NOSSA HISTÓRIA: os sinos cantavam

Publicado em 10/04/2017 - ponto-de-vista - Da Redação

NOSSA HISTÓRIA: os sinos cantavam

Hoje, ano de 2001, é o começo de minha nova história. Morar na mesma Praça de Jacuí e ouvir o sino eletrônico. O que existiu antes é memória que reinvento ao sabor da imaginação ou da saudade doida. Jacuí, década de 50, cidade pacata, católica e pitoresca. A voz da Igreja era ouvida também através dos sinos. O som das suas badaladas estava presente em todos os momentos das pessoas. Na alegria, repicavam rápido e alegremente, convidando o povo para as Missas, os Batizados e os Casamentos. Nos momentos tristes, suas badaladas eram surdas, lentas, sonoras, pungentes, tal qual lágrimas grossas batiam lentamente no fundo do coração de todos nós. Na Semana Santa e na Quaresma, eles, os sinos cantores, emudeciam de dor e permitiam que as “matracas” fizessem os avisos e os chamamentos ao silêncio e a penitência. O velho Athanázio Ribeiro de Miranda, meu querido e saudoso avô, zelava pela Igreja como sacristão, com muita dedicação. Ele fora, na juventude, compositor e seresteiro, como o seu irmão Dorfinho – grande violeiro e cantor de modinhas do início do século. Vô Athanázio enfrentava a grande e tortuosa escadaria de madeira da torre da velha e histórica Igreja (que mãos desavisadas deitaram-na ao chão) e o peso do badalo dos sinos com imensa dificuldade. Foi assim que o sacristão Athanázio acreditou em mim, seu neto de 9 anos, e no Pedrinho e no Helinho, netos do Dorfinho, ensinando-nos a arte de fazer música com os sinos. Quanta responsabilidade! Aprendemos. Mas estar na torre da velha Igreja, sobre a cidade, tocando os centenários sinos, me fez criar uma ponte para chegar onde eu queria – fazendo com que minhas quedas e fracassos, tristezas e decepções de menino vendedor de pirulitos, me transportassem para uma estrada de esperanças. Hoje, ao som do sino eletrônico, pode ser o começo de uma “nova era”, ou mera continuação de uma era que “já era” a repetição monótona dos velhos sonhos, ou tentativas sinceras de viver o modo diferente de hoje.

Fernando de Miranda Jorge - Acadêmico Correspondente da APC / Jacuí/MG

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