Coronavírus em Minas: quase 2,6 mi vivem em regiões sem leitos de UTI no Estado

Publicado em 24/03/2020 - saude - Da Redação

Coronavírus em Minas: quase 2,6 mi vivem em regiões sem leitos de UTI no Estado

O avanço da pandemia de coronavírus no país expõe cada vez mais as deficiências da infraestrutura hospitalar. É o que concluiu um levantamento do Instituto de Estudo para Políticas de Saúde (Ieps), que mostrou que quase 2,6 milhões de pessoas só em Minas Gerais vivem em regiões sem leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) – o equipamento é considerado essencial para tratar casos graves. Além disso, 40% dos municípios mineiros estão em situação de alta vulnerabilidade para a doença.

De acordo com o estudo, das 89 regiões de saúde do Estado, 29 não contam com o recurso. Só em Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte, quase 330 mil pessoas estão desassistidas. Para o infectologista e professor da UFMG Unaí Tupinambás, a situação é preocupante. “É uma prova da desigualdade e distorção de renda no nosso país e mostra a necessidade de políticas afirmativas. O que pode acontecer é essas pessoas com casos graves morrerem enquanto são transportadas para hospitais”, afirmou.

O Ieps também revelou que os hospitais públicos em Minas possuem uma média de 8,35 leitos de UTI para cada 100 mil habitantes, quando o recomendado é de pelo menos dez – número que ainda pode aumentar durante crises, como a provocada pelo coronavírus. No Brasil, a média é ainda menor, de 7,1. “O enfrentamento da pandemia vai ficar muito mais prejudicado diante do descaso das autoridades sanitárias, um descaso que já é crônico”, completou Tupinambás.

“Fragilidade histórica” no país

Segundo o médico sanitarista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Adriano Massuda, que é um dos autores do levantamento, os dados apontam a fragilidade histórica em muitas regiões do país. “Em termos de leito de UTI, há um número aquém do necessário e também uma alta taxa de permanência dos pacientes. Isso diminui a resiliência do sistema de saúde público para enfrentar a pandemia do coronavírus”, argumentou.

Só na região Sudeste do Brasil, 40,4% da população que depende do SUS reside em regiões altamente vulneráveis à doença. “Sem dúvida, a população carente é a mais afetada nessas situações. A desigualdade em saúde é muito grande no país e se revela ainda maior na área hospitalar”, disse.

O especialista lembrou ainda a projeção feita pelo instituto: caso 5% da população brasileira seja contaminada com o coronavírus e necessite de cuidados nas UTIs, 67% das regiões ultrapassariam mais de 100% de ocupação nos hospitais. “Há ainda uma questão do setor privado, que não tem tradição em trabalhar com situações de emergência em saúde pública e, por isso, tem um grau de vulnerabilidade”, complementa.

Uso do setor privado

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, Dirceu Bartolomeu Greco, o momento requer o uso dos leitos da rede privada. “Neste momento, o Sistema Único de Saúde (SUS) deveria tornar-se responsável em todos os sentidos pelos leitos de UTI dos hospitais particulares e filantrópicos. Isso aliviaria imediatamente, já que a quantidade de leitos per capita é muito maior na rede privada”, garantiu.

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) informou que trabalha “no fortalecimento da assistência e disponibilização de leitos”. Conforme a pasta, há 2.795 vagas de UTI que podem ser utilizadas “para atendimento dos casos graves de infecção pelo coronavírus, podendo, ainda, adquirir leitos na rede privada e habilitar novos”.

Apesar de não citar as alternativas, a secretaria enfatizou que “estuda todas as possibilidades viáveis para a abertura de leitos nos municípios mineiros, sempre em parceria com o Ministério da Saúde”.

Fonte: O Tempo