Um passeio pela Monte Belo da era pré-espacial

Publicado em 18/10/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Um passeio pela Monte Belo da era pré-espacial

Quão bem me lembro da minha adolescência na querida Monte Belo, na segunda metade da década de 1950. Nessa época, batia em mim a vontade pela leitura de revistas e jornais que eram oferecidos pelo jornaleiro do trem de passageiros da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, que circulava diariamente, ida e volta, no Ramal de Guaxupé a Juréia. Impossibilitado de comprá-los, surgiu-me a ideia de vender esses produtos na cidade o que poderia me ser facilitado pela condição de filho do Chefe-de-Estação dessa empresa ferroviária. Meu pai, Antonio Silveira Lima, um mineiro do Triângulo, era recém-chegado à cidade, vindo de uma movimentada estação rural da Linha Tronco da Mogiana, que ficava entre os municípios paulistas de Campinas e Jaguariuna. Próximo da sua aposentadoria, ele concretizou o desejo de retorno à terra natal da minha mãe, Hilda Boneli de Almeida, uma normalista com quem ele se casara, havia uns 15 anos antes, e que a conhecera ainda na condição de telegrafista sediado em Guaxupé, mas que, também tinha a atribuição de substituir os chefes das diversas estações do ramal jureiense nas suas folgas ou férias. Desta feita, meu pai veio preencher a lacuna deixada pela aposentadoria do antigo Chefe, Sebastião Vasconcellos, enraizado na sociedade montebelense e emérito orador nas principais solenidades cívicas, festivas ou fúnebres, até hoje com ilustres descendências lá existentes nas famílias Fernandes e Podestá. Ambos, depois o sr. Luís, pai dos gêmeos Agildo e Astrogildo, foram as últimas chefias da Estação Monte Belo, até a extinção da ferrovia na década de 1960. Era uma unidade da ferrovia do maior significado comercial, porque escoava grande parte do açúcar produzido pela já existente Usina Monte Alegre, das sacarias de café para grandes compradores ou exportadores, de aves e ovos que iam abastecer o comércio de Campinas e São Paulo, além de ser dotada de um embarcadouro de gado que não era um equipamento comum a todas elas. Em sentido oposto, recebia os mais diversos produtos comerciais da época como produtos para o chamado comércio de “secos e molhados”, equipamentos agrícolas como enxadas e arados, caixas de remédios, enfim de toda a demanda daqueles tempos em que aparelhos elétricos se restringiam a poucos rádios e alguns ferros de passar roupa. Nada de fogões, geladeiras e TVs.

Foi nesse nostálgico cenário que me tornei uma espécie vendedor por consignação da revista “O Cruzeiro”, do império “Associados” de Assis Chateaubriand - sim, dessa celebridade que veio comandando sua equipe jornalística na cobertura da inauguração da Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho, em 1953, pois aqui se reuniram por dois dias o Presidente Getúlio Vargas (PTB), o Governador Juscelino Kubitscheck(PSD) e suas comitivas de Ministros e Secretários estaduais, junto com a “prata da Casa” e Deputado Federal, Lycurgo Leite Filho (UDN), sob a recepção do Prefeito Álvaro Martins de Oliveira (UDN) e dos caciques do PSD muzambinhense, Ismael de Oliveira Coimbra e Lauro Campedelli. Outra revista que me cabia vender era a “Manchete”, uma nova publicação da Editora Bloch. Ambas eram semanais e editadas no Rio de Janeiro, até então a Capital do, pasmem!!!, Estados Unidos do Brasil. 

