Abraçando o meu lixo

Publicado em 08/07/2009 - ze-nario - José Nário de F. Silva

Venho acompanhando com atenção, e alguma apreensão, o desenrolar da polêmica em torno do Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Socioeconômico e Ambiental de Municípios da Região da AMOG (CONMOG). Devo salientar que, a princípio, achei este arranjo uma solução interessante e inovadora, apesar de acreditar que cada município deve se virar com o seu lixo. Assim como cada residência deve assumir a administração dos seus rejeitos, o que certamente resultaria em diminuição da quantidade total de lixo.
Com relação à polêmica, acho que todas as facetas do problema foram analisadas com propriedade pelos atores envolvidos, através deste semanário, sem deixar dúvidas. Assim sendo, acho que as entranhas do processo estão expostas e esperam soluções definitivas.
Eu não quero, de maneira alguma, imiscuir-me nas questões técnicas e políticas já discutidas publicamente, simplesmente porque não me dizem respeito diretamente. Creio que praticamente tudo que havia a ser exposto sobre a questão já foi dito e discutido amplamente. 
Quero ainda ressaltar a propriedade e a oportunidade da série de artigos sobre o problema do lixo elaborados pelo Professor Montipó, que resumem com maestria e conhecimento todos os problemas atuais da discussão ambiental. Esses artigos também deixam muito evidente a imensa distância que nos separam da conscientização e da solução dos problemas ambientais, além da difícil busca da sustentabilidade.
Portanto, como já disse, não pretendo assoprar a brasa da polêmica. Quero apenas oferecer uma pequena contribuição, falando a respeito de uma nova forma de ver o lixo. Nos últimos anos uma nova maneira de ver os rejeitos tem se apresentado, usando a técnica da Análise do Ciclo de Vida dos produtos, que analisa a entrada e saída de energia dos sistemas.
Considerando o perímetro urbano um sistema aberto, portanto passível de perdas, as comidas e bebidas utilizadas pela população são formas de energia que entram neste sistema. O ideal seria que toda essa energia fosse aproveitada, não restando qualquer tipo de rejeito. Mas sabemos que isto é impossível. Então, conclui-se, deve-se procurar o máximo de aproveitamento possível dessa energia, minimizando as perdas, que geram prejuízos financeiros e, principalmente, ambientais.
Estatísticas mostram que a o lixo urbano do Brasil é constituído, em média, por 60% de material orgânico, porcentagem que pode subir de acordo com o poder aquisitivo da população. Quer dizer, quanto maior o poder aquisitivo da população, maior a quantidade de lixo orgânico e, consequentemente, maior o desperdício. O lixo de algumas cidades chega a apresentar números acima de 70% de material orgânico úmido.
Enfim, o desafio é evitar que essa energia desperdiçada saia do sistema, aproveitando ao máximo os alimentos e os seus rejeitos. Para isso bastaria que cada pessoa “abraçasse” o seu lixo. Como a maioria das residências de pequenas cidades são casas com quintais e ou jardins, pequenos sistemas dentro do sistema cidade, tudo fica mais fácil. Esses rejeitos poderiam ser facilmente transformados em adubo orgânico de alta qualidade, assunto de um próximo artigo.

José Nário F. Silva
Eng. Florestal pós-graduado em Gestão Ambiental