CADA UM QUE CUIDE DO SEU LIXO!

Publicado em 09/12/2011 - ze-nario - Zé Nário

O Rio de Janeiro nos dá o exemplo acabado de como não se deve tratar a criminalidade. Durante anos e anos, os morros da cidade foram ocupados por submoradias e problemas diversos, com a ausência total do Estado e até com a anuência dele. Dentre esses problemas inclui-se a criminalidade sob várias formas.
O tráfico de drogas encontrou ali as condições ideais para se desenvolver e trouxe junto toda sorte de contravenções. O acesso difícil, as ruas estreitas e uma infinidade de ruelas e becos facilitam imensamente a ocultação de criminosos de todas as estirpes. E praticamente todos eles acabam por se ligar ao tráfico, consequência do grande poder de sedução do dinheiro facilmente arrecadado e largamente distribuído pela corrupção.
Tudo isso facilita também a atuação de milícias formadas por agentes de segurança pública, geralmente policiais aposentados, ex-policiais e, a grande maioria, policiais da ativa. Essas milícias exploram a suposta proteção aos moradores, sob várias formas. E essa exploração, creio, não pode ser chamada de proteção.
Recentemente assistimos a mais um espetáculo cômico oferecido pelo governo do estado do Rio de Janeiro, quando da “ocupação” da favela da Rocinha. Exatamente como ocorreu na ocupação do Complexo do Alemão, no ano passado. Ações espetaculosas e fantasiosas foram implementadas para dar a impressão que estão promovendo uma faxina no crime organizado da cidade. São ações que visam dar um ar de segurança para os eventos esportivos previstos para 2014 e 2016.
No início de novembro, um ano depois da palhaçada chamada de ocupação, já aconteceram tiroteios entre polícia e bandidos no morro do Alemão. Isto deixa evidente que muitos bandidos nunca saíram de lá. E os que um dia saíram, já voltaram.
Dias antes da operação militar que invadiu a favela da Rocinha, bem antecipadamente, a policia divulgou a ação para que os bandidos fugissem.
E ameaçou: quem ficasse seria preso!
- Há, há, há, há. Que piada!
Depois de anos cometendo os crimes mais sórdidos: tráfico, extorsão, estupros, roubos de toda espécie, assassinatos e outros, os bandidos foram avisados com antecedência para fugir e evitar a prisão.
- Há, há,há, há. Que pândego!
E o bandido mais procurado da favela, o traficante “Nem”, deu azar. Escolheu a hora errada para fugir e foi preso. Totalmente por acaso. Esbarrou numa barreira policial e “teve” que ser preso. Os policiais não tiveram alternativas. Mas levaram horas para abrir a mala do carro, onde ele se encontrava, porque estavam com medo de prender o salafrário.
- Há, há, há, há. Que ridículo!
Policiais civis de uma delegacia próxima tentaram assumir o comando das ações.  Será que alguém estaria pensando em trocar o criminoso por alguns milhões de reais? Quem sabe... O pior é que se o burrão tivesse fugido alguns dias antes da ocupação teria dado certo. Naqueles dias estava liberada a evasão dos bandidos do morro. Na verdade, a evasão era liberada e incentivada.
E agora, depois do perigoso meliante devidamente “engaiolado”, o governo do Rio de Janeiro pediu a sua retirada do estado. E o famoso traficante foi mandado para o estado do Mato Grosso. Quer dizer, enviaram o pior lixo da favela carioca para a região centro-oeste.
É incrível como este tipo de ação se repete no cotidiano do povo brasileiro, evidenciando um dos nossos piores defeitos. Ninguém quer ser responsável pelo seu próprio lixo. E isso pode ser observado pelas ruas das cidades. Quase ninguém respeita os horários de coleta de lixo domiciliar ou industrial.
Grande parte das pessoas, logo depois de produzir o lixo, o coloca na rua como se esses restos não fossem de sua responsabilidade. Algumas pessoas fazem isso na véspera ou muitas horas antes da coleta, expondo o lixo às intempéries e à ação de vândalos e animais.
Outras pessoas despejam o lixo em terrenos contíguos, contribuindo enormemente para a proliferação de pragas (insetos, roedores, aves e outros animais) e doenças (dengue, leptospirose, febre tifóide, infecções, alergias etc.).
E isso é considerado uma grande esperteza. É a famosa “Lei de Gerson” em ação. Todos querem levar vantagem em tudo que fazem. Por isso jogam o lixo no terreno do vizinho. Mas essas ações só evidenciam a falta de compromisso com a coletividade e a ausência de um mínimo de educação de parte significativa da população.
E evidencia também, a exemplo do que ocorre nas favelas cariocas, a inoperância do poder público que se isenta de ações corretivas e ou educativas.
E as barbaridades vão se perpetuando na vida das pessoas comuns, dóceis e amáveis cidadãos que esperam inutilmente a ação dos poderes constituídos. As pessoas prejudicadas não se organizam para exigir seus direitos, sempre esperando atitudes que venham de cima, dos governos estabelecidos, para defendê-los. Coisa que raramente acontece.
Muitos indivíduos esperam favores pessoais dos políticos e mandatários, dispensando as ações de cunho comunitário, que beneficiem toda a população.
Estudiosos do assunto, como o pensador católico Raymundo Faoro (na obra “Os Donos do Poder: a Formação do Patronato Político Brasileiro”, datada da década de 50) afirmam que, infelizmente, isto é uma herança portuguesa. Com certeza!
Com certeza, é uma herança portuguesa! Quando do inicio da colonização portuguesa, os primeiros colonos aqui chegados eram exatamente o que existia de pior por lá. Começamos mal, né não? Condenados e degredados receberam como castigo a vinda para o Brasil.
Que castigão legal, né? E deu no que deu, há, há, há, há!
Para terminar, é bom lembrar que nos últimos tempos uma outra praga vem assumindo proporções alarmantes. É o barulho infernal do lixo musical que é lançado nos nossos ouvidos, saído de equipamentos sonoros automotivos ou domésticos.
Sempre é bom lembrar que alguns municípios já conseguem controlar todos esses excessos com leis municipais específicas e fiscalização rígida. Portanto, não é impossível dominar essas barbaridades. Basta vontade política.