TEM JEITO DE SE AMANSAR BOI BRAVO, CAVALO COICEIRO, MERCADO NERVOSO E SISTEMA BIRRENTO

Publicado em 15/02/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

TEM JEITO DE SE AMANSAR BOI BRAVO, CAVALO COICEIRO, MERCADO NERVOSO E SISTEMA BIRRENTO

                Quem é apreciador das tradicionais festas de rodeio conhece muito bem a coragem e a tenacidade dos peões no trato com bovinos e equinos indomáveis. Além deles há os domadores anônimos que campeiam pelos sítios e fazendas na faina de domesticar esses animais bravios. Jeito, paciência e técnica são as suas qualidades.

                  Entretanto, pior do que este enfrentamento vivem hoje as pessoas ao lidarem com o poder invisível dos “sistemas” e com a voracidade dos mercados. Não dá para aguentar as barreiras que hoje nos antepõem aos “sistemas”, que são verdadeiros fantasmas, seguramente invisíveis, que criam problemas para a vida de todos nós. É o “sistema”, que não aprova o seu crédito junto ao sistema financeiro, que indefere seus projetos junto aos órgãos ambientais, que, enfim, mata os seus sonhos sem nenhuma consideração humana. Mais atroz e acachapante é escutar que os mercados estão nervosos diante das decisões que os governos tendem a tomar, respaldados que foram nas chamadas eleições democráticas.

                    Destaquemos que o governo de Jair Bolsonaro mal começou. Lembremos que o Presidente teve que ser submetido a uma cirurgia complementar e corretiva dos danos sofridos pelo atentado à faca que sofreu durante a campanha política. Mas o assunto repetitivo e maçante da reforma da previdência social brasileira não dá trégua a ele nem a todos nós. O guloso “mercado” lhe cobrava pressa dentro da delicadeza e do recato de um leito hospitalar. Os vassalos dão notícias e promovem entrevistas nas mais diversas mídias, exigindo rapidez em nome do “mercado nervoso”. Dizem que a ruína econômica do Brasil está nas costas do sistema previdenciário. O servilismo ao “deus mercado” lhe atribui imperiosa necessidade de ajustes mesmo que custe sacrifícios para quem nada possui e que muito já se sacrifica pela Pátria. Muitos contestam o tal “déficit” previdenciário, sugerindo manipulação de dados, má gestão e o que é pior: ralos ocultos esvaziando a piscina das contribuições.

                      Por outro lado, ninguém é retardado para não entender que a expectativa de vida dos brasileiros vai se alongando em virtude dos avanços científicos e do nosso próprio sistema de saúde, que é outra fonte de críticas para o favorecimento dos planos particulares de saúde. Por trás de tudo estão os mesmos que planejam ofertar uma melhor aposentadoria, ou seja, planos individuais – pelos quais fui roubado muitas vezes ao longo da minha vida profissional, dinheiro jogado no lixo, engolido pela inflação de outrora. Talvez, uma atualização na idade mínima das aposentadorias e no tempo de contribuição dos segurados, com determinados cortes de privilégios, sejam suficientes. Mas, o “mercado nervoso” quer o setor ajude a tampar o “déficit” orçamentário do País, que ele mesmo ajudou a estabelecer, pois sem a desordem econômica, que derivasse para uma alta no desemprego esse “deus de araque” não traria o povão para o seu lado. Então, não apearia a esquerda do poder, através do conluio de um golpe parlamentar e judicial.

                         A reforma da previdência não pode ser açodada como querem aqueles que não dependem de aposentadoria. Governadores almofadinhas como Dória e Zema, o juiz Witzel e outros ricaços governadores ligados ao agronegócio fazem vassalagem ao “deus mercado”, devendo pressionar suas bancadas parlamentares federais. Mas, os militares, por exemplo, já se manifestaram em entrevistas, que já deram a sua cota contributiva não aceitando que sejam atingidos, pois a Constituição Federal não alude a eles como aposentadoria. Apenas reproduzo o ponto de vista dos militares. Porém, há ainda outras categorias que sempre mereceram aposentadorias especiais, caso de policiais e professores, por exemplo. Por isso, a discussão tem mesmo de se aprofundar, de se alongar, pois há milhões de contribuintes que estão dentro do atual sistema e que não podem ser pressionados a se aposentar com prejuízos individuais depois de anos e anos iludidos por regras estabelecidas.

