Em nome do padre

Publicado em 22/09/2015 - paulo-botelho - Da Redação

Em nome do padre

Atarracado, olhos miúdos por detrás de grossas lentes, o frade franciscano holandês abre a portinhola do confessionário e traça com a mão direita branca, leitosa, o sinal da cruz, perguntando: "Você fez porcarrias (sic) sozinho ou com outro?" – O mau cheiro de seu hálito me faz responder irritado: com outra! – "Reze duzentas aves-maria como penitência e não peque mais!"

Depois de mais de cinquenta anos, ainda espero que Spinoza – um outro holandês – satisfaça a minha curiosidade: ele dizia que quando a gente morre fica sabendo de tudo aquilo que não sabíamos durante a vida. – Será mesmo?

Há mais ou menos uns seis anos, antes de sua morte, minha mãe resolveu ir rever o seu "filho-de-leite" que mora em São Paulo. Ele atende pelo nome de Dom Fernando Antonio Figueiredo, Arcebispo de Santo Amaro. Explicando: antigamente, quando uma mãe não tinha leite suficiente para amamentar o seu bebê tinha que procurar uma "mãe-de-leite". E foi esse o caso da mãe do Fernando Antonio. Além de Arcebispo, ele é uma celebridade, mais conhecido como o "bispo do padre Marcelo Rossi". Sempre sorridente e maneiroso, Fernando Antonio lembra um pouco o ator americano Gary Grant desidratado. Minha mãe, então, com noventa anos de idade, chega ao Palácio Episcopal acompanhada de uma cunhada. E Fernando Antonio as recebe por pouco mais de cinco minutos, mandando o seu secretário providenciar dois santinhos: um para cada uma daquelas  senhoras!

Aí, me lembrei do que se faz em nome do padre. O meu amigo Leonardo Boff, principal formulador da Teologia da Libertação, conta que teve que se sentar no banquinho de Galileu lá no Vaticano, aos trancos dos soldados da Guarda Suiça. Promotor da Inquisição: Joseph Ratzinger, padre maior da Igreja, ex-papa Bento XVI. Ele manda Boff sair da Igreja e parar de ministrar os sacramentos por prática continuada de heresia. Leonardo Boff sai da Igreja e se casa com a sua secretária; no entanto, continua ministrando aulas de excelente nível de qualidade.

Uma das razões pelas quais deixei de ter religião é porque a fé não dá respostas; apenas impede perguntas.

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Consultor de Empresas e Escritor. www.paulobotelho.com.br