Viva à França? Ou Viva à Coreia do Norte?

Publicado em 12/05/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Viva à França? Ou Viva à Coreia do Norte?

A democracia tem se mostrado vulnerável nos seus resultados finais. Nesta semana, o desfecho das eleições presidenciais francesas foi mais uma constatação de que esse sistema político muitas vezes leva o eleitorado para um beco sem saída. Depois da pulverização dos mais de 36 milhões de votantes franceses no 1º turno em 11 candidatos, os dois mais votados que chegaram ao 2º turno foram Emmanuel Macron, do partido político “En Marche!”, e Marine Le Pen, da Frente Nacional. A plataforma política da candidata Le Pen, rotulada como extrema direita, sempre defendeu idéias nacionalistas e contrárias à imigração e à integração europeia, embora ela tenha amenizado as posições antissemitas de seu pai, Jean-Marie Le Pen, que disputou quase todas as eleições francesas entre 1974 e 2007. Ao contrário da transparência dos Le Pen, o vencedor do 2º turno e novo presidente da França, Emmanuel Macron, foi rotulado de ‘ambíguo’, ele mesmo se classificando não ser “nem de direita nem de esquerda”.

O recém eleito presidente francês tem apenas 39 anos de idade, nunca havia disputado uma eleição, embora tenha tido uma iniciação política por conta de sua carreira como competente e carismático funcionário de bancos de investimentos aonde chegou, nada mais nada menos, que no tradicional banco dos Rothschild. Por convite do presidente François Hollande, veio a ocupar um importante cargo administrativo nesse governo e logo promovido a Ministro da Economia. Em três anos experimentados na carreira pública, Macron vislumbrou que poderia subir mais, rompendo com o Governo e fundando um partido político com a pretensão de se candidatar à sucessão de Hollande. Assim nasceu o “En Marche!” (Em Movimento) pelas mãos e pelo talento de um predestinado. Seu discurso moderado, centrista, com firmeza econômica e defendendo a permanência francesa na União Europeia lhe renderam suficientes apoios nas altas rodas que se incumbiram de promovê-lo perante uma população cansada dos velhos nomes da roleta política da França.
A estratégia de Macron e seus marqueteiros era fazer a “novidade” chegar ao 2º turno das eleições presidenciais. O eleitorado francês é ideologizado e vinha se alternando entre a esquerda e os conservadores desde a ascensão ao poder, em 1981, do perseverante François Miterrand. Deu certo: ele atingiu o índice de 24.01%; Marine Le Pen cresceu em face do problema dos imigrantes e do terrorismo, chegando em segundo lugar com 21,3%; o Partido Socialista, que passou a adotar políticas de direita, foi repudiado com o candidato Benoît Hamon, com 6,36%, fortalecendo o comunista Jen-Luc Mélenchon, do FI – França Insubmissa – em quarto com 19,58%; e o conservador François Fillon, do LR – “Les Républicains”, com 20%, em terceiro.
Nesse cenário de fragmentação chegou-se ao beco sem saída do 2º turno, em que os ideologizados franceses tiveram que optar entre a ambiguidade e a jovialidade de quem se dizia “nem de direita nem de esquerda”, ao barril de pólvora de Marine Le Pen, consagrando-se o ambicioso e estrategista banqueiro. Com isso, a França dos próximos sete anos deverá permanecer fiel aos preceitos do liberalismo econômico e parceira da Alemanha na sustentação da União Europeia, que vai estar desfalcada do Reino Unido que, através de um plebiscito tomou a decisão de afastar-se do bloco europeu, embora por pequena margem de votos, num movimento conhecido por Brexit (abreviatura das palavras inglesas BRitain = Bretanha + EXIT = saída).
