TURBULÊNCIAS RODEIAM A REUNIÃO DO BRICS

Publicado em 14/11/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

TURBULÊNCIAS RODEIAM A REUNIÃO DO BRICS

A dissimulação brasileira seria de abrigar a presente Reunião do BRICS fingindo que somente a economia estaria na pauta. Nada de política, mormente de política internacional. Até porque esse ajuntamento de países, de diferentes continentes, de diferentes ideologias, havia nascido do pensamento de um economista britânico, Jim O'Neill, que teorizava que países emergentes como Brasil, Rússia, Índia e China poderiam se tornar verdadeiras potências econômicas mundiais no ano de 2050. No desenvolvimento dessa sua teoria O'Neill sempre que se referia a esse bloco de países o fazia pelas suas iniciais como forma de facilitação, resultando na nova palavra ou sigla BRIC. Do despretensioso batizado nasceu um bloco de países de verdade. Isto veio a acontecer em 2006, quando a conjuntura política foi potencialmente ajudada pela existência de um governo de esquerda no Brasil, que detinha uma economia em franco crescimento, tendo como Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, muito mais propenso a um alinhamento internacional com China e Rússia do que com os Estados Unidos da América - EEUU.  A India sempre procurou conservar uma neutralidade desde os tempos da Guerra Fria. Apesar disso, tornou-se potência nuclear e não só abriu sua economia na década de 1990, como tornou-se um destaque na tecnologia da informação nos primeiros dez anos deste milênio e com um crescimento anual do PIB em torno de 7%. A intuição de O'Neill se materializou em 2006, com a fundação do BRIC, acrescida anos depois com outra economia emergente, que viria representar o continente africano, a África do Sul, ou South Africa, que incorporaria a letra final no atual desenho do BRICS.

                      Diante de uma visão hostil à China, por parte do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tanto na sua campanha eleitoral e no início do seu governo, quando chegou a afirmar que "os chineses querem comprar o Brasil", o período de governo dele acabou por constatar que essa potencia oriental é de fato nosso maior parceiro comercial. O informativo CEBC Alerta, de dezembro de 2017, patrocinado pelo banco Bradesco, relativo aos indicadores comerciais e econômicos Brasil e China, traça gráficos comparativos das exportações e importações brasileiras de 2007 a 2017, analisando que o nosso país somente teve "deficit" nas nossas transações com os chineses, pequenos, somente nos anos de 2007 e 2008, na beirada da crise econômica mundial, gerada pela bolha imobiliária dos EEUU. A partir de então, principalmente a partir de 2016, o saldo comercial sino-brasileiro tem sido francamente favorável a gente. É notório que duas grandes "commodities" pesam para o nosso lado, constituindo nossas maiores exportações: o minério de ferro e a soja, a maior parte desta em grãos, mas, indo também como farelo ou óleo. Acrescentamos na listagem daquilo que lhes exportamos: carnes de aves e bovina, couros e peles curtidas, óleos brutos de petróleo, até veículos aéreos. Quando o ministro Paulo Guedes disse nesta 4a.feira, 13, que proporia uma "área de livre comércio" com eles, encontrou resistência entre o nosso empresariado, que sentiu-se com isso preocupado, justamente porque nossos produtos são notoriamente primários e a proposta viria prejudicar a nossa combalida indústria. Percebam que no citado informativo, as importações brasileiras se dão por conta de: materiais elétricos e outros componentes do ramo; produtos químicos; plásticos; fertilizantes; instrumentos de precisão; produtos de borracha e ferro fundido. A maior parte disso que compramos é de manufaturados. No último ano apresentado no informativo, as transações sino-brasileiras foram da ordem de 69 bilhões de dólares, sendo as nossas exportações 44 bilhões de dólares, e as importações 25 bilhões de dólares, gerando um saldo a nosso favor de US$19 bilhões. Ao se render ao governo comunista chinês, no primeiro e preparatório dia para a reunião fechada da 5a.feira, expressou-se o Presidente Bolsonaro; "A China cada vez mais faz parte do futuro do Brasil".

                       Duas agendas preparatórias nortearam os BRICS:  (1º) a de respeito à OMC - Organização Mundial do Comércio - que Bolsonaro tentou trocar pela OCDE - Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico - uma espécie de clube dos ricos formado por 36 paises, defendendo interesses norte-americanos e europeus, enquanto a outro representa 164 países em desenvolvimento; (2º) fim das medidas comerciais protecionistas. Vale ser lembrado que para o Brasil entrar para a OCDE ele deve renunciar a certos privilégios que goza na OMC. Em 2007, o tarimbado e versátil ministro das Relações Exteriores do governo Lula, Celso Amorim. declarou: "Entrar para a OCDE não é uma reivindicação nem uma aspiração do Brasil".

                         Aparato de segurança como nunca se viu na Esplanada dos Ministérios em Brasília, foi uma demonstração do temor do governo bolsonarista na proteção dessas grandes lideranças mundiais, aqui entre nós. Mesmo assim, uma segurança nossa, bem diferente do que aqui já vimos com a passagem de um presidente dos EEUU, onde as forças de segurança deles subestimaram as nossas, dando todas as ordens durante a referida visita.

