“SE HITLER NÃO EXTERMINOU JUDEUS NEM A IGREJA OS HEREGES, NÃO HOUVE A DITADURA BRASILEIRA DE 1964/85”

Publicado em 29/03/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

“SE HITLER NÃO EXTERMINOU JUDEUS NEM A IGREJA OS HEREGES, NÃO HOUVE A DITADURA BRASILEIRA DE 1964/85”

Premissas horrorosamente falsas, mas há quem as defenda ou as defendeu. Por períodos mais longos ou mais curtos são irrefutáveis os registros históricos de suas existências. O tratamento humano indigno e cruel marcaram tais épocas embora sejam elas pequenas amostras das pegadas humanas na face da Terra. Certamente que a crueldade com os semelhantes esteja presente na maior parte da história da humanidade. Conflitos localizados e amplos marcam a marcha da nossa civilização, destacando-se os milhões de mortos em cada uma das duas grandes guerras mundiais. Nem podemos omitir o genocídio da maioria étnica dos hutus sobre a minoria tutsis, em Ruanda, em 1994, com uma estimativa de 800.000 mortos e a total omissão das potências ocidentais, por falta de maiores interesses geopolíticos e econômicos. Desde as mais remotas épocas são revoltantes e abomináveis os sofrimentos decorrentes da escravidão. A começar pelos hebreus no Egito e na Babilônia conforme relatos bíblicos. Ou do legendário Spártaco, mostrado por Hollywood, que liderou escravos sublevados na antiga Roma, enfrentando as legiões romanas no primeiro século antes de Cristo. Da escravidão e do genocídio dos indígenas para satisfazer a sanha colonizadora de espanhóis e portugueses aqui na nossa América. E o que dizer dos negros arrancados das suas tribos e etnias no continente africano para serem submetidos ao banzo, à exploração e à tortura pelos prepotentes brancos das Américas?

Primeiramente, tratemos da narrativa da Inquisição, que principia pelos idos do século XII, conforme a Grande Enciclopédia Delta Larousse, 1973, onde lê-se: “A multiplicação das heresias populares a partir do século XII levou os papas a combatê-las. O Papa Inocêncio III aplicou o processo inquisitório contra os albigensis e cátaros, que viviam nas imediações de Albi, sul da França, adeptos de seitas que contrapunham ao matrimônio”. Também aos valdenses, das regiões da Lombardia, Piemonte e Alsácia e suas vizinhanças francesa e alemã, dissidentes do cristianismo e insubmissos ao papado. Ela chega à Espanha e Portugal entre os séculos XV e XVI, na caça aos judeus. Ainda, de acordo com esta enciclopédia, a Inquisição também abrangeu outros países e outros hereges que discordavam da fé católica, além dos praticantes de magias, bruxarias e alquimias. Somente em Portugal, na Torre do Tombo foram localizados 36.000 processos judiciais inquisitórios. Em 350 anos de Inquisição em terras lusitanas, inclusive nas comissões de visitação ao Brasil, há cálculos de 35.000 condenados dos quais 15.000 à morte. ao degredo ou prisões temporárias ou perpétuas, sendo o processo refreado ao final do século XVIII. 

Extraiamos breves trechos da publicação “Inquisição”, contida no “site” da Editora Cleofas, de 11-Fev-2010, da autoria de Felipe Aquino,  engenheiro e professor de História da Igreja do “Instituto Bento XVI”, da Diocese de Lorena e da Canção Nova, além de Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, comenda concedida pelo Papa Bento XVI em 2012. “Uma das acusações que sem cessar se levantam contra a Igreja Católica é a de ter terrorizado os povos cristãos pela ‘sinistra instituição da Inquisição’. As insinuações proliferam em meio de uma ignorância histórica quase completa. Sem conhecimento de causa, fala-se de inocentes perseguidos, prisões, torturas e fogueiras. [...] Muitas vezes até é ignorado o fato de ter sido a Inquisição um tribunal, e é este o caráter que lhe dá grande impopularidade. Qualquer tribunal de justiça é odiado pelos criminosos [...] A aversão contra o espectro sinistro do tribunal da fé é tão geral que os próprios católicos, fiéis a sua Igreja, dela participam, influenciados por uma constante propaganda maliciosamente tendenciosa. [...] Sabemos que o Islamismo, fiel às doutrinas de Maomé, considera da sua essência submeter todo o mundo a ferro e fogo. [...] Na sua disciplina a Igreja se adapta às circunstâncias do lugar e do tempo. [...] ‘Para compreender a Inquisição é preciso formar-se uma alma ancestral’, segundo o Dictionaire de Théologie Catholique. [...] A Inquisição deve ser considerada como o resultado da unificação de duas instituições, uma eclesiástica e outra civil [...] A Inquisição constituiu-se pela reunião do tribunal do Santo Ofício com o tribunal civil”.

