A Sintaxe da Sustentabilidade

Publicado em 03/09/2012 - paulo-botelho - Paulo Botelho

“Apenas quando o ser humano matar o último peixe, poluir o último rio e derrubar a última árvore, irá compreender que não poderá comer o dinheiro que ganhou”.  Seatlle, chefe indígena americano.
A moda do sustentável acabou banalizando o tema situando-o, apenas, no chamado “Universo Corporativo”. Esse “universo” tem sido explicado por uma constelação de figurinhas carimbadas, “entendidas” e “inseridas no contexto”, como se diz, e que chegam a cobrar a bagatela de R$ 10 mil por uma “palestra elucidativa” de duas horas. – E o “universo” se enche de luz, de interação, de emoção. Não é esse o universo que pretendo tratar e compreender com este artigo. Sustentabilidade é um conceito sistêmico, relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, políticos e culturais da sociedade humana. Ela abrange vários níveis de organização: desde a vizinhança local até o planeta inteiro. Para um empreendimento humano ser sustentável, é preciso que tenha quatro requisitos essenciais: economicamente viável, socialmente justo, politicamente correto e culturalmente aceito.
Mas, é melhor não ter ilusões. O nosso universo é um “lúmpen” constituído de analfabetos funcionais (67% dos brasileiros). Temos por aqui o pior analfabeto. E o que é o pior analfabeto? – É o analfabeto político que não ouve e não enxerga; não fala e tampouco participa dos acontecimentos importantes do país. Somos um povo amoral; que pensa com o estômago e responde com o intestino. Enquanto há dinheiro para o churrasco, a cerveja e a prestação do carnê não se importa com mais nada. Temos que politizar o que entendo como núcleos de ação, isto é: primeiro ensinar e treinar os treinadores para que eles possam passar adiante os conhecimentos de cidadania, lançando luzes para eliminar a ignorância cívica existente em todos os cantos do Brasil.
Mia Couto, escritor moçambicano, em seu livro “O Último Vôo do Flamingo” tenta entender o que aconteceu com o seu país cuja história coletiva foi consumida pela ganância dos poderosos e, também, pela ignorância cívica de seus habitantes. Ele relata a história dos flamingos que desapareceram para sempre de Moçambique, justamente esses pássaros reconhecidos como eternos anunciadores da esperança.
Mas, foi lá já na minha tão distante infância e adolescência que conheci um verdadeiro Quixote do universo sustentável. Surdo-mudo, pequeno e frágil, chamava-se Alcides. Nada se sabia de seus pais, irmãos, parentes, seu sobrenome. Expulsava os gambás dos galinheiros; roçava as ervas daninhas ao redor das sedes das fazendas em troca de um caldo de feijão, um pão, uma pousada. Ia sobrevivendo de roça em roça no eixo Muzambinho-Monte Belo, em Minas Gerais. Certa vez, logo ao amanhecer, acenou pedindo à dona América Bueno Alves, dois ovos, uma porção de farinha de trigo, açúcar, leite e manteiga. Misturou tudo com uma colher de pau e levou ao forno de lenha para assar. Até hoje eu sinto o cheiro e o sabor daquele bolo tão gostoso! – Fora a gratidão de Alcides pela acolhida de minha bisavó, uma mulher tão simples e generosa! Alcides foi o primeiro multiplicador do desenvolvimento sustentável que conheci. Ele era capaz de chorar por não poder evitar a morte de um animal; brigar para poder evitar a derrubada de uma árvore; tomar providências – todas a seu alcance – para poder socorrer alguém com fome.
Sustentabilidade é, sobretudo, responsabilidade ética pela sobrevivência futura. Ninguém definiu melhor essa responsabilidade que Alexis de Tocqueville, escritor e político francês que viveu no Século XVIII: “A atitude que um cidadão toma pode ser escrita? Pode ser publicada na primeira página de um jornal? Pode ser deixada para seus filhos e netos? – Se a resposta for sim, a atitude é ética”. – Eis aí a sintaxe da sustentabilidade que preenche os quatro requisitos essenciais!

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor, Escritor e Consultor de Empresas. WWW.paulobotelho.com.br