Cheiro de saudade

Publicado em 23/10/2020 - raul-dias-filho - Da Redação

Cheiro de saudade

Outro dia, depois de algumas semanas de muito sol e mormaço, começou a chover. Ela veio mansamente, em forma de chuvisqueiro leve, foi engrossando, até se tornar uma chuvinha como há muito não se via por aqui. Aquela chuva gostosa, sem vento, sem trovoadas, onde a água cai limpa e farta do céu, forma pequenas enxurradas, refresca o ambiente, e até a alma, e deixa um cheiro gostoso no ar. Cheiro de chuva. Engraçado isso, né? Água não tem cheiro, dirão alguns. Mas chuva tem, sim senhor. Quem mora na cidade percebe o cheiro da chuva quando ela molha as ruas e os telhados, lavando a poeira e a sujeira acumuladas durante a estiagem. Agora, quem mora na roça sente o cheiro antes mesmo da chuva cair. Sabe assim, quando o tempo começa a fechar e bate aquele ventinho? Então, ali o caboclo da roça já tem todas as previsões prontas. Se ele disser “vai chover”, pode preparar o guarda-chuva. É batata! Aliás, o homem da roça não só sabe que vai chover, como ainda diz que horas ela começa, de onde ela vem, quanto tempo vai durar e, se bobear, diz até a quantidade de água que vai cair. E normalmente acerta, com mais precisão do que o mais preciso dos meteorologistas. O cheiro da chuva se faz sentir quando os primeiros pingos d’água, mais grossos, caem na terra e levantam aquela poeirinha. É um cheiro que nos acompanha a vida toda, pois se repete a cada chuva que cai. E toda vez que o sentimos, vem também uma sensação de doces recordações, de saudades. Porque nossa memória afetiva está atrelada a odores e sabores. Só que, infelizmente, alguns desses odores que nos remetem a tempos jamais se repetirão, porque estão intimamente ligados a lugares e situações que não existem mais, e a pessoas queridas que já se foram. E assim, remexendo na gaveta da saudade, volto a sentir o cheiro gostoso do café no bule, feito pela minha vozinha ‘Mãe Cota’; do bolinho de chuva da tia Noêmia e do doce de leite no tacho feito por mamãe. Me lembro que, quando ela fazia esse doce, eu e minhas irmãs ficávamos ao redor esperando pela ‘puxa’. Não sei se vocês conhecem por esse nome ou se a ‘puxa’ era uma coisa só nossa, mas acontecia no momento em que mamãe verificava se o doce estava chegando no ponto. Ela então pegava um pouco de doce fervente com a concha e despejava algumas gotas numa pequena vasilha de água. A gente remexia esses pingos de doce com a ponta dos dedos, colocava entre a língua e o céu da boca e deixava dissolver. Eram nossos pingos de felicidade. Enquanto isso, o cheirinho de doce de leite fervendo no tacho de cobre enchia a cozinha e inebriava nossas almas.  Entende agora o que eu disse sobre cheiros que não voltam? Porque AQUELE cheiro não se repetirá jamais. Igual ao cheiro do café torrado. Fala a verdade, tem cheiro melhor? Aliás, não é nem do café torrado, mas do café torrando. Hoje quase ninguém mais torra café em casa. É muito mais fácil comprar o saquinho de café no mercado do que torrar e moer. E é aí que nos enganamos. O mais fácil nem sempre é o mais gostoso. Porque tudo aquilo que é preparado com esmero, com carinho, e às vezes com sacrifício, se eterniza na memória. E o cheiro daquele café que era colocado no torrador manual e se espalhava pelo terreiro também está entre minhas memórias ‘de cheiro’. Para quem não conhece um torrador manual de café, vou tentar explicar mas já aviso que  é difícil descrever. Ele é redondo, do tamanho de uma bola de basquete. Tem uma portinhola e uma manivela. A portinhola se abre lateralmente, você coloca os grãos lá dentro, fecha, põe o torrador no fogo e fica girando a manivela para que os grãos torrem por igual. Entendeu? Quem conhece sabe do que estou falando. Quem não conhece, deve estar fazendo um exercício absurdo para imaginar como é esse tal torrador. E vou te falar: quando se abre aquela portinhola, sai de dentro uma fumacinha com um dos cheiros mais inesquecíveis e gostosos que alguém pode experimentar. Outro cheiro que me faz viajar no tempo é o de curral. Mas o cheiro de curral pela manhãzinha, com esterco de vaca e leite misturados. Sei que muita gente está torcendo o nariz nessa hora, pensando ‘credo, que nojo’, mas é um cheiro que me remete ao tempo em que ajudava papai na linha de leite. Papai tinha um caminhão e passava com ele nos sítios e fazendas recolhendo o leite para entregar na Polenghi, a única grande indústria que já houve em Cabo Verde. Esse percurso diário, que começava na madrugada, era chamado de ‘linha de leite’. Eu, ainda criança, o ajudava quase todos os dias. Por isso, o cheiro de curral desperta em mim fortes e doces lembranças. Espero que você também, enquanto lê estas linhas, faça um breve exercício e pense nos cheiros e sabores que te remetem à infância ou às boas lembranças. Como disse antes, o cheiro da chuva é um dos poucos que nos acompanham pela vida.  Os outros cheiros e sabores ficam na memória, no coração e nas lágrimas que derramo agora, enquanto escrevo e relembro os mais doces momentos da minha vida.   

Por hoje é isso. Semana que vem tem mais. Até lá.

Raul Dias Filho - O autor é jornalista e repórter especial da Record TV