Olhai as aves no céu

Publicado em 29/01/2021 - raul-dias-filho - Da Redação

Olhai as aves no céu

Tempos atrás, e já faz um bom tempo mesmo, coisa de 20 anos, fiz uma reportagem em São Paulo acompanhando um ornitólogo para mostrar as aves que habitavam a capital. Não tinha muita expectativa porque imaginava que seria uma furada encontrar, avistar e filmar aves na chamada selva de pedra. E como me enganei! Depois de poucas horas, fiquei espantado com a quantidade de espécies diferentes que conseguimos avistar numa tarde. Foram muitas mesmo, avistadas nos mais diferentes pontos da cidade. Meu guia na época foi o fotógrafo de aves Edson Endrigo, autor de vários livros e que, desde então, todos os anos me presenteia com lindos calendários de aves. Pouco tempo depois, Endrigo também seria meu companheiro de aventura em Presidente Figueiredo, no Amazonas, quando nos embrenhamos na selva a procura de duas aves lendárias: o Galo da Serra e o Uirapuru. A primeira é famosa pela beleza. A segunda, pelo canto. O Galo da Serra é uma das aves mais exuberantes do mundo. É pouco maior que um galo garnizé e tem as penas todas alaranjadas. Foi preciso dois dias de procura para encontrar alguns Galos da Serra e fazer as imagens. Apesar de belíssima, a ave não tem um canto bonito. Emite apenas alguns pios para atrair as fêmeas ou marcar território. Depois de dois dias de busca, nós o flagramos num final de tarde. Como é uma ave arisca, ficamos em silêncio, entre as folhagens, fazendo as imagens e contemplando aquela beleza exótica. Já o Uirapuru é o contrário. Ele é pequeno, não tem muita beleza, se parece no tamanho e nas cores com um tico tico, mas o canto... ah, o canto do Uirapuru é suave, melodioso e inesquecível. Diz a lenda que o canto dele é tão bonito que, quando ele ‘solta a voz’, a floresta toda fica em silêncio. Interessante que, mesmo sendo ele discreto assim, o encontramos depois de poucas horas. O segredo foi usar a gravação do próprio canto para atraí-lo. Foi chegar no lugar onde ele havia sido ouvido dias antes, ligar a gravação do canto e em pouco tempo já ouvimos a resposta. Ele foi se aproximando devagar, entre os galhos, sempre respondendo ao canto do gravador. Olha, quando o ouvi ao vivo, na mata, realmente tive a impressão de que todos os outros animais se calaram enquanto ele cantava. E nos encantava. O uirapuru ganhou fama na década de sessenta, quando o canto dele foi gravado na selva amazônica e se transformou em um disco, um compacto simples que vendeu milhares de cópias Brasil afora. O passarinho ficou tão famoso que ganhou até uma música, chamada Uirapuru, que fez sucesso na voz do conjunto  ‘Nilo Amaro e seus cantores de ébano’. Eles cantavam no estilo da banda americana ‘The Platters’ e Nilo Amaro tinha uma voz possante e bonita. A primeira estrofe da música é assim: 

“Uirapuru, uirapuru,
Seresteiro, cantador do meu sertão
Uirapuru, ô, uirapuru,
Tens no canto as mágoas do meu coração” 

