Histórias, "Causos" e Estórias: No reino da passarada!

Publicado em 27/05/2011 - vonzico - Ivon W. Vieira (Vonzico)

Alguns pássaros, certa vez, num bate papo animado, chegaram à conclusão que não era justo que os animais tivessem um rei, e que eles, donos das praças e matas do Brasil não tivessem o seu chefe ou líder.
Depois de alguma conversação, chegaram a um acordo; que deveriam optar pela monarquia, e que se convocasse uma assembléia entre todos os pássaros do Brasil, a fim de democraticamente, levassem ao trono um seu digno representante, bem como todo o “staff” de governo legalmente constituído.
A notícia correu o País, cada qual levando a sua mensagem de Norte a Sul e de Leste a Oeste.
No dia aprazado todos compareceram na Fazenda Lagoa, município de Monte Belo, no Estado de Minas Gerais, onde existe uma linda reserva ecológica. O papagaio como o mais falante, juntamente com a arara e a gralha, propuseram uma chapa única, apresentando para Rei dos Pássaros brasileiros, o SABIÁ LARANJEIRA, muito conhecido de todos pelo seu belo canto, e citado em muitas canções sertanejas e folclóricas; e para vice-rei o UIRAPURU, naturalmente representando a floresta amazônica cantada em prosa e verso em todo o universo.
Foram aclamados por unanimidade e de imediato tomaram posse sob cantos mil, regidos pelo TANGARÁ, especialista inclusive pelas danças e demais folguedos.
Estavam presentes, entre outros, os seguintes pássaros: Sanhaço, Coleirinha do Brejo, Chupim, Bigodinho, Maritaca, Periquito, Rolinha, Juriti, Fogo-Pagô, Quero-Quero representando o Paraná; Xexeu, Tico-Tico, Corruira, Pintassilgo, que estava de namoro com uma Canária do Reino, que infelizmente estava presa numa gaiola, mas deu um “jeitinho brasileiro” e com ela teve um filho que recebeu o nome de “Pintagórdio”. Compareceram também o Melro, Bicudo, Maria Branca, Azulão, Anú, sendo que do Nordeste vieram a Asa Branca, Carcará, Arribçã, bem como o Urubu-Rei que ficou magoado por não ter sido indicado, mas aceitou democraticamente a votação; do norte do Paraná veio a Araponga, mas conhecida como Ferreiro; e da região sul-mineira e paulista vieram o Urubu, Gavião, Vira-Bosta, o Cabeça-de-fogo, também conhecido como Canário da Terra; João-de-Barro, Curiango, Pica Pau, Tucano, Curió, Andorinha, Andorinha-Tesoura, Beija Flor. Do Pantanal vieram o Tuiuiú, Garça e o Biguá; sendo que alguns pássaros não quiseram se identificar, mas por modéstia, do que acanhamento.
Meio separado, meio imponente, estava o Cardeal; uma Pombinha branca, mais ao longe; com óculos escuros por causa da claridade estava a coruja, pois não costumava vaguear durante o dia, mas havia feito uma exceção em razão da suma importância de tal reunião.
Antes da posse, fizeram uma homenagem ao UIRAPURU, que costuma cantar apenas quinze dias por ano, quando começa a fazer seu ninho, e costuma dizer que o seu canto ao amanhecer dura cerca de dez minutos, encantando a todos, e os entendidos dizem que os demais pássaros da floresta se calam para ouvir seu mavioso canto. Foi ovacionado com tremendo bater de asas.
O Sabiá-Laranjeira, todo entusiasmado, nomeou os membros do seu governo: Saúde e Higiene o Urubu; Comunicação, a Gralha, tendo como Secretário o Papagaio, ou melhor, como Porta Voz do governo; Indústria, Araponga (Ferreiro); Transporte, o Gavião, com alguns protestos dos pássaros menores, que o tinha como um inimigo em potencial; Economia o Vira-Bosta, também conhecido como Graúna, sob alguns protestos esparsos; Exército o Tangará, em razão de andar sempre em grupo, em fileira e ser exímio maestro; Marinha, o Martim-Pescador, por ter muita afinidade com água; Aeronáutica, o Gavião Penacho, pelos seus vôos rasantes; Defesa, o Bem-te-vi, que não deixa passar nada sem dar o alarme; Departamento dos Correios, não poderia ser outro, senão o Pombo-Correio; Esportes, o Tiziu, pelos seus malabarismos antes de treinar; Ação Social, o Tico-Tico, por viver criando filhotes de outros pássaros, principalmente do Chumpim que põe seus ovos em ninho alheio; Agricultura, o Pica Pau, por viver sempre perto das matas; Vigia Noturno das matas, houve uma pequena dúvida, Curiango ou Coruja, vencendo a última; Chefe da Orquestra, o Curió; Tomador de conta da bandeira, o Cabeça-de-fogo, em razão de sua popularidade no país; Chefe do Cerimonial, o Beija Flor pela sua delicadeza e Orador Oficial, o Tucano, em razão de ser “bom de bico”; Habitação, o Tuiuiú, em razão de viver em bandos e se empoleirar em árvores; como representantes da paz, não podia ser outra, senão a Pombinha Branca, símbolo da paz mundial, a Garça Branca foi indicado como suplente; a Asa Branca quis protestar, mas achou melhor não criar caso; junto ao clero, não houve nenhuma dúvida, o indicado para representar o Brasil, seria o Cardeal, que aceitou; para Relações Públicas foi indicado a Arara pela eloqüência e beleza , ficando na suplência o Periquito e a Maritaca. Embora fossem contra a pena de morte, mas para preservar a ordem da floresta e mesmo nas cidades e lugares foi indicado por unanimidade o Carcará, que ficou famoso pela música: “Carcará mata e come”. Todos ficaram arrepiados, mas concordaram, mais para dar uma satisfação ao Nordeste.
Como Chanceler, não tiveram alternativa, senão nomear o Canário do Reino, que embora vivesse eternamente preso em gaiola, era o que mais conhecia o estrangeiro, e pelo que informaram, já havia se naturalizado brasileiro. O encarregado de avisá-lo foi o Pombo Correio, que logo voltou trazendo a notícia que o Canário havia recebido com orgulho sua indicação, e dava os parabéns pela escolha do Sabiá-Laranjeira e Uirapuru para reinarem no Reino  da Passarada.
Em seguida foi dissolvida a Assembléia, e cada um seguiu o seu caminho, alegres pelo dever cumprido.