Bom dia, boa tarde, boa noite

Publicado em 05/02/2021 - raul-dias-filho - Da Redação

Bom dia, boa tarde, boa noite

Quando a gente nasce e cresce numa comunidade pequena adquire algumas vivências que nos acompanham pelo resto da vida. Estas ‘vivências’ a que me refiro são, na verdade, pequenas regras de comportamento que só existem em lugares assim, pequenos, onde todos se conhecem. A regra número um para quem vive num lugar assim : você tem, obrigatoriamente, que cumprimentar quem encontra pela frente. Não importa se a pessoa está de carro, a pé ou a cavalo. E nem importa também se você não a conhece. O cumprimento deve ser feito. Pode ser aquele básico e carregado de sotaque:

“E aí, bão?

 -Bããão

- Então tá bão” 

Essa breve prosa já é suficiente, até porque mineiro não gosta de conversar sobre assuntos importantes na rua. Agora, se encontrar alguém conhecido, vale perguntar da família, da vida, do tempo e do que mais puder perguntar. Porque, eu te digo sem medo de errar: se passar batido será alvo de comentários indignados, tipos “você acredita que o Raulzinho passou do meu lado e não cumprimentou?? Sabia! Virou repórter, ficou metido” ou então algo como “segunda vez que o fulano passa do meu lado e não cumprimenta. Será que eu fiz alguma coisa pra ele?”.  Quer saber o que eu acho disso tudo? Eu acho maravilhoso! Essa é a essência da boa convivência. Cumprimentar, conversar amenidades na rua, ou simplesmente sorrir e acenar é demonstração de respeito, carinho, consideração. Como disse antes, são pequenas regras que aproximam as pessoas e tornam a convivência na comunidade muito mais agradável. E, cá entre nós, fazem parte da mineiridade. Do jeito mineiro de ser: acanhado, introvertido, desconfiado, mas também divertido, generoso, com um senso de humor afiado e ávido para conhecer pessoas, lugares, enfim, ganhar o mundo. E quando ganha o mundo, às vezes se assusta com a pouca ou nenhuma importância que essas pequenas regras tem em outros lugares. Me lembro, por exemplo, que a primeira cidade realmente grande que visitei foi Campinas. Era adolescente ainda e levei um susto quando saí com meus primos para conhecer a Glicério, a principal avenida da cidade. Enquanto caminhava, ficava olhando para as pessoas na multidão, procurando, em algum rosto, quem sabe um sorriso, talvez um aceno ou cumprimento. Em vão, claro. E aquilo, confesso, me assustou um pouco. Pensava: ‘como as pessoas podem viver assim, passando umas pelas outras sem sequer se olhar?’ Depois descobri que a indiferença, a frieza e às vezes até uma certa agressividade fazem parte das regras de convivência nas ruas das grandes cidades. Até porque seria mesmo impossível as pessoas ficarem se cumprimentando o tempo todo em meio à uma multidão de desconhecidos. É por isso que, aqui, nas nossas pequenas comunidades, devemos preservar esse bom costume. Nosso universo é mais restrito. Dependemos uns dos outros para sermos felizes. E nesses tempos sombrios que vivemos, devemos sair em busca de empatia, de sorrisos, de gestos gentis. Porque gentileza gera gentileza. Então, estamos combinados: quando passar por alguém na rua, sorria, acene, cumprimente! Acredite, a vida vai sorrir de volta. 

Por hoje é isso. Semana que vem tem mais. Até lá.  

RAUL DIAS FILHO - O autor é jornalista e repórter especial da Record TV