O canto do uirapuru ficou gravado em minha memória. Assim como a beleza impressionante do Galo da Serra. Mas a grande vantagem dessas reportagens e desses encontros foi que aprendi ali a ‘perceber’ mais as aves que nos cercam. Elas estão em todos os lugares e, não sei se você concorda comigo, cada vez mais em maior número. Fazem revoadas, cantam, assobiam, às vezes invadem nossas janelas e casas mas, mesmo assim, passam despercebidas pela maioria de nós. Despercebidas no sentido de que não paramos para admira-las como merecem. Sempre as vemos, e as ouvimos, como banais. Raramente observamos atentamente as cores das penas, o formato do bico, a maneira como cantam ou piam, enfim, pouco valorizamos essas belezas que nos cercam. Poucas semanas atrás, de férias no São Bartolomeu, fiz várias caminhadas passando por pastos, cafezais e trilhas, e fiquei maravilhado com a quantidade e diversidade de pássaros que encontrei pelo caminho. E olha, quando a gente para para apreciar cada um, com zelo e atenção,  descobre detalhes e belezas que podem ser comparadas às do Galo da Serra ou uirapuru. Cada ave tem seu detalhe. Que bicho você conhece que tem tons de azul? Alguns passarinhos tem! Cada um com sua beleza própria. Como ignorar os tons de amarelo no canário do reino; o charme e graciosidade do preto e branco da viuvinha, ou noivinha, como alguns preferem chamar; o canto forte do azulão; o cantar inconfundível e a beleza das penas do bem-te-vi; as cores vibrantes e o voo impressionantemente rápido dos beija- flores; a engenharia do joão-de-barro, conhecido como ‘engenheiro da floresta’. Aliás, até hoje os estudiosos das aves não sabem como o joão-de-barro desenvolveu a habilidade de construir a casinha dele sempre com a porta de entrada estrategicamente posicionada na direção contrária à chuva e ao vento, o que o mantém protegido das intempéries. Além disso a casa feita de barro, galhos e esterco é super resistente e tem dois cômodos, o que impede a entrada de predadores e deixa os filhotes bem protegidos. Nessas andanças, vi também alguns tucanos voando aqui e ali. E muitas maritacas. É diversidade e beleza ao nosso redor. Ao alcance de nossos olhos e ouvidos. Creio que esse aumento da população de aves na região tem muito a ver com o fim da cultura dos alçapões, arapucas e gaiolas. Hoje, por causa da fiscalização e da conscientização, quase ninguém mais tem passarinhos presos em gaiolas. Mas, tempos atrás, isso era muito comum. Os maiores troféus eram o azulão, o curió e canário do reino. Foram tão caçados que algumas dessas aves entraram na lista de animais ameaçados de extinção. Eram outros tempos, outra cultura, onde até algumas barbaridades eram vistas com naturalidade. Alguns ‘criadores, por exemplo, deixavam os bichinhos com sede ou fome nas gaiolas, na tentativa de faze los cantar mais e melhor. Outros chegavam a extremos, como amputar ou ferir os pássaros. É o que conta, por exemplo, a música ‘Assum Preto’, gravada na década de 50 por Luiz Gonzaga: 

“Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió” 

Na música, Luiz Gonzaga prossegue, explicando qual é o destino do passarinho: 

“Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá” 

Assum Preto e Uirapuru são clássicos imortais da música brasileira. Uma foi feita para louvar o canto de um passarinho e outra, inspirada no martírio de uma avezinha. Foram compostas, certamente, por pessoas que tinham amor e zelo por esses animaizinhos. Nós também podemos fazer nossa parte. No São Bartolomeu, tempos atrás minha irmã Ineizinha pendurou um ninho na varanda. Todos os anos, um casal de canarinhos passa uma temporada ali. Chegam, botam os ovos, a fêmea choca enquanto o macho fica de guarda e traz, regularmente, alimento para os filhotes. Depois de algum tempo, os filhotinhos aprendem a voar, batem asas e ganham o mundo. É uma troca. Eles ganham abrigo e proteção e nos devolvem, em troca, a oportunidade de apreciar momentos de ternura e afeição entre eles. Sobre isso, pego emprestada uma reflexão do escritor Augusto Cury, que diz o seguinte:

“Mais sábios que os homens são os pássaros. Enfrentam as tempestades noturnas, tombam de seus ninhos, sofrem perdas, dilaceram suas histórias. Pela manhã, têm todos os motivos para se entristecer e reclamar, mas cantam agradecendo a Deus por mais um dia. E vocês, portadores de nobre inteligência, que fazem com suas perdas?” 

Por hoje é isso. Semana que vem tem mais. Até lá.  


Raul Dias Filho - O autor é jornalista e repórter especial da Record TV

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