Retratos em preto e branco

Publicado em 27/11/2020 - raul-dias-filho - Da Redação

Retratos em preto e branco

Outro dia vi uma notícia surpreendente. Ela informava que hoje, a cada DOIS MINUTOS, é tirada a mesma quantidade de fotos clicadas em todo o século 19. Ou, seja, em 120 segundos se tira o mesmo número de fotos que foram tiradas em 100 anos. Claro que existem diferenças notáveis que fazem com que isso aconteça. No século 19, só os fotógrafos profissionais e alguns raros amadores tiravam fotos. Hoje, com o celular, todos se transformaram em fotógrafos em tempo integral. Tudo é clicado. Pessoas, plantas, animais, o céu, a terra, a água, formiga, vagalume e, se não tiver nada para fotografar, vira o celular para o próprio rosto e manda uma selfie! É foto o tempo todo. Só que, infelizmente, quase todas ficam depositadas na memória do celular e não compartilhadas em família. “Ah, mas eu posto nas redes sociais e compartilho”, dirão alguns, mas esse ‘compartilhamento’ a que me refiro envolve muito mais proximidade e afeto. Aconteceu comigo na semana das eleições, quando estive em Cabo Verde e visitei uma de minhas irmãs, Neide, e meu cunhado, Binga. Depois de um almoço delicioso, com direito a polenta de bolota com molho e bife à milanesa, ela redescobriu duas caixas de sapatos com velhos álbuns de fotografias. Aqueles álbuns pequenos com fotos onde aparece até a hora e data em que foram tiradas. E ficamos horas ali, vendo uma por uma e comentando e relembrando as pessoas e situações em que foram tiradas. Cada uma daquelas fotos tinha uma história. Entende agora o que eu digo sobre compartilhar? Não é simplesmente enviar para alguém, é comentar sobre elas, relembrar momentos, rir, as vezes chorar, enfim, se emocionar revisitando o passado através de imagens. Mas se todos temos centenas ou milhares de fotos armazenadas no celular, porque não as compartilhamos assim? Porque as fotos de papel guardam a inigualável magia de poderem ser tocadas, passadas de mão em mão e, muitas vezes, acariciadas e beijadas. Nos remetem a um passado onde as fotos não eram, assim, tão comuns e banais. Eram tiradas em ocasiões especiais e geralmente festivas, como aniversários, casamentos, batizados, formaturas, festas e bailes. Ou encontros onde a família toda se reunia. Também por isso deixam saudade, porque remetem a tempos felizes. Tempos onde cada cidade tinha seu fotógrafo profissional. Aqueles que eram requisitados para registrar os momentos mais solenes, festivos e, porque não, históricos para o município e para os moradores. Em Cabo Verde, o homem que registrou tudo nas décadas de 60, 70 e 80 foi o Noely. Eu o conheci ainda criança, já que morávamos na mesma rua e tive a felicidade de ser amigo de um dos filhos dele, Alan. Amizade que se reforçou com o tempo. Noely era calmo, metódico e extremamente profissional. Reservado, de poucas palavras mas humor refinado, era discreto e preciso na hora de fotografar. Sabia se posicionar e conseguia passar despercebido mesmo em ambientes solenes, como casamentos ou eventos fechados. A presença dele só era percebida quando o flash, daqueles  redondos, presos à maquina e acionados separadamente, e imensos para os padrões atuais, fazia aquele barulho de ‘pluf’ e clareava todo o ambiente. Noely era perfeccionista. Regulava a máquina várias vezes durante um trabalho, ajustando velocidade e temperatura, porque não admitia perder alguma foto. Foi o responsável por registrar todos os principais eventos e momentos de Cabo Verde, durante praticamente três décadas. Quando os filhos se formaram, ele se aposentou da fotografia. Trocou a máquina pelo pandeiro, que batucava como poucos, e se divertiu como nunca. Foram inúmeras festas que compartilhamos juntos, ele sempre com o pandeiro e com um sorriso discreto de quem sabe ser feliz, e em nenhuma delas Noely tirou alguma fotografia. Certa vez perguntei a ele se tinha desgostado da fotografia e Noely respondeu: “Ah, pra quê? Hoje qualquer um tira fotografia”. E ele estava coberto de razão. Os números são indiscutíveis. Em 1990 foram tiradas 57 bilhões de fotos no mundo. Todas analógicas, ou de ‘papel’, como prefiro dizer. Em 2000 foram 86 bilhões de fotos, e 99% ainda eram de papel. Em 2011, esse número saltou para 400 bilhões. E apenas 1% eram de papel. A foto digital já tinha tomado conta do mundo. Foi nesse ano, 2011, que Noely também se despediu de todos nós. Uma doença rara e de difícil diagnóstico fechou os olhos do melhor fotografo que Cabo Verde já teve. Noely nunca se queixou da tecnologia nem foi derrotado por ela, porque se redescobriu imensamente feliz longe da fotografia. Mas muitos bons fotógrafos, profissionais competentes, acabaram substituídos por meros batedores de fotos e por máquinas inteligentes, com lentes poderosas, que se ajustam sozinhas e são imunes a erros. Sem contar com o famoso photoshop, que permite limpar e corrigir as imagens antes de revelar as fotos. Os pioneiros da fotografia não contavam com nenhuma dessas facilidades. Dependiam de máquinas que exigiam ajustes perfeitos, além do talento, sensibilidade, conhecimento e experiência do fotografo. E ‘sensibilidade’ é uma palavra chave. É indispensável para quem trabalha com imagens. E fundamental para quem trabalha com as palavras, com a escrita. Pois eu digo: assim como os fotógrafos, prevejo que nós, jornalistas, também seremos, num dia que espero distante, atropelados pela tecnologia. Sinto que chegará a hora em que até nós, escribas do dia a dia, seremos substituídos pelos computadores. Robôs super capacitados e dotados com a chamada “Inteligência Artificial” serão programados para fazer textos e reportagens, combinando estilos de grandes escritores e jornalistas do passado. Serão textos impecáveis quanto à gramática e vocabulário. Talvez falte aquela pitada de graça, ironia ou emoção, que só a sensibilidade permite acontecer. Assim como faltam emoção, arte e graça nas fotos tiradas a granel. Então, quando isso acontecer, restará aos leitores saudosos garimpar velhos livros e jornais em busca de uma leitura mais personalizada. Exatamente como fazemos hoje quando mexemos nas gavetas e nas caixas em busca de velhos álbuns, de fotografias amareladas pelo tempo, de retratos em preto e branco que nos permitem viajar no tempo, rir e chorar, e nos proporcionam tantas lembranças e boas recordações.  

(Essa crônica é em homenagem a Noely Geraldo de Carvalho) 

Por hoje é isso. Semana que vem tem mais. Até lá.  

O autor é jornalista e repórter especial da Record TV

E-mail: [email protected]