                        Mesmo assim, nesta 4ª.feira, 13, não se sabe a pretexto de que ou a mando de quem, um grupo de atrevidos e presunçosos venezuelanos, supostamente com o auxílio de direitistas brasileiros no seu meio, ao amanhecer do dia, invadiu a embaixada da Venezuela na nossa Capital Federal para dela se apossar, como fizeram dentro dos EEUU e com a conivência do governo norte-americano. O ato afronta a Convenção de Viena para Relações Diplomáticas, sendo a embaixada um espaço inviolável e que deve receber a devida proteção do país onde esteja instalada. Tão logo o fato se deu, o Encarregado de Negócios da Embaixada venezuelana, Freddy Efraim Meregote Flores, lá residente, pediu ajuda por telefone a compatriotas, mais tarde incorporada por deputados federais brasileiros - Paulo Pimenta (PT/RS), Gláuber Braga (PSOL/RJ) e Sâmia Bonfim (PSOL/SP) -, além de militantes esquerdistas. Ao longo do dia se digladiaram esquerdistas e militantes de direita, tendo estes recebido apoio em rede social do filho do Presidente, o Deputado Federal Eduardo Bolsonaro (ex-PSL/SP), numa demonstração do quanto esse parlamentar não tem as mínimas qualidades de se tornar embaixador nos EEUU, como queria ele, pois ser diplomata é sinônimo de pacifismo e de mediação. Tanto nos EEUU como em Brasília as embaixadas da Venezuela não contam com Embaixador, retirados que foram pelo governo de Nicolás Maduro, aqui como forma de protesto ao golpe dado contra a Presidente constitucional, Dilma Rousseff, em 2016. O Presidente da República sofreu esse tipo de constrangimento perante colegas do BRICS, como Xi Jinping, da China, e Vladimir Putin, da Rússia, ambos declaradamente aliados do atual governo da Venezuela, ao contrário de Bolsonaro que reconheceu o oportunista e golpista, Juan Guaidó, como "presidente auto-declarado", uma inutilidade porque não manda em nada por lá, apenas patrocina confusões como esta.

                         Mas, a reunião do BRICS foi pega pela surpresa da renúncia forçada do Presidente EVO Morales, na Bolívia, outro país em que Rússia e China tem posições diversas do Brasil de hoje, gerando mais constrangimentos entre eles, porque assuntos econômicos deveriam prevalecer. Particularmente, entendo que o o Presidente renunciante cometeu equívocos ao tentar sua perpetuação no Poder Boliviano. Ou nos comportamos pela cartilha democrática, ou retiramos de vez essa máscara de democrata. Não que aceite a tese de fraude eleitoral total. Na verdade, observadores da OEA - Organização dos Estados Americanos - constataram irregularidades, que podem ser chamadas de fraude, mas no sentido de que Evo Morales não tivesse obtido a vitória no 1º turno, sendo o 1º colocado e Meza o 2º, indicando um 2º turno. Os militares bolivianos, tradicionalmente chamados de gorilas, sempre participaram dos conflitos políticos bolivianos. O País teve cerca de 80 Presidentes em 200 anos, boa parcela através de golpes militares, ou civis-militares. Até que Evo Morales durou muito, quase 12 anos, mas ele mesmo violando a democracia, através de manipulação da Constituição. Sua longa permanência deu-se por conta do estupendo crescimento econômico da Bolívia, na média de 5% ao ano durante 10 anos. Não me cabe aqui discutir outros aspectos pelo espaço a que devo me limitar.

                         A América do Sul ainda conta com duas viradas que devem, no fundo, ser comentários na cúpula econômica; a convulsão social no antes badalado Chile, alcançando quase que um mês, com mortes e danos ao patrimônio. Nesta semana mesmo, ficou a revelação de que as feridas da ditadura de Pinochet continuam a sangrar. Simbolicamente incendiaram uma antiga prisão e local de torturas da época daquele sanguinário ditador. A outra, foi a derrota do neoliberalismo na Argentina, que voltou a ter uma oportunidade depois de Carlos Ménem, agora com Maurício Macri. O kirchnerismo tão perseguido pelas elites conservadoras, tanto quanto o petismo no Brasil, está de volta através das urnas.

                        Mas, nem tudo vai bem com os parceiros mais influentes do BRICS. A China está se desdobrando para evitar um massacre na Região Administrativa Autônoma de Hong Kong, tomada por protestos quase que diários, região que viveu as regalias do capitalismo até a virada para este milênio, quando era protetorado britânico. A Rússia tem suas rixas com a vizinha Ucrânia e com o separatismo da Chechênia. A India que, ao deixar de ser colônia inglesa, foi dividida entre ela hinduísta e o Paquistão muçulmano, ficando entre eles a Caxemira como pomo da discórdia.

                        Fingindo deixar todos esses acontecimentos de lado junto com as suas divergências ideológicas, fluiu a Reunião do BRICS. Melhor assim do que a exacerbação dos conflitos.   

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)