Tudo Passa

Publicado em 24/07/2020 - paulo-botelho - Da Redação

Tudo Passa

Uma visível contrariedade podia ser observada na cara do goiano Cristóvão, chefe da agência do correio de Muzambinho. Ainda me lembro daquela manhã cinzenta e fria de um dia qualquer de agosto - o mais cruel dos meses do ano. Com pouco mais de l4 anos, um quase rapaz, fui até a agência do correio acompanhado pelo meu tio Luna (Joaquim de Luna Botelho). Luna exercia o cargo de Inspetor Postal Regional dos Correios e Telégrafos com sede em Guaxupé.
A contrariedade do goiano Cristóvão, desafeto do Luna, era porque eu estava sendo designado como auxiliar de telegrafista da agência. Salário: menos de 1/3 do salário mínimo de hoje em dia.
De volta para casa, levando uma apostila do Código Morse, passei a estudar as operações teóricas. Na verdade, eu já aprendera com o Enéas, telegrafista da agência do correio de Guaxupé. Enéas captava tudo de ouvido: não precisava ler as quilométricas fitas das mensagens. Um craque.
Inventado e desenvolvido pelo físico americano Samuel Morse em 1808, o telégrafo já era movido por energia eletromagnética, tanto para curta como oara longa distância. Um operador precisava ler e saber mover os pontos, traços e números para processar uma comunicação telegráfica.
No exercício da função, acabei ficando apto a receber e a expedir mensagem que, por sua vez, virava telegrama. Para completar esse serviço, também tinha a incumbência de fazer as entregas dos telegramas aos destinatários.
Uma pequena quantidade de telegramas era,- com frequência bizantin - destinada a  uma rua um pouco fora de centro da cidade. Umas duas ou três casa da rua eram sinalizadas com lâmpadas de cor vermelha nas portas. Nelas viviam moças; moças que a alta sociedade muzambinhense rotulara de "mulheres da vida", 
Foi numa entrega por lá é que fiquei contaminado de Crupe: uma doença que provoca inflamação da traquéia, seguida de febre, rouquidão e falta de ar. Resultado de um beijo na boca! Tive que ficar de cama alguns dias. Quase morri. Eu acabara de completar 16 anos.
Curado e de volta ao trabalho, o goiano Cristóvão não perdeu tempo comigo. Resolveu me demitir.
O Luna, quando soube da demissão, me mandou a seguinte mensagem em Código Morse: 
"Nossa tristeza vai passar assim como a uva passa!"

Paulo Augusto de Podestá Botelho é consultor de empresas e escritor. E-mail: [email protected]