De um Caderno Antigo

Publicado em 24/09/2012 e atualizado em 24/09/2012 - paulo-botelho - Da Redação

“A casa, a montanha, as nuvens do céu, e um sol a sorrir no papel”. O Caderno de Chico Buarque.
Quase alfabetizada aos 6 anos, minha neta Rebeca veio me visitar dia desses. Pegou para ler um artigo técnico sobre Gestão da Qualidade que eu acabara de compor. Surpreso com a leitura, falei: É só você que lê, não é mesmo? – “Mas, por quê, vovô, só eu que leio”? 

Lembrei-me, então, de um velho caderno Avante, daqueles com a letra do Hino Nacional na contracapa. – Lá estavam os meus garranchos – à lápis – dos tempos de colégio. Minha desistência de treinar e jogar basquete, não obstante os meus 1.78 de altura fora substituída por ler e escrever nas horas vagas. Quando decidi pela literatura fiquei a um só tempo alegre e com uma sensação de vazio. Já sabia, então, que qualquer coisa – boa ou má – deixa um vazio quando acaba. Se é má, o vazio se enche por si mesmo; se é boa, só se pode enchê-lo encontrando alguma coisa melhor. Ler e escrever, então, foi o que consegui encontrar de melhor. Mas, melhorar, ainda era muito difícil de acontecer no Colégio Estadual de minha cidade. E eu lia, compulsivamente, os clássicos que o médico e filósofo Samuel de Assis T oledo me emprestava de sua ampla e diversificada biblioteca: Shakespeare, Poe, Proust, Joyce, Machado de Assis e Hemingway, entre outros. E constatei que não há literatura sem leitura. Primeiro leitura, depois literatura. Mais que uma arte, a literatura é uma energia, uma ferramenta para mudar – ou tentar mudar o mundo; se é que isso seja possível!
Ficou registrada, no Caderno Antigo, a existência de um professor de Português, recém-saído de um seminário de padres. Andar ereto e duro de meio-galope, tinha a cara de quem comeu e não gostou; mas, também, de quem continuaria a comer – e muito. Nada de técnicas gramaticais consta lá que aprendi com aquele ferrabrás. Posteriormente, já na faixa dos 30, constatei a sua meteórica ascensão social e política, por conta dos arbítrios da ditadura militar; período em que tudo de ruim passou a ser possível no Brasil.
- Espero que Rebeca tenha melhores e mais alegres lembranças da vida registradas em seu já colorido caderno!

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor, Escritor e Consultor de Empresas. WWW.paulobotelho.com.br