Uma dose de saudade

Publicado em 22/01/2021 - raul-dias-filho - Da Redação

Uma dose de saudade

Interessante como o tempo passa e as coisas mudam. Houve tempo, e nem faz tanto tempo assim, em que chinelo ‘de vão de dedo’ era o último recurso para quem não tinha o que calçar. Era sinônimo de pobreza e miséria. Hoje é vendido nas melhores boutiques do mundo e não está ao alcance de qualquer trabalhador. Assim como a cachaça. Era vendida em doses que custavam poucos centavos e tida como bebida dos pobres. Com alguns reais no bolso o sujeito saía do bar trançando as pernas. Outro dia vi uma garrafa de pinga, dessas marcas novas e promovidas por celebridades, anunciada por 3 mil reais. É só o que faltava. Estão sofisticando a cachaça! Logo a cachaça, que tem tanta identificação com a cultura mineira. Aliás, acho até engraçado como os brasileiros, de maneira geral, relacionam mineiro com cachaça. Não foram poucas as vezes em que, viajando pelo país, fui convidado a tomar uma dose, pelo simples fato de ser mineiro. É até engraçado. A conversa, quase sempre, era mais ou menos assim:  

“Prazer, Raul, Seja bem vindo. Muito bom te receber aqui. Você é de São Paulo mesmo? 

Não, sou do interior de Minas. 

Opa! Aceita uma pinguinha então?” 

Tem até uma piada que circula na Internet que reforça essa identificação. Ela fala sobre como alguns brasileiros se comportariam caso a temperatura começasse a cair no país. De acordo com a imaginação do humorista, seria algo assim:

Com 30 graus, os paulistas provocariam congestionamentos imensos a caminho da praia; os mineiros comeriam um queijinho na sombra; os baianos dançariam e comeriam acarajé e os gaúchos esgotariam o estoque de protetor solar. 

Com 25 graus, os paulistas fariam churrasco dentro das suas casas na praia; os mineiros comeriam feijão tropeiro na beira do fogão; os baianos não sairiam de casa depois das 17h por causa do vento e os gaúchos reclamariam do calor. 

Com 20 graus, os paulistas deixariam as praias e provocariam congestionamentos imensos na volta; os mineiros beberiam pinga perto do fogão de lenha; os baianos mudariam os chuveiros para a posição ‘inverno’ e os gaúchos tomariam sol no parque. 

Com 15 graus, os paulistas ainda estariam presos no congestionamento na volta do litoral; os mineiros continuariam bebendo pinga perto do fogão de lenha; os baianos tremeriam incontrolavelmente de frio e os gaúchos dirigiriam com os vidros abaixados. 

Com 10 graus, os paulistas lotariam as pizzarias e shopping centers com as famílias; os mineiros continuariam bebendo pinga e colocariam mais lenha no fogão; os baianos decretariam estado de calamidade e os gaúchos colocariam uma camisa de manga comprida. 

Com 5 graus, os paulistas lotariam hospitais e clínicas com doenças causadas pela inversão térmica; os mineiros continuariam bebendo pinga e quentão ao lado do fogão de lenha; a Bahia entraria no Armagedon e os gaúchos fechariam as janelas de casa. 

Com 0 grau, os paulistas ficariam todos em casa aumentando significativamente o ibope de programas como BBB e outras bobagens do gênero; os mineiros entrariam em coma alcoólico ao lado do fogão de lenha; a vida se extinguiria na Bahia e os gaúchos aproveitariam o friozinho para fazer um churrasco no quintal.  

Notem que em todas as situações o mineiro está no fogão de lenha, com uma comidinha ou com a cachacinha. Essa relação mineiro/pinga é antiga e surgiu com os primeiros engenhos de cana de açúcar no Brasil, logo depois do descobrimento. Diz a lenda que a pinga surgiu por um acaso do destino. Contam que alguns escravos deixaram o caldo da cana num tacho para fazer melado mas, cansados da lida diária, adormeceram. O caldo desandou e evaporou, formando muitas gotas no teto. Essas gotas, que já eram de álcool, pingavam sem parar, daí o nome ‘pinga’. Quando caíam nas costas dos escravos, marcadas por chibatadas, ardiam muito, e por isso a chamaram de ‘água ardente’, mais tarde resumida como aguardente, como é chamada até hoje. Tem gente que contesta essa lenda, diz que não é nada disso, patati, patatá, mas eu gosto dela assim e pronto, acabou. E olha que de pinga eu entendo um pouco, embora não seja um cachaceiro nato. Mas papai foi. Não cachaceiro de tomar cachaça, mas de fabricar a danada. No final da década de oitenta, quando ninguém, absolutamente ninguém, pensava em ter um alambique na roça e fabricar cachaça, papai montou um no sítio onde morávamos, no Cambuí. Na época, o que ele mais ouviu foram palpites desaconselhando a aventura: 

“Larga mão disso. Vai gastar dinheiro a toa.” “Que loucura é essa? Alambique na roça? Não vai dar certo” 

Mas papai não desistiu. Comprou equipamentos para moer a cana, tanque de cobre, resfriador, decantador, caldeira, vários tonéis de carvalho e todos os outros acessórios necessários em um alambique. E se pôs a fabricar cachaça. Como no sítio não tinha plantação de cana, comprava na Usina de Açúcar e Álcool, em Monte Belo. Com um detalhe: ele mesmo ia buscar e fazia questão de experimentar a cana antes de carregar o caminhão. Se não estivesse doce o suficiente, ele recusava a carga. Depois, no alambique, ele fazia tudo sozinho, desde moer a cana até experimentar a cachaça. Sim, o controle de qualidade era feito por ele e nisso papai era extremamente rigoroso. Me lembro de uma vez que ele descartou uma alambicada inteira, com centenas de litros de cachaça, porque a pinga tinha ficado, na avaliação dele, aguada demais. Mas, de maneira geral, ele sempre acertava a mão. Então armazenava toda a cachaça nos tonéis de carvalho e deixava ela maturar até ficar amarelinha e saborosa. Me recordo também do quanto ele ficava feliz quando alguém experimentava e elogiava aquela cachaça que havia dado tanto trabalho para ser feita. Hoje sei que, para ele, o alambique não era um meio de ganhar muito dinheiro fabricando e vendendo cachaça. Era simplesmente a realização de um sonho. E, enquanto durou, ele se orgulhou muito do alambique e da pinga boa que fazia. Agora, de férias em Minas, encontrei um garrafão esquecido numa prateleira e vi que lá dentro havia um pouco de cachaça. Bem pouco mesmo, suficiente apenas para encher uma lata de refrigerante. Mas era a pinga que papai fazia. Ficou guardada durante quase trinta anos. Continua amarelinha e bem cheirosa. Guardei numa garrafinha e trouxe para casa. A primeira dose estou experimentando agora, enquanto escrevo. E olha, nunca em minha vida bebi uma cachaça tão boa. No primeiro gole, ela fez um belo cruzeiro no copo. Para quem não sabe, o ‘cruzeiro’ acontece quando a boa cachaça escorre e deixa uma marca na borda do corpo, como se fosse um licor. Está doce. Como doces são as lembranças de meu velho pai, feliz, fazendo a cachaça no alambique que ele mesmo construiu.  Por hoje é isso. Semana que vem tem mais. Até lá.


Raul Dias Filho - O autor é jornalista e repórter especial da Record TV

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