Em 15 de junho de 2004, o Papa João Paulo II pediu perdão pelos males da Inquisição durante entrevista coletiva convocada para o lançamento do livro “A Inquisição”, fruto de um simpósio internacional convocado em 1998, contendo 800 páginas. Não pesquisamos o conteúdo dessa entrevista. Ele deve ter demonstrado mais humildade e arrependimento do que a publicação acima do Prof. Felipe Aquino.

Um segundo viés deste artigo vem explorar um posicionamento repetitivo e incisivo do anterior presidente da República Islâmica do Irã, um país muçulmano e não-árabe, sucessor do grandioso Império Persa, Mahmoud Ahmadinejad, que o governou de 2005/11, desenvolvendo um programa nuclear combatido pelo ocidente. Como inimigo mortal do Estado de Israel, ele negava que o Holocausto tenha acontecido, atribuindo o fato como propaganda em prol do país judeu, causando fúria nos israelenses. Vimos que, depois de tantos séculos, a Inquisição ainda encontra quem queira amenizá-la, não negá-la. No entanto, ignorar a existência do extermínio de cerca de seis milhões de judeus por parte do regime nazista da Alemanha de Adolf Hitler suplanta qualquer heresia. Na realidade, as instalações dos campos de concentração, a visível caquexia de seus ocupantes, as valas comuns de cadáveres ou ossadas, os depoimentos de prisioneiros sobreviventes ou dos fugitivos, por si só bradam por um repúdio mundial em uníssono e permanente.

Hitler entrou para a política em 1919, justamente no ano do Tratado de Versalhes, que impôs sanções e humilhações à Alemanha, que acabara de ser derrotada na 1ª Guerra Mundial. Abrigou-se no Partido dos Trabalhadores Alemães, ao qual, no ano seguinte, ampliou a denominação para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Todavia, socialismo para Hitler era a ciência da prosperidade coletiva e nada tinha a ver com o marxismo em voga na época. Campeava a hiperinflação na Alemanha (aprendi o que era isso aos 11 anos de idade, lendo um livro de propriedade do meu saudoso avô, Antonio Bueno de Almeida, em Monte Belo-MG, de autoria de um escritor judeu-austríaco, Stefan Zweig, que veio viver e morreu no Brasil, cuja frase bem entendi e nunca esqueci: o dinheiro se desvalorizou tanto na Alemanha, depois da guerra, que, o que então valia uma janela significava o valor da casa toda antes da guerra). Foi a humilhação, a inflação, o desemprego e os efeitos da Grande Depressão de 1929, que impulsionaram as ideias de Hitler, levando-o logo ao Poder. Ele pregava o antissemitismo, o anticomunismo, o antimarxismo, o nacionalismo e o racialismo ou a eugenia - a ideia da raça pura. Segundo publicação da revista Super Interessante, de 30-6-2005, em decorrência da eugenia originou-se o extermínio nazista dos “imprestáveis” deficientes físicos e mentais, dos negros, dos ciganos, dos homossexuais e, sobretudo, da estimativa de seis milhões de judeus, em consonância com a ideia de que era uma “medida sanitária”, principalmente os judeus, considerados conspiradores decididos a dominar a humanidade e repelidos pela Igreja Católica desde o ano de 325 por serem culpados pela morte de Jesus Cristo, culpa esta somente retirada em 1965.

