A AUDÁCIA DO REPÓRTER E A candidatura do brigadeiro

Publicado em 25/10/2018 - ponto-de-vista - Da Redação

A AUDÁCIA DO REPÓRTER E A candidatura do brigadeiro

Dídimo Paiva (Reprodução). Uma homenagem ao Jornalista Dídimo Paiva, “recordar é viver”, Jornal Estado de Minas em 15 de Junho de 1981.

Meu pai, velho antigetulista, passava o dia inteiro esperando pelo “Caleidoscópio”, que a Rádio Nacional levava ao ar, todas as noites, na voz de César de Ladeira. Estávamos no início de 1945, com os aliados pelejando para vencer a besta nazista. Quando César Ladeira se despedia, meu pai completava: - O canalha tem que ser destruído. Canalha, para ele, era o Adolfo Hitler. Nós não tínhamos rádio. A cidade só dispunha de dois ou três. Ele sempre me chamava para ir à casa do Murta, (Francisco Murta, farmacêutico), que manejava um velho Phillips, daqueles que mal conseguia captar uma frase inteira sem a inevitável e amargurante barulheira que o tabelião Nady Campos, científico, explicativa: “é a estática”. Era um drama. Em Jacuí a gente só sabia das coisas que iam pelo mundo quando o Pedrinho (posteriormente, o Salgado) punha a usina a funcionar, às 7 da noite ou então, quando chegava com meses de atraso, o viajante das máquinas Singer, trazendo as “novidades”. Foi assim que, no mês de julho de 1945, ficamos sabendo de duas coisas importantes: o canalha” fora vencido e o Brasil já estava em campanha eleitoral. A pá-de-cal nas pretensões continuistas de Getúlio Vargas foi dada pela entrevista que o repórter Carlos Lacerda conseguiu co o ex-ministro José Américo de Almeida, e publicada na edição de 22 de fevereiro do “Correio da Manhã”. A entrevista obtida por Carlos Lacerda estava em mãos de todos os diretores de jornais: Assis Chateaubrind, de “O Jornal”;  Paulo Bittencourt, do “Correio da Manhã”; Roberto Marinho, de “O Globo”; Orlando Dantas, do “Diário de Notícias”, entre outros. Os grandes articuladores dessa entrevista foram Virgílio de Mello Franco e Luís Camilo de Oliveira Neto. Carlos Lacerda, então repórter do “Correio da Manhã”, onde mantinha uma coluna intitulada “Tribuna da Imprensa”, foi encarregado por Luís Camilo de contatar José Américo. O líder nordestino estava afastado de atividades políticas, ocupando o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União. Na sua casa da rua Getúlio das Neves, junto ao morro do Corcovado, José Américo recebe o repórter. Falou: - “Nesta hora não me nego a falar. Ao contrário, julgo chegado o momento de todos os brasileiros opinarem. Esta PE uma hora decisiva que exige a participação de todos no rumo dos acontecimentos. (Nos campos de batalha da Itália, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) ia avançando. Os pracinhas já tinham escrito páginas de glória na luta contra o nazi-facismo. Os comentaristas admitiam para dentro de dois ou três meses a derrota total do Eixo. Derrota que chegou no dia 8 de maio de 1945. Depois, uma clara definição democrática. E José Américo dá o tom da situação no Brasil, que para ele, não podia mais continuar sob um governo ilegítimo, mas sim restaurado pela majestade do voto popular: “No momento em que se pretende transferir a responsabilidade da situação dominante no Brasil da força que a apóia para a chancela do povo, é a própria ditadura expirante que nos dá a palavra. É preciso que alguém fale, e fale alto, e diga tudo, custe o que custar”. No dia 21 de fevereiro de 1945, o ambiente nas redações era fervilhante. Luís Camilo de Oliveira Neto estava inquieto. Todos os dias, ele e os jornalistas que cobriam a área política, discutiam a necessidade de se publicar a entrevista de José Américo. Por volta das 16h, um repórter de “O Globo” procura o diretor das organizações, Sr Roberto Marinho, e trava o diálogo seguinte: - “Dr. Roberto, e a matéria do José Américo? Acho que está faltando coragem. Nós temos que correr qualquer risco”. Em seguida, guardando as reservas necessárias, autorizou ao chefe de reportagem, o saudoso Alves Pinheiro a publicar a matéria no dia seguinte, 22 de fevereiro de 1945. Incansável Luiz Camilo de Oliveira Neto Não s deu por satisfeito. Como fazia já muitos dias que tentava publicar a entrevista (já composta em vários jornais), correu ao