                         O “sistema” que nos oprime veio com as novas tecnologias. Está cheio de filhotes horrorosos, variantes do próprio sistema. Estão disseminados em toda a burocracia governamental, em todas as esferas de poder e em todos os níveis de governo. Considerando o crescimento populacional – desmedido, descabido e inaceitável – que é o prenúncio do caos diante da finitude das reservas minerais planetárias, rendo-me à inevitabilidade da sua existência e de toda a sua prepotência. Tudo ficará pior no momento em que enxertarem “chips” em nosso corpo, porque todos teremos nossas existências rastreadas, de forma muito pior que condenados em uso de tornozeleiras eletrônicas. Sempre entendi que a solução seria um radical controle da natalidade, procedimento com o qual contribuí como profissional de saúde e como político, fulcrado nessa crença. Menos gente, menor necessidade de controle.

                    O “mercado”, este pode ser combatido em função da sua materialidade ao inverso da invisibilidade do “sistema”. Em ambos os casos eles têm na sua retaguarda gente poderosa ou corporações mais poderosas ainda. Na verdade, o mercado é um assunto multiprofissional, interessando, principalmente, a contadores, economistas, administradores de empresas, gestores empresariais e do “marketing”. De maneira simples, poder-se-ia enunciar mercado como o lugar em que se fazem as transações monetárias ou de bens. Seria uma troca de bens ou serviços, hoje efetuadas, em larga escala, virtualmente. Primitivamente, o mercado era literalmente uma troca de mercadorias por trabalho ou por outras mercadorias, caracterizando o escambo ou permuta, praticado desde a Pré-História. Nos meus mandatos de prefeito tive a oportunidade de submeter ao legislativo muzambinhense projetos de lei envolvendo permutas, sendo que fui taxado pejorativamente de “escambeiro”.

                   As grandes transações comerciais dos tempos atuais acontecem no mercado de ações, dentro das bolsas de valores, estando aqui o perigo pela volatilidade dos mercados, pois os capitais migram de uma parte para outra em todo o mundo num piscar de olhos, no puro interesse mercantil dos investidores, já tendo causado crises episódicas e severas em muitos países. O dinheiro é de plástico, é virtual, ao invés das primeiras moedas de prata e de ouro surgidas na antiga Grécia.

                    Há que se fazer referência ao socialismo de mercado, vigente na República Popular da China, que pode ser compreendido no Portal Vermelho, de 13-AGO-2017, no ensaio ‘Socialismo de Mercado, uma nova formação econômico-social’, do Prof. Elias Jabbour, de Teoria e Política de Planejamento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Nele, diz o Prof. Jabbour: “...existe o Estado Revolucionário fundado por Mao Tsé-Tung, em 1949, e existe, a partir de 1978, a internacionalização e a consequente fusão desse Estado Revolucionário com o Estado Desenvolvimentista”. Essa foi a grande jogada do líder chinês Deng Xiaoping, no ano referido, uma alternativa do sino-socialismo para confrontar o liberalismo e o capitalismo. Ele deu fim às comunas e passou a permitir que os camponeses vendessem os seus excedentes agrícolas depois de retirada a cota do Governo. Inverteu a lógica soviética de privilegiar a cidade em detrimento do campo, segundo o mestre da UERJ. Nunca os camponeses chineses ganharam tanto quanto na década de 1980. A isso ele atribui o apoio da classe rural ao governo, que resistiu aos protestos na Praça da Paz Celestial, em 1989. Essa acumulação rural vai, depois, financiar a industrialização chinesa pós-1978. Diz Jabbour: “Nem tudo que é mercantil é capitalista – uma economia de mercado pode ser feudalista, escravista ou socialista. Mas, todo capitalismo, desde uma pequena produção mercantil até uma grande produção em escala, é mercantil, porque é voltada para o mercado”.

                     Ao citar Deng Xiaoping, eu não poderia me esquecer do queridíssimo e saudoso empresário José Alencar, Senador e duas vezes Vice-Presidente da República, com quem tive o privilégio de conviver na minha época de deputado estadual. Autêntico e sincero, foi ele fator de união da chapa presidencial LULA/José Alencar, a do trabalho com o capital, que levou a ambos a exercerem mandatos de profícuas realizações e transformações no Brasil. Aos que o criticavam pela união com o Partido dos Trabalhadores, ele exaltava o camarada chinês, Xiaoping, reproduzindo desse líder, com frequência, a frase: “NÃO INTERESSA A COR DO GATO, INTERESSA QUE ELE CACE O RATO”. Sempre José Alencar fazia a interpretação da mesma de que não interessava a coloração ideológica e sim o bem comum. Não nos interessa métodos comunistas ou socialistas do controle dos meios de produção. Porém o Governo necessita estar dotado de meios eficazes de controle das mais diversas atividades, no mínimo um bom chicote para punir os raivosos e os goelas-largas.

 

      *Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) -  [email protected]