Crônica - VÁLTER

Publicado em 15/01/2021 - nilson-bortoloti - Da Redação

Crônica - VÁLTER

Lá vem o Válter, de manhã bem cedinho, impecavelmente vestido, como de hábito. Em pleno calor de dezembro, usa roupas sociais. Estas não lhe parecem incomodar.

O funcionário aposentado da Prefeitura só anda bem trajado para exercer o seu mister. O seu trabalho é dos mais humildes: sai à cata de produtos recicláveis. Na minha porta, quase sempre, é contemplado com algumas latinhas de alumínio.

A acompanhá-lo está sempre uma cachorra gorda, que marcha bem a seu ritmo.

Pára na minha porta. E, enquanto esmaga as latinhas com o seu sapato bico fino, desfia uma série de especulações sobre a saúde da família. Dou respostas rápidas até para não ser chato, porque no dizer de Millôr Fernandes, chato é aquela pessoa que a gente pergunta como vai e ela explica.

Agora é minha vez de perguntar:

-Quantos anos, Válter?

-Oitenta.

(não lhe daria mais do que sessenta)

-Pressão alta?

-Não tenho.

-Diabetes?

-Não tenho

-Dores no corpo?

-Não tenho

-Usa remédios?

-Não uso.

Prossegue o Válter a sua jornada, cadela gorda saracoteando logo atrás. O dono gordo vai na frente. (Corrijo, diria que ele é mais forte do que gordo).

O eterno sorriso segue estampado no rosto. Se eu soubesse desenhar, a caricatura que faria do Válter seria a da presença constante do sorriso na cara.

Enquanto faz o seu trabalho, de busca do produto que lhe interessa –circunda a cidade toda, mora nas imediações do almoxarifado da prefeitura, no Alto do Anjo- conversa daqui e dali.

Um dia flagrei-o papeando com uma senhora:

-Válter, onde você passou a passagem de ano?

-Na minha casa mesmo. Durmo cedo, por volta das sete da noite. Também às seis horas da manhã já estou de pé. 

Fiz as contas. Mas, isto são onze horas de sono! Isto é  sono de um bebê! Eu que mal consigo dormir mais do que cinco horas por noite, senti uma inveja terrível do Válter. 

Se eu fosse de apostas, apostaria que Válter chega aos cem. Não sei se isto é uma grande vantagem, para nós outros, mortais. Mas, no caso do Válter talvez o seja, pois a impressão que me passa é que a vida lhe é leve e suave, como deveria ser para todos.


* Por Nilson Bortoloti (Professor aposentado, ex-prefeito e ex-vereador em Muzambinho)