O recado das urnas

Publicado em 20/11/2020 - raul-dias-filho - Da Redação

O recado das urnas

“Os ventos da modernidade finalmente parecem soprar para os lados de cá. Desta vez as urnas mandaram um recado claro para as cidades da nossa região. Disseram, em alto e bom som: queremos mais mulheres na política! Elas nos representam, sim senhor!”

Sempre gostei do dia da eleição. É especial, diferente, movimentado. Nas cidades pequenas, então, é melhor ainda. O dia mal amanhece e as pessoas já estão de pé, comentando e fazendo previsões sobre o resultado das urnas. O clima de expectativa e ansiedade vai aumentando à medida em que as horas passam e as notícias, que correm de boca em boca, começam a chegar. São informações genéricas, sem muita precisão e importância, mas que ajudam a compor um ambiente festivo e, ao mesmo tempo, carregado de tensão e muita apreensão. As perguntas são quase sempre as mesmas, e as respostas também: “e aí, o que você acha que vai dar? Ah, eu acho que a gente ganha. Mas tô com medo”. Esse envolvimento do eleitor com o candidato só acontece, com esse grau de intensidade, nas eleições municipais e em cidades menores. É quando o eleitor conhece o candidato pessoalmente, tem algum vínculo de amizade, ou de antipatia, e vota nele, ou deixa de votar, justamente por isso. Quando a votação se encerra, então, o nível de adrenalina vai lá em cima. E agora? Será que meu candidato ganhou?? Hoje em dia, com as urnas eletrônicas, nem dá pra ficar muito tempo apreensivo porque os resultados são divulgados em tempo recorde. Tudo bem que este ano houve um pequeno atraso mas, em média, meia hora depois do encerramento da votação já se sabe quem são os novos eleitos. Antigamente, e esse ‘antigamente’ nem faz tanto tempo assim, os votos eram registrados em cédulas de papel. Por isso, o eleitor demorava muito mais tempo para votar e as filas nas seções eleitorais eram sempre grandes. A apuração, então, era interminável. Todas as urnas eram levadas para um mesmo local, normalmente o ginásio de esportes da cidade, e os votos eram contados um a um, manualmente. A apuração começava as sete da noite, se estendia madrugada adentro e só terminava na manhã seguinte. Os candidatos, amigos, familiares e cabos eleitorais acompanhavam a abertura e contagem de cada urna. Todos de papel e caneta na mão, contabilizando cada voto e esperando ansiosamente pela abertura da urna ‘premiada’. Era aquela onde o candidato acreditava ter muitos votos. Os comentários eram sempre na linha “eu tô esperando a abertura da urna de tal lugar, porque é lá que eu vou disparar”. Era demorado? Era. Era bom? Era ótimo! Nada superava aqueles momentos onde sensações tão diferentes e contraditórias, como ansiedade, expectativa, apreensão, otimismo, euforia e decepção tomavam conta do ambiente. Mas, deixando a nostalgia de lado, pessoalmente, sou a favor das urnas eletrônicas. Embora muito se fale sobre fraudes, a verdade é que nunca se provou nada contra elas. Tem político aí que foi eleito com urna eletrônica e hoje duvida do sistema. Então ela só funciona quando os votos são favor?  Quando o resultado não é favorável, a culpa é da urna? Ah, dá licença, vai. Em algumas questões, sobretudo quando se fala em tecnologia, é preciso deixar o conservadorismo de lado. E é aqui que chegamos no ponto que eu queria chegar e que me incomoda muito, há muito tempo: o conservadorismo na política. Para ser exato, em nossa região não se trata nem de conservadorismo, mas de machismo mesmo. Vou exemplificar citando quatro cidades de nossa região, as quatro conheço melhor, por frequentar jogando futebol ou indo a bailes na juventude: Cabo Verde, Muzambinho, Botelhos e Monte Belo. Você sabia que nenhuma delas jamais foi governada por uma mulher? A região nunca teve uma prefeita! Pior ainda. Ao longo da história, foram pouquíssimas vereadoras. No últimos 73 anos, Muzambinho teve apenas 6 mulheres na Câmara de Vereadores. Cabo Verde, apenas 3! Verdadeiras heroínas que desafiaram o sistema e a mentalidade vigente e conseguiram se eleger. Na última legislatura, não havia nenhuma mulher nas Câmaras de Muzambinho, Cabo Verde e Botelhos. Em Monte Belo, sim, havia duas. Contando as 4 Câmaras são, ao todo, 38 vereadores. E só duas mulheres! Por isso, nesse sentido, os resultados dessas eleições devem ser comemorados. Os ventos da modernidade finalmente parecem soprar para os lados de cá. Desta vez as urnas mandaram um recado claro para as cidades da nossa região. Disseram, em alto e bom som: queremos mais mulheres na política! Elas nos representam, sim senhor! Queremos renovação! Os resultados finais indicam que o eleitor entendeu o recado. Em Muzambinho, das onze vagas, apenas dois vereadores foram reeleitos. E os mais votados, entre todos os candidatos, foram duas mulheres! Votações arrasadoras: Jaqueline Kraus teve 589 votos e Lúcia Bernardes, 587. Em Cabo Verde, duas mulheres também foram eleitas. Maísa Gianini teve a maior votação que um candidato a vereador já recebeu na cidade, com 564 votos. Professora Vanda também ficou entre os cinco mais votados, com 275 votos. Em Monte Belo também houve renovação. Apenas 3 vereadores foram reeleitos mas, entre eles, as duas únicas mulheres que já estavam na Câmara: Cida Correia e Rosária Souza, com ótimas votações. A onda da renovação passou por Botelhos também, onde apenas dois vereadores foram reeleitos mas a Câmara, que já não tinha representantes femininos, continuará órfã de mulheres. Na verdade, fazendo uma avaliação fria, no geral, os números femininos ainda são muito tímidos. O que anima é a votação esmagadora que algumas candidatas tiveram. Tomara que indique uma tendência, que cada vez mais as mulheres da nossa região tenham voz e ocupem o lugar de destaque que sempre mereceram. Às desbravadoras de agora, parabéns! Sejam muito bem-vindas à política. Não desanimem nem esmoreçam diante dos desafios porque, por certo, serão ainda mais cobradas que os homens. É preço a pagar por serem pioneiras. Do lado de cá, desejo, de coração, toda a sorte do mundo!  

Por hoje é isso. 

Semana que vem tem mais. Até lá. 

Raul Dias Filho - O autor é jornalista e repórter especial da Record TV
E-mail: [email protected]