shows musicais, assim como os rodeios, são considerados manifestações da cultura local. Muito corretamente, porque a música é uma das sete artes conhecidas. A dança, outra das chamadas artes tradicionais, geralmente está associada à música, ocorrendo praticamente em todas as ocasiões em que esta está presente. No carnaval, nos demais shows públicos, nos encontros folclóricos, a dança sempre aparece.
Como podemos ver, há um grande investimento público nessas duas artes, na música e na dança, ambas conhecidas por seu poder massificante, em detrimento das demais.  As chamadas sete artes são: a música, a dança, a pintura, a escultura, a literatura, o teatro e o cinema.
Tirando as duas primeiras, que já recebem bastante investimento, as demais também não mereceriam alguma consideração? Tá certo que a pintura, a escultura, a literatura e o teatro são – erroneamente -  consideradas artes elitistas, que não atraem as massas (e os votos). Mas acho que mereceriam pelo menos um investimento mínimo, a título de estímulo.
A cidade é privilegiada por ter grupos de teatro bem estruturados e atuantes. Possui pintores e escultores de reconhecido talento. E tem também uma quantidade razoável de escritores e poetas. São tantos que até se reuniram em uma agremiação denominada Academia Muzambinhense de Letras, que comemorou no dia 17 de Julho o seu terceiro aniversário de fundação.
Creio que pouca gente sabe disso, porque não há nenhum tipo de investimento oficial na agremiação, nem divulgação adequada do trabalho dos seus membros.
As reuniões do grupo acontecem nas dependências da Câmara Municipal, por deferência da mesa diretora da casa. A Academia não recebe recursos ou qualquer tipo de ajuda financeira oficial e as despesas são bancadas por seus membros.
Nós, da Academia, estamos apartados do “sistema cultural” da cidade. Aliás, isso acontece na maior parte das cidades do país. Pelo visto, nós escritores somos considerados como sobreviventes de uma arte menor.
Por conseguinte, nessa linha de pensamento, grandes artes seriam o carnaval, a folia de reis e até os rodeios, que recebem grandes investimentos.
Enfim, muito embora sejamos responsáveis pela perpetuação das outras artes, escrevendo constantemente sobre elas, nossa arte - a literatura - não tem valor.
Lembramos também que a história política do mundo é transmitida de geração para geração pelos cronistas de plantão. Ainda assim, os escritores são negligenciados pela política em geral.
Este fato, convenhamos, não é extremamente contraditório e triste? Pois é...

José Nário F. Silva - Muzambinho/MG