Construí uma freguesia de escol constituída pelos meus tios-avós, Ezequiel Boneli, Prefeito de Monte Belo, e Olavo Boneli, cada qual dirigente local dos partidos políticos PST e PR; do político rival, do PSD, influente comerciante e ex-Prefeito, Francisco Wenceslau dos Anjos; dos farmacêuticos Romeu Luiz de Podestá e do meu próprio avô, Antonio Bueno de Almeida; do ex-prefeito pela antiga UDN, Hasslocher do Amaral; do então Coletor Estadual, uma instituição hoje equivalente à AF - Administração Fazendária - Élter Lobato; do dentista Josino Macedo; do único médico da localidade, Dr. Armando Paraíso Pereira. Essa listagem é bem lembrada, porque eram frequentes leitores e compradores de uma das duas revistas, dependendo da capa. Como jornal, pedia que só me fosse deixado “A Gazeta Esportiva”, porque o pacote me era entregue uma vez por semana. Como a ‘A Gazeta Esportiva’ era diária, o exemplar de um único dia da semana pouco interessaria, a não ser para mim mesmo, que era apaixonado por todos os tipos de esporte (e ainda sou). A maioria das pessoas era assinante d’O Estado de S. Paulo’, um fenômeno de vendagem no Sul de Minas, secundado pelo ‘Diário de São Paulo’, órgão do referido grupo “Associados” (Emissoras e Diários Associados), e de outro diário, que chegava até com dias de atraso, “O Jornal”, considerado o embrião e órgão líder do conglomerado de Assis Chateaubriand. Impresso no Rio de Janeiro, relembro, a nossa Capital Federal, pois Brasília seria construída no governo do Presidente Juscelino Kubitscheck, inaugurada em 21 de Abril de 1961, cantada e recitada como “A Capital da Esperança”.

Este meu trânsito saudosista direcionou meu ímpeto no afã de escrever esta minha coluna semanal. Na verdade, de tudo aquilo que registrei como memória, interessava a mim, para conhecimento do caro leitor, dizer, ou repetir o que sempre escrevo: que desde os onze anos de idade fui voraz leitor de livros, revistas e jornais. E daí?  Daí que eu queria sintetizar que nesse meu tempo de “pequeno leitor” tomei conhecimento de textos e primeiras ilustrações visuais daquilo que vou denominar de Era Pré-Espacial. Eram matérias da revista “O Cruzeiro” que previam as primeiras incursões do homem no espaço sideral, e até a conquista do nosso satélite lunar e do chamado Planeta Vermelho - Marte. Eu me deleitava e acreditava nessas reportagens quase que ficcionistas das viagens espaciais não tripuladas ou tripuladas.

Assim sendo, apenas o parágrafo anterior seria para ser inserido na minha coluna que já tinha como título “O Brasil vai ao espaço ou pro espaço?”. Seria a demonstração de que a quase-ficção da revista “O Cruzeiro” tornou-se uma realidade muito além, muito mais além. E poucos anos depois. Mas, não foram os Estados Unidos da América das reportagens que concretizaram o feito espacial inicial. Surpreendentemente, quem o fez, silenciosamente, foi a URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas - com o lançamento do primeiro satélite artificial terrestre, o Sputnik I, em outubro de 1957. No mês seguinte subiu o Sputnik II, com a cadela Laika a bordo. Bateu desespero, e medo, nos Estados Unidos. O nosso mundo vivia a Guerra Fria. Um satélite soviético era a possibilidade de um ataque nuclear de qualquer ponto do espaço. Os contendores se esforçam na corrida espacial. Os Estados Unidos fazem tentativa fracassada em dezembro do mesmo ano com o Vanguard I. Mas, em 31 de janeiro de 1958 chegam lá com o Explorer I.


A corrida entre URSS e EEUU hoje virou um clube espacial frequentado por Rússia. EEUU, França/Agência Espacial Europeia, China e India. O Brasil começou com o Centro de Lançamento de Barreira do Inferno, a 12 Km de Natal/RN, espremido pelo crescimento urbano ao seu redor. O Centro Espacial de Alcântara, a 30 km de São Luís/MA, geograficamente mais estratégico vai ser alugado para os Estados Unidos. Ambos estão próximos à Linha do Equador, assim como o de Kourou, na Guiana Francesa. Nessa latitude o movimento de rotação terrestre gera maior impulsão, ou seja, há aumento de velocidade com 30% menos de gasto de combustível. Seria questão de soberania nacional? É pegar ou largar, pois já se cogita de lançamentos de plataformas marítimas em plena linha equatorial.  Semana que vem pretendemos entrar no mérito da “entrega de Alcântara”, repercutindo debates na Câmara Federal, que irá votar o Projeto de Decreto Legislativo Nº 523/2019, que trata do AST - Acordo de Salvaguardas Tecnológicas - para a utilização do Centro de Lançamento de Alcântara. Na verdade, o Acordo entre Brasil e Estados Unidos foi assinado em 18 de março de 2019. Resta o validamento por parte do Congresso Nacional.    

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)