Dorgival da Jurema

Publicado em 01/08/2016 - paulo-botelho - Da Redação

Dorgival da Jurema

O operário sergipano Dorgival de Souza, 60 anos, solteiro, estava a caminho do trabalho naquele domingo à tarde. – Tem dia mais triste que um domingo à tarde? – Dorgival pedalava a sua bicicleta rumo à empresa em que trabalhava por mais de treze anos. Muito cuidadoso na bicicleta, usava o capacete; e dizia : “Não posso contrariar a minha Jurema; ela pensa como eu: eu sou ela e ela sou eu!” dizia sempre com lágrimas nos olhos. – Jurema era a mulher oriunda de sua fértil e organizada imaginação. Um irmão de Dorgival disse que ele nunca se casou por ser sistemático.

“Madame Bovary sou eu”, já dissera o escritor francês Gustave Flaubert. Ele era coerente com a sua famosa frase: “Le seul mot juste” (A única palavra certa). Flaubert acreditava que cada pensamento merecia a mais perfeita expressão. Quanto mais verdadeiro o tema, mais sonora a escrita. Todavia, nada saiu como Jurema quisera que tivesse saído naquele domingo à tarde. Dorgival, enquanto pedalava rumo ao trabalho, foi atingido de forma brutal por um carro Vectra de cor cinza. Seu braço foi arrancado e depois encontrado a mais de dois quilômetros adiante na Rodovia Imigrantes. O sacana do motorista do Vectra fugiu sem prestar socorro. E, naquele mesmo domingo à tarde, Dorgival morreu a caminho de um Pronto Socor ro da cidade de Diadema – SP.

Ah, os domingos à tarde; eles costumam ser regados com muito chopp e churrasco com coraçãozinho de frango!

Jurema não tivera tempo de alertar Dorgival para duas coisas infinitas: o universo sideral e a sacanagem das pessoas.

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Consultor de Empresas e Escritor. www.paulobotelho.com.br