A Sintaxe da Preocupação

Publicado em 25/11/2013 e atualizado em 25/11/2013 - paulo-botelho - Paulo Botelho

Por Paulo Botelho

Ele é dotado daquela raríssima preocupação afetiva que melhor qualifica o ser humano, especialmente na relação com os amigos. Muito magro e baixo, olhos vivos e rastreadores, bigodes e cavanhaque de mandarim, não agüentou a repressão política contínua da ditadura do governo chinês – e deixou a Universidade de Pequim exilando-se no Brasil a partir dos anos 90. Fomos colegas de Universidade (ele lecionando Métodos Quantitativos e eu Logística Reversa) além de  vizinhos de rua; entretanto a amizade continua firme e forte tanto quanto o seu atropelado português escrito e falado!  

 

“Meu mulher viu, semana passada, seu segunda filho entrando no carro. Ele disse que filho anda muito depressa, quase correndo. – Você precisa mandar ver no médico como anda fígado de segunda filho.” O recado chegou-me por e-mail com um anexo: “Conselho de Chinês”. – E o remetente foi ele mesmo: o meu colega e amigo Fan Liang-Pin. Agora, traduzindo o Fan: a mulher dele Deng Yingchao, professora de balé clássico, ficou preocupada com a saúde de minha filha Ana que mora sozinha; por isso o recado. Coisa de amigo. No recado, bem humorado, está contida toda uma abordagem lúdica e essencialmente filosófica:

“Há apenas duas coisas com que você deve se preocupar: se você está bem ou se está doente. Se está bem, não há nada com que se preocupar. Se está doente, há duas coisas com que se preocupar: se você vai se curar ou se vai morrer. Se vai se curar, não há nada com que se preocupar. Mas, se vai morrer, há duas coisas com que se preocupar: se vai para o céu ou para o inferno. Se vai para o céu, não há nada com que se preocupar. Agora, se você vai para o inferno, estará tão ocupado em cumprimentar velhos conhecidos que nem terá tempo em se preocupar. Então, para que se preocupar?”

Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor, Escritor e Consultor de Empresas. WWW.paulobotelho.com.br