TECNOLOGIA E TECNOCRACIA NA MEDICINA (Reflexões desconexas sobre o Dia do Médico)

Publicado em 23/10/2015 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

TECNOLOGIA E TECNOCRACIA NA MEDICINA (Reflexões desconexas sobre o Dia do Médico)

Desde criança sempre fui além das minhas visões reais, buscando alternativas e conclusões para aquilo que via, embora menos afeiçoado ao raciocínio matemático e, mais à frente, à física. Por isso mesmo sempre me dei bem como médico de ação, enfrentando uma especialidade altamente dinâmica como a obstetrícia, na qual as condutas podem ou devem ser modificadas durante o trabalho de parto. Pelo menos na minha época, quando de fato éramos obstetras na verdadeira acepção da palavra obstetrícia, isto é, “estar ao lado de”, dispondo de pouca tecnologia e, mesmo assim, insistindo na limitação das cesarianas. Tínhamos orgulho de ler nos dicionários, pelo menos no Koogan/Houaiss, do ano 2.000, que “obstetrícia é a ciência ou arte dos partos”. O que não era diferente do que, genericamente, afirmara o Pai da Medicina, Hipócrates: “medicina é a arte de curar”. Não foi de outro jeito na medicina clínica, inclusive nas urgências e emergências, pois, desde as primeiras oportunidades práticas, buscamos um aprendizado policlínico para assim atuarmos nas localidades mais distantes, não só desprovidas de especialistas como de um reduzido corpo clínico.
Claro que há ressalvas na minha primeira frase e nos meus pendores escolares. Refiro-me ao uso da matemática e da física na perspectiva de um parto normal, porquanto uma das indicações do parto por via cesariana ocorre na desproporção céfalo-pélvica, ou seja, na avaliação de proporcionalidade entre a cabeça do feto e a bacia materna, onde havia técnicas rudimentares de mensuração. A era da ultrassonografia já me atingiu depois de engajado na especialidade, justamente, quando minha mulher estava grávida do nosso filho caçula, dos três que tivemos. Era o ano de 1978, morávamos em Belo Horizonte, quando, observem, a cidade dispunha apenas de dois serviços desse tipo de diagnóstico por imagem, sendo um na Faculdade Federal de Medicina e o outro, particular, nas suas proximidades, na Rua dos Otonis. Mesmo assim, os primeiros tempos do ultrassom obstétrico, que, repito, não se encontram tão distantes, mais serviam para detectar a idade gestacional ou se o feto estava vivo ou morto, o que passou a ser fundamental na atitude a ser tomada nos casos de hemorragias específicas dos três trimestres da gravidez.
A realidade é que a arte médica no Brasil – com toda a sua aparência sacerdotal, suas peripécias e limitações – deu lugar ao novo modelo profissional capitalista, oriundo dos Estados Unidos da América e Europa, que está ancorado na obediência a protocolos emitidos pelos gabinetes do Ministério e Secretarias Estaduais de Saúde, na substituição da extensa e tradicional anamnese (conjunto de informações pedidas pelo médico ao paciente) e do exame clínico por dispendiosa e infindável bateria de exames complementares. A pressa é hoje o traço comum que liga o paciente ao médico, abolindo-se a pacienciosa e terapêutica relação médico-paciente e acrescentando-se a ela a odiosa e abominável figura do BO através da frequente presença de policiais em postos de saúde, unidades de prontoatendimento e hospitais. Sem falar na intromissão quase que desnecessária do Ministério Público nessa relação, de decisões desfavoráveis aos médicos por parte do Judiciário, quiçá por se sentirem investidas, tais autoridades, numa aura divina, distanciando-se da realidade terrena e do princípio elementar – que as pessoas mais simples e ignaras conhecem – que é a inevitabilidade da morte humana. Em suma, todos querendo culpar o médico pelo inevitável – a Morte.
Ainda que não bastasse ao médico haver desprezado o dom e os talentos da cura que o impregnaram ao longo dos séculos, em troca do dinheiro e do uso de técnicas de pontuação estáticas e frias (a exemplo das escalas de Glasgow, de Infecção Pulmonar, de Acidente Vascular Cerebral, e outros escores), do uso excessivo, caro e muitas vezes desnecessário de uma gama variada de exames, ainda tem que se humilhar perante a polícia, promotores, juízes e aos mercadores da vida e da morte que se apresentam através de seguradoras, planos de saúde, transportadores de pacientes e agentes funerários. No fundo, é a ditadura do maldito capitalismo sobre uma profissão que vê tantos a lhe desrespeitar, tantos a lhe corromper, tantos a lhe amaldiçoar, por tais razões tornando-se anestesiada e amorfa dentro de uma sociedade humana apodrecida.
Nos últimos três anos, tenho exercido com pouquíssima intensidade este meu lado profissional. No entanto, no dia 18 de outubro, como há muitos anos acontece, recebi manifestação de apreço e carinho pelo Dia do Médico, por parte das irmãs-empresárias, Dercília, Deucimira e Delma, da ‘Porta do Sol’ e da ‘Status Moda’, atitude que sempre me comove, me honra e me trouxe a estas reflexões. Muito obrigado pela lembrança e reconhecimento de vocês.

[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)