A IMPORTÂNCIA DA AGRICULTURA FAMILIAR

Publicado em 23/08/2019 - vitor-hugo - Da Redação

A IMPORTÂNCIA DA AGRICULTURA FAMILIAR

Na fazenda do nosso avô materno só se comprava o sal... até  o azeite que queimava nos lampiões era extraído das sementes da mamona, o engenho  movido pela roda d’agua produzia  o melado a rapadura e também  alambicava a cachaça que era curtida nos toneis de carvalho . O mangueirão dos  porcos  estendia pela várzea todo cercado de madeira ,onde  a porcada era criada com  a raspa da mandioca que sobrava do polvilho, o milho, abobora, restos de verduras  e o soro do leite que saia da fabricação do queijo. As galinhas, patos, perus e galinhas da angola se espalhavam por todos os cantos, e a noite empoleiravam nos galhos das laranjeiras  e aninhavam nos balaios de taquara. A agua do engenho era repartida para o monjolo que descascava o arroz e o café  e movia o moinho de pedra de onde saia o fubá, finalmente a água tocava um engenho de serra que desdobrava as peças de  madeiras  e era devolvida ao rio Pirapitinga  sem nenhuma poluição química, rio que tinha grande diversidade de peixes  e nas cheias abastecia  grandes lagoas. As abelhas  eram criadas em balaios de taquara, e o mel  estocado em garrafas. O gado só recebia tratos na época da seca e as juntas de boi  faziam todo serviço da fazenda  e puxavam  também o arado de aiveca que riscava o terreno para o plantio. Produziam  também grande variedade frutas, bananas, uvas , manga, laranjas de diversas variedades, faziam doces de marmelada, de cidra, goiabada e laranja da terra em compotas, a geleia e o licor de jaboticabas. A cada quinze dias  era abatido um porco e a carne  que sobrava do consumo se desdobrava em embutidos e defumados. O café produzido era transportado pelos  carros de bois e entregues ao comprador que beneficiava e classificava o café  catado à mão pelas dezenas de mulheres catadeiras, cada uma retirava um defeito do lote de café ,era serviço para boa parte do ano, a máquina e os armazéns de café eram ao lado da estação ferroviária de Bom Sucesso e o café embarcava direto para o porto de Santos. Pelo menos uma vez por mês o carro de boi vinha carregado para a cidade, trazendo de tudo um pouco, o queijo, azeite de mamona, rapadura, cachaça, polvilho, arroz, feijão, milho, fubá, compotas, conservas, embutidos, frangos, ovos, mel... e vale aqui lembrar...,não precisavam comprar nada  para  fazenda, o carro de boi voltava vazio, e o lucro ia para o banco, até o fumo de rolo era produzido por eles que plantavam e secavam as folhas para fazer os rolos de fumo .As sementes para o plantio dos cereais eram colhidas na própria fazenda, não se conheciam adubos, muito menos agrotóxicos  e nem plantas hibridas, muito menos transgênicas, mas já usavam fazer rotação de cultura e trocar  sementes para evitar a degeneração das espécies (no sul ainda se usa esta pratica entre produtores orgânicos  ) . O trabalho era repartido entre os filhos homens, as mulheres trabalhavam no engenho, plantações domesticas  e também teciam nos seus teares, bordavam, e nossa tia Ana era ate artista plástica, pintava belas telas. Não era só trabalho..., eram também festeiros, tinham  dois violeiros  e o tio Totonho que era famoso com sua sanfona de oito baixos . A fazenda tinha sua colônia e os trabalhadores agregados que viviam por conta própria, como se fossem pessoas da família, ao todo ali viviam mais de cinquenta pessoas, exclusivamente da terra, sem  poluir, sem degradar, criaram e até estudaram  filhos , não só preservando, mas  ate melhorando a fertilidade do solo . Apenas por uma questão de reflexão: Hoje o que estará produzindo esta mesma fazenda...? Quantas pessoas dela tiram seu  sustento ...? Será que continua sendo sustentável e dando lucro...?             

 (VITOR HUGO)