gabinete do Paulo Bittencourt e foi direto:  - Dr. Paulo, sei que um jornal vai publicar a “coisa” amanhã”. O diretor do “Correio da Manhã ficou intrigado. E, por exclusão, passou analisar: - “O Assis não é. Se fosse publicar, todos nós estaríamos sabendo. O “Diário de Notícias” também não publica. O Orlando Dantas não gosta do José Américo”. – “Só se for o “O Globo”. Nessa época, o jornal de Marinho circulava como vespertino e saindo às ruas entre 11h30m e 12horas. Incontinente, Paulo Bittencourt mando publicar a reportagem. As bancas de jornais do dia 22 de fevereiro, madrugaram co o “Correio da Manhã” em lugar de honra. A entrevista ecoou como um tiro naquela meia-manhã da vida nacional em que nada ainda se distinguia bem. Sabia-se que, nos bastidores, Getúlio tramava para continuar no poder. Logo de manhã, Roberto Marinho mandou um recado para o repórter que dele cobrava, na tarde do dia 21, “coragem” para publicar a entrevista. – “Diga ao Matta que se ele não trouxer uma suíte compensadora, pode passar no caixa e acertar as contas”. “Matta” era o repórter Edgar de Godoi da Matta Machado, que ficou entre a cruz e a espada. O que fazer, se o “Correio da Manhã”, por uma questão de adiantamento, dera um “furo” sensacional? Edgar não teve dúvidas: procurou Luiz Camilo de Oliveira Neto e foi direto: - “Luiz, agora só tenho uma saída – dizer o nome do candidato”. (Na entrevista a Carlos Lacerda, José Américo falava que “as oposições democráticas já têm um candidato irrevelado, cujo nome será divulgado na hora oportuna”). Os dois – Edgar e Luiz Camilo – correram à casa de José Américo. Ele foi claro: - “Não estou autorizado a divulgar o nome”. Foi aí que alguém lembrou do jornalista Rafael Corrêia de Oliveira, um dos grandes da luta subterrânea da liberdade, que estava chegando do Nordeste, onde o brigadeiro Eduardo Gomes chefiava um setor da Força Aérea. Rafael conversava longamente com o Brigadeiro, falando da necessidade de lançar a candidatura num momento em que era evidente o enfraquecimento do ditador e de sua (dele, Getúlio) manobra para continuar no poder, com modificações no comando das tropas. Rafael, que juntamente com Edgard, Luiz Camilo e outros jornalistas, já estavam pensando em publicar um jornal “alternativo” para anunciar a candidatura de Eduardo Gomes, não deixou por menos:  - “Brigadeiro, a hora é esta. Se não tiver um jornal, faremos um”. Eduardo Gomes, entretanto, achava que o anúncio deveria ser feito por um grande jornal. Depois de  rápida conversa, os três – Rafael, Edgard e Luiz Camilo - foram ter à casa de José Américo. Rafael explicou que estava autorizado pelo Brigadeiro para o anúncio imediato. José Américo concordou. E, o “O Globo” no mesmo dia 22 de fevereiro, por volta das 12h, circulava com esta manchete de primeira página: “NOSSO CANDIDATO É O BRIGADEIRO EDUARDO GOMES”: A matéria continha apenas um nariz e cera” com o lançamento, por José Américo, da candidatura do herói do forte de Copacabana, e a transcrição, na íntegra, da entrevista de José Américo a Carlos Lacerda, publicada na edição matutina do “Correio da Manhã”. Quando as rotativas de o “O Globo” começaram a rodar, Edgard, Luiz Camilo, Rafael e outros cuidaram de guardar debaixo de sete chaves os primeiros exemplares. Alguém chegou ao Edgard e falou: - Graças a Deus, você não vai ser mandado embora. Na verdade, o que o repórter Edgard de Godói da Matta Machado garantir, com a “suíte compensadora” exigida pelo diretor do jornal, não era simplesmente o emprego do repórter. Era muito mais do que isto. Com a publicação, em manchete, da candidatura de Eduardo Gomes, estava rompido um mal-cheiroso esquema de censura, se abrias realmente o debate político e tomava corpo  a gloriosa campanha pela convocação da Assembléia Nacional Constituinte. Já no dia 24 de fevereiro, os jornais eram outros. Lá estavam, em lugar de destaque, o verdadeiro jornalismo – amplo e pluralista – com noticiário sobre os partidos em formação, a palavra dos líderes exilados (Octávio Mangabeiras, Armando de Sales Oliveira,Virgílio de Melo Franco, Waldemar Ferreira, Arthur Bernardo, Milton Campos, etc), o velho jargão soa líderes comunistas, sem o dedo podre do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP de triste  memória, que ainda hoje encontra seguidores em mil agências disfarçadas e regiamente remuneradas com o dinheiro do povo. O impacto da manchete anunciando a candidatura Eduardo Gomes foi tão grande que – contra Edgard – um dos mais bravos inimigos da ditadura Vargas, o general Flores da Cunha deixou cair o famoso charuto, ao receber o exemplar do jornal das mãos de Edgard. Quando ficamos sabendo do fim da guerra, com a inevitável e necessária derrota do “Canalha”, o Brasil já estava em plena campanha eleitoral. Uma tarde, meu pai chegou alegre como se anunciasse a vinda de um novo Messias: “Vamos ter eleições. O Velho caiu. O Brigadeiro Eduardo Gomes, o herói do Forte de Copacabana, é o candidato das oposições democráticas. O anúncio empolgou tanto que o coletor antigetulista histórico, José Miranda, mandou fazer uma assinatura de “O Jornal, do Rio. Que chegava com 15 dias de atraso, mas que eu tinha que ler, todas as tardes, quando voltava da aula do Grupo Escolar Carvalhaes de Paiva. Muitas vezes, nossa modesta casa se enchia de pessoas – as professoras dona Tianinha, dona Leonídia, dona Aurora, o Zé Borges, o Armando Bento, o Toninho Pedreira, o Nicolau Jorge, o Nady Campos, a Nair Murta, o fazendeiro Joaquim Chaves, chefe  udenista cuja única ambição era fazer o sobrinho, médico Antônio Mendes Peixoto, prefeito de Jacuí. Do lado de lá, no poder, estavam os Pedreiras do Bonsucesso e os Bueno, liderados pelo médico humanitário, Dr. Geraldo Virgínio dos Santos, genro do Dr. Pedreira, velho chefe político local, colega de turma do futuro deputado federal, governador e presidente da República, Juscelino Kubitschek. Ali mesmo, trabalhado pelo meu primo José Miranda, assinei a ata de fundação da UDN local. Todos nós – jovens e adolescentes – éramos brigadeiristas . E quem não era? O decreto abrindo a campanha permitia o registro de quaisquer partidos, sem restrições ideológicas. Getúlio, matreiro, mandou Bendito Valadares e Nereu Ramos (mais os antigos servidores da ditadura em todos os Estados) fundar o Partido Social Democrático (PSD); os pelegos e velhos aproveitadores dos institutos de previdência fundaram o PTB. Era a “União” da “reação” com a “revolução” seu candidato: o general Eurico Gaspar Dutra, ex-ministro da Guerra de 1937 a 1945. Como todo tempo de “abertura”, aquele era um tempo de equívocos. Os comunistas, estavam bravos nas ruas com a campanha “Constituinte com Getúlio”. Nós, que sabíamos das torturas infligidas aos militares do antigo Partido Comunista do Brasil (aquele tempo o partidão era realmente o PC do B), não podíamos admitir que legendário “Cavaleiro da Esperança” saísse da prisão, barbado e esmaecido, para entrar na roda do Getúlio. A surpresa foi tanto maior quando um então fogoso jovem candidato à Assembléia Constituinte de Minas Gerais, o hoje jurista e professor Oscar Dias Corrêa, mandou um recorte de jornal falando que a polícia de Felinto Muller, por ordem de Getúlio havia entregue a mulher de Luiz Carlos Prestes, Olga Benário Prestes, às mãos criminosas da Gestapo nazista. Em nossa fé quase fantástica no Brigadeiro, não podemos pensar que alguém formasse com o candidato do PSD, o general Dutra. Não fora ele o fiador, durante muitos e muitos anos, da ditadura do Estado Novo? Havia mais dois candidatos, mas estes a gente não levava em conta: o engenheiro Yedo Fiuza, pelo Partido Comunista, e o ruralista Mário Rolim Teles, pelo Partido Agrário Nacional. O então nascente Partido de Representação Popular (PRP), que abrigava os antigos integrantes de Plínio Salgado, ficou com o general Dutra. Do manifesto então lançado para apoiar o candidato oficial constava uma frase apontando Eduardo Gomes como adepto  do comunismo. Os integralistas sempre ligavam a UDN com o movimento da mão-estendida, isto é, “o partido é colaboracionista com os homens de Moscou...”