O rio que corre pela minha aldeia

Publicado em 26/02/2021 - raul-dias-filho - Da Redação

O rio que corre pela minha aldeia

Era uma vez um rio de águas limpas e rápidas que serpenteava entre as montanhas do sul de Minas, irrigava os vales e era cheio de peixes. Dizem que, nesse rio, tinha muitas tabaranas, um peixe que só ocorre em rios com essas características raras e especiais. Como nos contos de fada, tudo era lindo e maravilhoso no entorno desse rio. Os lavradores irrigavam suas plantações, os peixes tinham fartura de alimentos e ótimas condições para se reproduzirem, os pescadores se fartavam com tantos peixes e a natureza, generosa, retribuía repovoando o rio e embelezando a paisagem com corredeiras e cachoeiras. Até que um dia alguém decretou que o rio, daquele jeito, não era bom o suficiente. Então trouxeram muitos homens e muitas máquinas que, sem dó nem piedade, rasgaram as entranhas do rio, cortaram suas veias e lhe tiraram tudo: os peixes, as corredeiras, enfim, o deixaram desfigurado, agonizante. E assim ele está até hoje, a espera de um herói improvável que possa lhe devolver a vida. Ponto final.  Seria interessante, embora com final infeliz, se esta história fosse um conto de fadas. Mas não é. Ela é feita de fatos reais e o rio a que me refiro é o rio que corre pela minha aldeia. E se chama Rio Cabo Verde. Ele nasce numa serra no município de Campestre, a 1.200 metros de altitude, e percorre 70 quilômetros, passando por Divisa Nova, Areado, Botelhos e Cabo Verde, até desaguar no lago de Furnas. E foi justamente no trecho onde ele passa por Cabo Verde, que lhe empresta o nome, que o rio foi vítima do sórdido crime ambiental que quase o matou. Foi na década de 70, quando o Brasil padecia sob a ditadura militar que, em nome do ‘milagre econômico’ e sem dar ouvidos a ambientalistas, o governo resolveu dragar o rio Cabo Verde. A dragagem consiste basicamente em limpar o fundo do rio, removendo barro e sedimentos e colocando no lugar pedras e entulhos, e limpar as margens, tirando a vegetação e praticamente impermeabilizando os barrancos. O objetivo é tornar as águas mais rápidas e impedir enchentes e alagamentos. O problema é que, ao fazer isso, você altera dramaticamente o habitat dos peixes, porque retira a vegetação do entorno, essencial para a reprodução; retira os sedimentos, essenciais para a alimentação e altera a velocidade da água, o que desorienta os peixes durante a piracema. E foi exatamente o que aconteceu. O rio Cabo Verde só não morreu completamente porque as cachoeiras impediram que todo o leito fosse dragado. Quem passa pela rodovia perto da entrada para Divisa Nova, por exemplo, se olhar para o lado verá uma linda e caudalosa cachoeira, reproduzida na foto que ilustra hoje essa coluna. Pois aquele é o rio Cabo Verde que não foi agredido pelas dragas do governo. Ele ainda sobrevive, majestoso, antes de chegar até onde as dragas o agrediram. Me lembro de, ainda criança, acompanhar papai em algumas pescarias no Cabo Verde. Ele colocava as enormes varas de bambu na carroceria do caminhão, estacionava numa estrada de terra e andávamos um bocado pela várzea até chegar às margens do rio. Enquanto ele fisgava tabaranas e bagres eu me divertia pescando lambaris. Tudo isso acabou quando o rio foi dragado. Os peixes sumiram e os pescadores também. É importante relembrar tudo isso até para que seja feita uma reparação histórica e necessária. Durante muito tempo, alguns apontaram um funcionário da Emater da época como responsável pela dragagem. Ele se chamava José Messias e era um homem muito trabalhador e correto, além de um amigo leal. E é importante que se diga: sempre foi contra a dragagem. Só que as obras foram feitas dentro de um programa do governo chamado Pró Várzea e coordenado pela Emater. Naquela época, (será que voltamos no tempo?) os generais mandavam e não tinha discussão. Era fazer ou fazer! E Zé Messias, como coordenador da Emater em Cabo Verde, fez o que lhe restava: acompanhou as obras. E ponto. Aliás, sempre lamentou profundamente o que ele mesmo chamava de ‘crime ecológico hediondo’. Como ele não está mais entre nós, para se defender, aproveito para fazer essa reparação. E aproveito também para esclarecer a frase que usei no começo desta crônica, quando disse que o rio Cabo Verde ‘é o rio que passa pela minha aldeia’. Antes que alguém se ofenda, imaginando que chamo Cabo Verde de aldeia, explico que isso é uma alusão aos versos imortais de Fernando Pessoa, quando ele compara o pequeno rio que passa na aldeia dele com o Tejo, o maior rio de Portugal: “o Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. Eu, pegando carona na genialidade do poeta, diria que o rio São Francisco não é mais belo que o rio Cabo Verde. Porque o São Francisco não é o rio que corre pelo meu Cabo Verde.    

Por hoje é isso. Semana que vem tem mais. Até lá.  


RAUL DIAS FILHO - O autor é jornalista e repórter especial da Record TV

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