De um Caderno Velho

Publicado em 19/09/2016 - paulo-botelho - Da Redação

De um Caderno Velho

“A casa, a montanha, as nuvens do céu; e um sol a sorrir no papel”. O Caderno, de Chico Buarque.

Minha neta Rebeca, de 10 anos, veio me visitar dia desses. Pegou para ler um artigo que eu acabara de compor. Surpreso com a correta leitura, feita em voz alta, comentei: Acho que é só você que lê com tanto entendimento e sentimento.

Lembrei-me, então de um caderno Avante, daqueles antigos que em sua contracapa trazia a letra do Hino Nacional. – E lá eu registrara – à lápis – alguns resumos de  observações dos tempos de colégio. Minha desistência em treinar e jogar basquete fora substituída por ler e escrever nas horas vagas.

Quando me decidi pela literatura, fiquei a um só tempo alegre e com uma sensação de vazio. Eu já sabia, então, que qualquer coisa – boa ou má – deixa um vazio quando acaba. Se má, o vazio se enche por si mesmo; se boa, só se pode enchê-lo encontrando alguma coisa melhor. Ler e escrever foi o que consegui encontrar de melhor. Mas, melhorar ainda era coisa muito difícil de ocorrer naquele colégio. Todavia, eu passara a ler os clássicos que o médico e filósofo Samuel de Assis Toledo me emprestava de sua diversificada biblioteca: Shakespeare, Proust, Joyce, Flaubert, T.S. Elliot, Tchekov, Machado de Assis e Hemingway, entre outros. – E constatei que não há literatura s em leitura. Mais que uma arte, a literatura é uma energia, uma ferramenta para realizar mudanças na cabeça – e  também no coração.

Ficara registrado, naquele caderno, a existência de um professor de Português recém-saído da batina de padre. Andar de meio-galope, tinha a cara de quem comeu e não gostou, mas também de quem continuaria a comer – e muito. Nada de técnicas gramaticais e tampouco de literatura. Alguns anos depois, constatei a meteórica ascensão social e política daquele ferrabrás por conta dos arbítrios da ditadura militar.

Espero que minha neta tenha melhores e mais alegres lembranças para registrar em seu já colorido caderno.

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Consultor de Empresas e Escritor. www.paulobotelho.com.br