Essa é a minha Natureza

Publicado em 25/07/2016 - paulo-botelho - Da Redação

Essa é a minha Natureza

O dia de Anacleto Sacanelli seguia sempre uma rotina cuidadosamente planejada. Diretor-Executivo de uma sólida empresa sediada na Grande São Paulo, Sacanelli formara-se em Engenharia Química em Minas Gerais e fora um aluno medíocre. Posteriormente, desembarca em São Paulo à reboque da ditadura militar então vigente nos anos 70.

Antes de seu banho matinal, subia na balança para conferir os seus 70 quilos para uma altura de 1.70. Nada mal. Ainda em jejum, tomava um verdadeiro coquetel de vitaminas: Calcium Sandoz, Arovit, Vitforte e Complexos B e D, além de um copo de suco puro de laranja com adoçante. Enquanto tomava o seu café-com-leite, bolachas, mel e queijo mineiro, fazia inúmeras anotações em seu caderno espiral, para mais tarde cobrar os seus gerentes que costumava tratar como serviçais.

Fã incondicional de Ayrton Senna, a midiática referência nacional, Sacanelli preparara, naquele início de janeiro, uma reunião circunstanciada de acionistas e pessoal-chave da empresa, com o sugestivo nome de PIT-STOP (leia-se: Parada para o Programa de Integração Total). Mas, de integração nada teve, a não ser cobranças aleatórias junto aos seus gerentes. Após as apresentações deles, Sacanelli resolve – com uma só penada – demitir quatro. Por acumular um passivo trabalhista da ordem de 60 operários portadores de silicose (Sílica-Livre era a matéria prima da empresa) demitiu o Gerente de Recursos Humanos por não conseguir “calar a boca” do Sindicato dos Q uímicos que andava incomodando muito os seus ouvidos no portão da empresa.

Entretanto, foi Hildebrando Bueno, um dos demitidos, que concluiu ser Sacanelli portador do comportamento dos psicopatas. Segundo o psiquiatra americano Paul Babiak, autor de Snakes in Suits (Cobras de Terno) existem cerca de 70 milhões deles no mundo, o que dá 1% da população em geral. Eles são 20% da população carcerária e 87% dos serial killers. Todavia, um psicopata não é, via de regra, um assassino. Na realidade, ele vai atrás daquilo que lhe dá prazer. É por isso que, outro lugar freqüentado por eles – além dos presídios – é a empresa; qualquer empresa; e de qualquer porte (pequena, média ou grande). Eles estão por lá: não matam, mas usam o cargo para ato rmentar; cancelar férias dos subordinados; assediar e demitir; sem dó. E chegam mesmo a cometer crimes: de acordo com a Consultoria Price Waterhouse Coopers, um terço das empresas sofre fraudes significativas a cada ano por conta dos psicopatas corporativos.

Para melhor esclarecer, nada como aquela conhecida parábola africana que o Líder da Reconstrução da África do Sul, Nelson Mandela, costumava citar:

Certa vez, um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio. O escorpião fez um pedido ao sapo: “Você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão longo?” – O sapo respondeu: “Só se eu fosse tolo! – Você vai me picar e vou morrer afogado!” – E o escorpião respondeu: “Isso é ridículo! Se eu o picasse, ambos afundaríamos”. Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, enquanto nadava para atravessar o rio. Já quase na outra margem, o escorpião cravou o seu ferrão no sapo. Atingido pelo veneno – e já começando a afundar – o sapo olhou para o escorpião, que já estava em terra firme, e perguntou, cheio de dor: “Mas, por quê?” – E o escorpião, friamente, respondeu: “Não tem um porquê. - Essa é a minha natureza!

Sacanelli hoje é Diretor Geral de uma rentável empresa que lida com abelhas no Interior do Estado de São Paulo. – Elas, as abelhas, também têm  os seus ferrões. Para se defenderem.

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor, Escritor e Consultor de Empresas. WWW.paulobotelho.com.br