Por nossas Cosettes

Publicado em 10/02/2015 - paulo-botelho - Paulo Botelho

Por nossas Cosettes

Eu já tinha visto aquela menina em vários locais da cidade, mas não tão de perto como a vi dentro da padaria onde vou comprar pão pela manhã. Muito magra, de chinelo-de-dedo, vestido largo e roto; pode ter, no máximo, uns doze anos.  – Ela  sorriu-me um sorriso triste, mostrando os seus dentes alvos, ao pedir para “passar no caixa” os oito pães que solicitara à balconista de cara amarrada. – E como que carregando um troféu, saiu apressada – quase correndo – apertando o saco de pães contra o peito, assim como uma mãe que vai socorrer seus filhos com fome. – E fiquei pensando na menina Cosette, personagem de “Os Miseráveis”, obra prima do escritor francês Victor Hugo. Ninguém melhor que ele expressou tanta compaixão pelos oprimidos; tanta generosidade pelos abandonados, especialmente pelas crianças. A criança é personagem recorrente em toda a obra literária de Victor Hugo. Em “Os Miseráveis”, após ser condenado à prisão por roubar um pão, Jean Valjean – o pai de Cosette – foge e passa a ser perseguido pelo cruel policial Javert que tudo fará para prendê-lo novamente. Milhares de Cosettes estão por aí a sobreviver, miseravelmente, em quase todas as nossas cidades. Segundo dados do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, há cerca de 30 milhões de pessoas vivendo neste país em dificuldade com uma renda per capita inferior a R$ 150,00 por mês. Não ganham o suficiente para as suas necessidades mínimas de alimentação, isto é, 2.000 calorias/dia. Desses, 23 milhões vivem em estado de miséria absoluta, não obstante a ajuda do Bolsa Família. A persistência de propósitos, a seta do tempo e a Dinâmica da História de que ensina Hegel, farão com que o momento chegue para que os oprimidos e abandonados possam realizar a viragem rumo à dignidade. Recuso-me a aceitar que o sofrimento de milhares de desempregados, aposentados, discriminados, torturados e agredidos de nossa história tenha sido em vão. – E haverá de ser como dizia Brecht: “Somente um vidro separa o pão da fome”.

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor, Escritor e Consultor de Empresas. www.paulobotelho.com.br