O queijo nosso de cada dia

Publicado em 04/12/2020 - raul-dias-filho - Da Redação

O queijo nosso de cada dia

Não faz muito tempo, me contaram uma história, meio história, meio piada, de um mineirinho que responde sobre as coisas que mais gosta. A conversa é mais ou menos assim:   

“-Você gosta de trabalhar, mineiro? 

-Gosto. 

-Gosta de mulher?

-Uai, gosto! 

-Gosta de dinheiro?

-Uai, quem não gosta? 

-Você gosta de pescar, mineiro? 

-Gosto. 

-E de queijo, você gosta? 

-Vixe Maria!!” 

A história, bem humorada, revela um pouco da alma do mineiro e, sobretudo, da ligação intrínseca que temos com esse objeto branco, arredondado e indispensável na mesa de um bom mineiro. Quem não gosta de queijo? Eu adoro. De todo tipo! Fresco, meia cura, curado, mussarela, parmesão, provolone, o que vier eu traço. Esse meu gostar que virou paixão começou muito cedo com um queijo que a gente chamava de ‘fita’. Se você nunca ouviu falar, vou explicar. Já contei que papai tinha uma linha de leite, né? Então. Todos os dias ele percorria sítios e fazendas com o caminhão, recolhendo leite e transportando até o laticínio da Polenghi, em Cabo Verde. Naquela época a Polenghi já era reconhecida pela qualidade dos queijos e, embora operasse em grande escala, as últimas etapas da fabricação eram artesanais. Quando o queijo era colocado na forma um funcionário cortava as rebarbas, que saiam em tiras e eram divididas entre os funcionários da fábrica. Como papai era funcionário, praticamente TODOS OS DIAS ele chegava em casa com um saquinho cheio dessas tiras, que a gente chamava de ‘fita’. Mais tarde, quando papai deixou de fazer a linha de leite e nos mudamos para o sítio, o queijo continuou fazendo parte de nossa rotina e de nossas vidas. Como ele tinha algumas vaquinhas, vendia parte do leite e o que sobrava era usado por mamãe para fazer  queijos. A ideia era vender e reforçar a renda mas um deles sempre ficava em casa. E quando não tinha, por falta de tempo ou de leite, encomendava da tia Mariana, que faz um queijo delicioso, daqueles que desmancham na boca. De um jeito ou de outro, o queijinho nosso de cada dia era sagrado. E continua sendo para muitas famílias aqui da região, como alimento ou importante complementação de orçamento. E é assim também na maior parte de nosso estado. Na região de Piumhi e de São Roque de Minas, no pé da Serra da Canastra, o queijo artesanal é a principal fonte de renda para centenas de famílias. São vários municípios que produzem, juntos, em torno de 17.000 quilos de queijo canastra POR DIA. Eu reforço o ‘por dia’ porque não são produzidos industrialmente em fábricas e laticínios. São queijos artesanais, feitos à mão desde a ordenha até o momento em que ele sai da forma, branquinho, redondo, macio, formoso e gostoso. Aliás, a receita de um bom queijo não mudou muito ao longo da história. Diz a lenda que o primeiro queijo surgiu por acidente, quando um mercador árabe saiu a cavalo para uma longa viagem e levou com ele uma bolsa cheia de leite de cabra, para matar a sede e se alimentar. Como a bolsa era feita com a pele do estômago e da bexiga dos animais, que contém o coalho natural, depois de muito galopar sob o sol quente, quando ele chegou ao destino o que tinha dentro da bolsa? Soro e queijo. Ele provou, gostou, espalhou a novidade e o mundo inteiro aprovou. De lá para cá o queijo passou por diversos processos de fabricação e ganhou novas caras. Hoje existem cerca de 400 tipos diferentes, entre os mais conhecidos e comercializados no mundo. E nós, mineiramente, continuamos a fazer bonito. Ano passado teve um concurso de queijos artesanais  na França que reuniu 952 produtores do mundo inteiro. Depois de vários dias de degustação, os paladares exigentes dos jurados europeus premiaram 56 queijos brasileiros entre os melhores do mundo. Sabe quantos eram mineiros? 50! E quer saber? Eu não me surpreendo. A identificação de Minas e dos mineiros com o queijo vem desde o Império, quando nosso estado se transformou na maior bacia leiteira do país. Mas não basta leite para fazer um queijo bom. A receita envolve muito mais que misturar ingredientes. Requer, em primeiro lugar, o saber e a experiência. É preciso ainda muita paciência e alguma coisa de afeto. Só assim pra ele ficar branquinho, macio e cremoso. Aquele que acompanha bem uma xícara de café quente. Ou amarelo, bem curado, duro e saboroso. Aquele que acompanha bem um copo de cerveja ou de vinho. Sem contar que, ralado, ainda melhora muito o sabor de alguns pratos. Ou se transforma no principal ingrediente para um delicioso pão de queijo. E quer saber? Escrever sobre isso me deu imensa saudade do queijo que mamãe fazia. E do queijo da tia Mariana também, aquele que desmancha na boca. E tomara que essa leitura te deixe com vontade de saborear um pedaço de queijo também. Porque eu acabei de comer um.   

Por hoje é isso. Semana que vem tem mais. Até lá.


RAUL DIAS FILHO - O autor é jornalista e repórter especial da Record TV

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