Moto Contínuo

Publicado em 03/11/2015 - paulo-botelho - Da Redação

Moto Contínuo

O embuste ficou restrito aos analistas de investimentos de mercado durante a ditadura militar (1964-1985). E é quase jurássico, pois naqueles anos de arbítrio as cotações eram registradas em um quadro-negro no salão de leilões da Bovespa em São Paulo. Não estou me referindo ao tempo em que os animais falavam. Os cinco generais que ocuparam a presidência da República, por usurpação, quase não falavam; emitiam sons. – Escrever, nem pensar!

A especulação corria solta pelos corredores e banheiros da Bovespa. – É que alguém lançara no mercado de ações uma certa Merbosa. Muito se especulou sobre ela. Suas ações acabaram indo para o vinagre e a verdade apareceu: tal nome não queria dizer outra coisa a não ser Merda e Bosta S.A. Na verdade, nenhum analista ou investidor se interessara em saber detalhes sobre a tal Merbosa: o que produzia ou comercializava, quais os seus resultados ou quem a dirigia.

Naqueles anos de arbítrio e censura, uma sucessão de estímulos fiscais e tributários fizeram com que as bolsas de valores parecessem fábricas de dinheiro. Existiam ações cujos valores dobravam de um dia para outro. E a ficção gestada pelos economistas de plantão não buscava alavancar nenhum progresso; mesmo porque a ditadura militar era causa e efeito de uma falsa prosperidade no país.

E aí ficou a triste lição: apesar do fato do moto contínuo ser impossível de ocorrer em termos das leis da física, a busca por ele permaneceu – e se repete a cada dia.

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Consultor de Empresas e Escritor. www.paulobotelho.com.br