. A campanha logo tomou as ruas das principais cidades do País. Os melhores nomes da política – até então condenados ao silêncio pela ditadura – saíram em apoio da candidatura Eduardo Gomes. Vale citar alguns depoimentos. José Américo de Almeida, na manhã do dia 22 de fevereiro de 1945, ao repórter Edgard de Godói da Matta Machado: - “O candidato será o major-brigadeiro Eduardo Gomes, que aceitará o lançamento de seu nome, se for criado ambiente de liberdade e de garnti para o funcionamento do regime representativo no Brasil”. João Mangabeiras, do Partido Socialista: - “Solução para a crise democrática brasileira”. Tristão de Atayde:  - “Um passado de nobreza moral de atitudes e de absoluto interesse patriótico”. Caio Prado Júnior, do Partido Comunista: - “Será capaz de realizar a unidade nacional”. Oswaldo Aranha: - “Não sei de quem possa merecer nestes dias incertos, mais do que ele, a confiança e o voto dos brasileiros”. Astrogildo Pereira, intelectual, fundador do Partido Comunista: - “Liquidação do regime fascista de 10 de novembro”. Arthur Bernardes: - “Precisamos estar unidos e acredito que, em torno do nome digno do major-brigadeiro Eduardo Gomes, essa união se fará naturalmente”. General Guedes da Fontoura, cassado pelo artigo 117 da “Constituição de 1937, o AI-5 da época: - “Apoio o brigadeiro e recomendo aos meus amigos como o único capaz de liquidar a carta fascista de 1937”. A decepção viria no dia de dezembro de 1945: o general Eurico Gaspar Dutra ganhou esmagadoramente. Foi como se uma bomba atômica (daquelas que explodiram em agosto do mesmo ano em Hiroshima e Nagazaki) rebentassem sobre nossas esperanças. Lá em Jacuí, alguém disse: “O Dr. (Geraldo Virgínio dos Santos) e a Mina (brava mulher que ainda hoje lidera a política oficial em Fortaleza de Minas, então distrito de Jacuí), ganharam outra vez”. O mundo veio abaixo. Tirei o distintivo do Brigadeiro da camisa, fiquei horrorizado, pensando que iam voltar as torturas, a censura a imprensa, as prisões, os espancamentos, o velho sistema de prender o adversário e dar purgante duplo de sal de Glaber (sulfato de sódio) ou óleo de rícino. Depois, a proclamação dos resultados, a instalação da Assembléia Nacional Constituinte, os grandes debates em torno da futura Constituição (hoje uma carta saudada como excessivamente liberal), o funcionamento dos partidos, a cassação do registro do Partido Comunista, o renascimento do movimento operário, a volta de Getúlio contra o mesmo brigadeiro Eduardo Gomes, em 1950, a tragédia do 24 de agosto de 54, a deposição de Carlos Luz e Café Filho, a posse de Juscelino em 1956, a construção de Brasília. Carlos Lacerda impedido de falar no rádio e na TV, a tentativa de cassar seu mandato, renúncia de Jânio Quadros em agosto de 1061, a rebelião de Machado Lopes e Leonel Brizola, o parlamentarismo, a posse de João Goulart, os governos revolucionários, Castelo Branco, Costa e Silva, o impedimento de Pedro Aleixo, o governo da Junta Militar, em 1968, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, a “abertura”, a escalada do terrorismo... De novo, a luta pela democracia. Em Jacuí, em Minas, no Brasil, na Polônia, na Rússia, na França. Desta vez não apenas a democracia formal do voto, dos direitos cívicos. Mas a democracia sem aspas, para todos, sem exclusivismos ideológicos. Talvez, com o velho sonho do pluralismo repudiado pelos dois extremos. Luta que, para repetir a entrevista de José Américo ao repórter Edgard de Godói da Matta Machado, exige partidos bem estruturados, que não excluam os diversos matizes e tendências ideológicas que queiram colaborar no seu principal objetivo que é a restauração da democracia no Brasil. Tudo como se pode resumir neste trecho da entrevista de fevereiro de 1945: - “Ao contrário dos que julgam que os partidos dissociam, acho que eles constituem os mais úteis instrumentos da unidade política. Só os partidos são capazes de coordenar e condenar as idéias e os programas. Principalmente em País como o nosso”. Mais que tudo, luta que abomina a camisa-de-força de alguns poucos “iluminados” que pretendem “falar” em nome do povo ou classes trabalhadoras. Porque uma democracia só se constrói com o povo conquistando o direito de intervir no progresso político e escrever a sua própria história.

“Dídimo, Deus foi generoso com você lhe dando o dom do saber e do pensar; de saber comunicar; de saber fazer com que os outros pensem, analisem, entendam e compreendam mais o momento histórico”.

 

Fernando de Miranda Jorge

Acadêmico Correspondente da APC

Jacuí/MG – e-mail: [email protected]