Resultado como este da França, cujo desempenho do vencedor ainda depende de longa jornada, questiona o funcionamento da democracia. Nela nem todos que opinam têm formação intelectual abalizada do processo que está em jogo. Porém sua equidade consiste cada pessoa valer um voto. Vota-se no mais charmoso, no mais fluente, no demagogo, no mais rico, na propaganda (enganosa!) e menos na coerência ou na ideologia partidária. Entretanto, aqui e alhures, os ungidos das urnas, vão sofrer uma oposição orquestrada de partidos, candidatos e eleitores PERDEDORES. Aqui, vão prevalecer o despeito, o rancor, a inveja e até um “mea culpa” pela vereda seguida, que pode ter acabado numa trilha à beira do abismo.
A primeira eleição presidencial brasileira depois da redemocratização, em 1989, foi uma farra democrática com 22 candidatos. Do mesmo modo que Emmanuel Macron, da França de hoje, um nacionalmente desconhecido político, Fernando Collor de Mello foi eleito Presidente do Brasil. Era ele um desconhecido para a grande massa do eleitorado, mas sua biografia revelava que ele fazia parte de tradicional família política alagoana, cujo pai, Arnon Farias de Melo (que pertenceu ao PDC/UDN/ARENA), foi deputado, governador e senador pelo estado de Alagoas e filho de antigo senhor de engenho no interior desse Estado. O então Senador Arnon de Melo foi personagem histórico nessa Casa do Congresso, em 1962, ao desferir tiros contra seu inimigo político, Silvestre Péricles, que discursava na tribuna, errando o alvo e matando o suplente de senador, José Kairala, do Acre, que cumpria seu último dia como Senador substituto da República. A imunidade parlamentar acabou deixando o assassino na impunidade, que voltou a ter mandatos durante o regime militar, que apoiava.
Pois bem, a eleição de Collor precisa sempre ser recontada: jovem e considerado bonito, apresentou-se como um “caçador de marajás” e que abriria o Brasil aos mercados. Ficou claro o apoio que ele recebeu das Organizações Globo que catapultou sua candidatura, ajudando a levá-lo para o 2º turno, dentro da mesma pulverização desta eleição francesa. De acordo com dados do Yahoo, Fernando Collor (PRN) obteve 28,52%; Lula (PT) 16,08%; Leonel Brizola (PDT) 15,45%; Mário Covas (PSDB) 10,78%; Paulo Maluf (PDS) 8,28%; Afif Domingos (PL) 4,53%; Ulisses Guimarães (PMDB) 4,43%; seguindo-se Roberto Freire (PCB) 1,06%; Aureliano Chaves (PFL); Ronaldo Caiado (PSD); Afonso Camargo (PTB); Enéas Carneiro (PRONA); Marronzinho (PSP); Paulo Gontijo (PP); Zamir Teixeira (PCN); Lívia Abreu (PN); Eudes Mattar (PLP); Fernando Gabeira (PV): Celso Brant (PMN); e outros três – todos com menos de Hum por Cento dos votos. O segundo turno disputado entre Collor e Lula, com descarada manipulação da Rede Globo, deu vitória a Collor com uma diferença de 6%, diante do medo semeado contra o “sapo barbudo”, como Brizola apelidou Lula ao decidir apoiá-lo contra a sua vontade, como muitos fizeram na França com Emmanuel Macron.
As contradições da democracia levam a diversos tipos de negociatas e a renuncia de convicções. Por outro lado, democracias que não servem ao capitalismo são desqualificadas como democracias, ao que exemplifico a Venezuela – mormente nos períodos de eleições livres, plebiscitos e referendos de Hugo Chávez – e o Irã de Ahmadinejad. Mas, as contradições também permeiam as ditaduras. Se servirem ao capitalismo como foram as outroras ditaduras militares da Argentina, Brasil e Chile, ou como muitas dos dias de hoje, a exemplo como da Arábia Saudita, tornam-se bem toleradas pela “imprensa livre”. Mas, se ousam defender o socialismo como Cuba, Coréia do Norte e China, são execradas. Diante desta conjuntura e das comemorações mundiais pela vitória de Emmanuel Macron, fico a refletir se devo dar um “Viva à França” ou um “Viva à Coreia do Norte”.

[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)