O mundo conturbado de hoje anda muito susceptível ao aniquilamento das ideias, o que é pior ao aniquilamento das pessoas. O descrédito com os políticos tem sido um fenômeno mundial, agravado por fatores como os refugiados, os migrantes e o consequente desemprego. No Brasil, a corrupção potencializou esse descrédito, guindando o Capitão Jair Messias Bolsonaro à Presidência da República, muito mais pela honorabilidade creditada à instituição Forças Armadas. Nesse contexto, o eleitorado engrossou os parlamentos, até os governos estaduais, com militantes dessas três armas, de policiais civis e militares, na expectativa de moralização, tranquilidade e desenvolvimento. Entretanto, o Presidente, tem colocado em risco a nossa tradicional convivência internacional, de respeito à autodeterminação dos povos, preocupando-se em demasia com atual fechamento do regime venezuelano, de parcerias duvidosas com Israel, em detrimento do bom comércio com os inimigos desse país, como os árabes e mesmo o Irã, aos quais vendemos carnes e até milho. Viagens bajulatórias aos Estados Unidos e a Israel podem pesar nas nossas relações comerciais com as partes do mundo já citadas, até com a China, embora o ministro da Economia, Paulo Guedes, tenha declarado em TV, que o Presidente ama a América (USA), mas pede para deixá-lo livre para comercializar com quem possa nos interessar. Mas, sem trocadilho, o presidente Jair Messias Bolsonaro tem se postado de maneira messiânica, nessa busca de alinhamentos ideológicos pouco frutíferos, de salvador da Venezuela e de recitador da Bíblia, que pode até ser interpretado como blasfemo em seus tons de advertência. Existe coerência e autoridade para Bolsonaro falar em “libertar a Venezuela da ditadura” se, durante 30 anos como deputado negou e defendeu a ditadura civil-militar, que esteve implantada no Brasil de 1964/1985? Um dos seus ídolos, como manifestou no voto aberto do golpe parlamentar-judicial contra Dilma Rousseff foi em homenagem a um notório e violento torturador daquela época,  o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Porém, a investidura no mais elevado cargo da República não tolheu seus arroubos e tendências, pois, nesta semana determinou ao Ministério da Defesa que ordene a celebrações pelo transcurso do dia 31 de março, data em que se deu o golpe de 1964 contra o presidente João Goulart. Segundo seu porta-voz, General Rêgo Barros, Bolsonaro assim o fez pelo entendimento que não houve o referido golpe, mas, sim, uma conjunção de ideias e ações dos militares e sociedade civil para barrar os rumos de um governo que poderia até hoje provocar consequencias danosas ao Brasil. Não esqueçamos que na Inquisição e na Alemanha, governantes, religiosos e setores civis também estiveram de mãos dadas em momentos condenáveis.

Pela Inquisição, o Papa Bento XVI, deplorou indiretamente as atrocidades e, por elas, seu antecessor, o Papa João Paulo II pediu perdão em nome da Igreja Católica. Na Alemanha, segundo a DW Brasil (Deutsche Welle = Onda Alemã), neste 26 de março, através de matéria da repórter Karina Gomes, intitulada “Por que a Alemanha não esquece o seu passado”, ela detalha que: “Por meio de museus, memoriais, disciplina nas escolas, filmes e livros, a Alemanha formou uma memória cultural sobre as atrocidades do passado, sobretudo contra os judeus, para garantir que as presentes e futuras gerações não permitam que esses erros históricos se repitam. Meu namorado, alemão, aprendeu exaustivamente, por seis anos, sobre o regime nazista nas disciplinas de História, Política e Geografia. Os alunos não são poupados de ver cenas reais de documentários mostrando a fumaça saindo das câmaras de gás, onde milhões de judeus foram mortos e nem de ver os corpos sendo arrastados por tratores nos campos de concentração até as valas. Os alunos também são informados sobre o assassinato de negros, ciganos e homossexuais durante o regime nazista”.

O atual governo brasileiro, através das suas principais lideranças, precisa cultivar valores democráticos e virar as páginas sombrias de um período que, por certo, gerou inconformismo e tristeza de ambos os lados, reconhecido pela História como ditatorial. Faz anos que acabou. Graça e Paz!


 *Marco Regis de Almeida Lima é médico, 

foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) 

e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2203)