RÉQUIEM POR MARISA LETÍCIA LULA DA SILVA

Publicado em 24/02/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

RÉQUIEM POR MARISA LETÍCIA LULA DA SILVA

(LIBERAÇÃO DE ALGUMA FRUSTRAÇÃO DEVE SER A ORIGEM DA COMEMORAÇÃO DA MORTE DE ALGUÉM QUE NÃO SE GOSTA)

Neste meu retorno à coluna que escrevo para este retumbante semanário, não só pelos generosos convites do seu editor e fundador, mas, também pelo clamor de alguns de meus fiéis leitores, devo justificar tão longa ausência devida, em parte, aos meus impedimentos em face às eleições do ano passado e, noutra parte, pela desmotivação que a mim causou a consumação do golpe de estado parlamentar, que arrancou da presidência do nosso País a primeira mulher a ela galgar e democraticamente eleita.
Eu que passara pelo trauma do golpe militar de 1964, vi tudo se repetir: àquela época com o apoio decisivo dos quartéis e com a cúpula conservadora da religião dominante; agora com o ardil de uma classe política desacreditada e as bênçãos de um judiciário pouco confiável. Naquela época, em que as pessoas tinham ideais políticos bem mais sólidos e crenças religiosas mais arraigadas, o povo estava dividido entre a derrubada e o apoio a Jango Goulart, razão pela qual foi decisiva a intervenção da maioria das forças armadas, que era bastante submissa à doutrina norteamericana, no auge da Guerra Fria. No contexto da atualidade, o governo se viu fragilizado pelo envolvimento de muitos de seus importantes líderes num abominável esquema de corrupção na Petrobrás, exposto à exaustão pela nossa não menos corrupta mídia empresarial – que num passado, nem tanto distante, silenciou e acobertou algo tão nefasto e vergonhoso para o Brasil, que foram as privatizações do governo Fernando Henrique. Fique claro, do governo dele e NÃO dele, conhecidas e denunciadas em publicações alternativas e livros como Privataria Tucana. Agora, com a universalidade e instantaneidade da internet, com o auxílio dessa mesma imprensa empresarial e com os protestos de rua, que se transformaram em grandes concentrações populares, deputados federais e senadores, que influenciam e dominam o Congresso Nacional, deixam a base de sustentação ao governo petista e se unem à oposição do PSDB, Democratas e ex-falsos comunistas do PPS, isolando o Partido dos Trabalhadores e aplicando um golpe “com base na Constituição”. Com isso satisfazem e ficam bem com uma parcela da população inconformada com a derrota nas urnas e com falsos pruridos de honestidade. Pouco importava a todos se lá atrás parte desses paladinos da democracia tenham participado de roubalheiras como a ‘máfia das sanguessugas’, dos ‘anões do orçamento’ ou da ‘privataria tucana’. Importava, sim, execrar Lula e o petismo, mesmo que, para isso, tenha custado empurrar o Brasil para um abismo maior, que foi o tempo em que ficamos desgovernados à mercê da discussão e da concretização do ‘impeachment’de Dilma Roussef.
Afirmei antes, que houve uma quadra da vida brasileira, que também foi mundial, na qual o lado político fazia parte das pessoas. A esta constatação chegamos eu e meu amigo Carlos Coimbra, ainda esta semana. Ele que é dentista, foi vereador e secretário municipal de meio ambiente, ponderou que nossa infância transcorreu sem a televisão e sem os computadores, sendo o rádio a nossa fonte de comunicação e de diversão. Por isso, talvez lêssemos mais jornais e livros. Líamos muito acerca de história e política. Ao contrário da juventude de hoje, que engole as manipulações da TV e perde tempo com futilidades na rede mundial de computadores, ou, o que é pior, que multiplica boatos e mesquinharias de gente despreparada, que ganhou voz e tenta se impor nas redes sociais. A globalização, que o bilionário e poderoso Donald Trump critica, devastou valores humanos, colocando em primeiro lugar o dinheiro e estimulando o consumismo.
Tantas transformações e tantas influências desta vida moderna fizeram de nós uma gente agressiva, com comportamentos primitivos. Já foi o tempo em que o povo brasileiro era tido por si mesmo e em outras partes do mundo como um povo alegre, com futebol e samba no pé.
Decorrem disso os deploráveis, lamentáveis e desumanos posicionamentos das pessoas por ocasião da enfermidade e morte da mulher do ex-presidente Lula, Marisa Letícia. As principais e mais repulsivas manifestações tiveram origem em gente que deveria zelar e ter ética profissional, como médicos e enfermeiras do hospital aonde ela foi tratada de um rompimento de aneurisma cerebral. O blog Pragmatismo Político, de 2-2-2017, transcreve postagens da médica Gabriela Munhoz, reumatologista do Hospital Sírio-Libanês, da capital paulista, dos médicos Michael Hennich, urologista, e Richam Faissal Ellakis, neurocirurgião, citando reportagem publicada no jornal ‘O Globo’, da mesma data. Também este articulista viu matérias idênticas publicadas em jornais televisivos da Rede Globo e SBT, onde tais postagens foram ao ar. Esse mesmo blog revela que médicos da comunidade ‘Dignidade Médica’, grupo fechado de profissionais no Facebook celebraram a notícia da morte cerebral de Marisa Letícia Lula da Silva. Segundo tais matérias, a médica em questão bisbilhotou o prontuário da paciente e lançou as informações no Whats App. Pior foi o neurocirurgião que ficou contrariado com o procedimento feito pelos médicos assistentes de Marisa Letícia e postou: “Esses f.d.p. vão embolizar ainda por cima. Têm de romper o procedimento. Daí já abre a pupila. E o capeta abraça ela”. Como todos nós temos legislação, estatutos e regimentos a serem cumpridos, dois desses médicos foram justamente demitidos do Hospital Sírio Libanês e todos os envolvidos vão ter que se explicar junto a Conselhos de Medicina.
Na esteira disso, houve as mais absurdas e controversas postagens. Indignas e desumanas. Inclusive de pessoas com doutoramento aqui em Muzambinho. Mais ou menos as mesmas que se regozijaram com a morte de Fidel Castro. A diferença foi ter sido ela uma mulher de origem muito humilde, que aos 9 anos já trabalhava como babá. O marido dela foi assassinado durante um assalto. Viúva veio a conhecer outro viúvo, o sindicalista Lula, com quem foi casada durante 40 anos e tiveram filhos, participando de suas lutas sindicais e políticas. Do Presidente da República foi uma primeira-dama discreta e, quando deu entrevistas, soube se pronunciar com propriedade. Acusá-la de conivência com malfeitos e vida nababesca, somente na cabeça de gente frustrada e irresponsável, que se acovardaria nos momentos difíceis por ela vividos. Citei Fidel Castro, porque no caso dele era um ódio crônico produzido pelo seu governo ditatorial. O ridículo na comemoração da sua morte foi não terem percebido que ele viveu nos limites humanos, ou seja, morreu aos 90 anos de idade. Não deu gosto para que os governos americanos o matassem como tentaram dezenas de vezes. Nem deu gosto que o derrubassem do poder. A diferença foi que para ele era matar ou morrer e, então, mandou exterminar os seus inimigos, ou prendê-los. Assim governou Cuba por mais de 50 anos. Mas Lula e Marisa Letícia se submeteram aos ditames da democracia. Por essa razão, não puderam fuzilar os inimigos e os seus detratores invejosos. Pessoalmente, tive dois inimigos e nas horas de raiva falava que comemoraria a morte deles. Mas, em ambos os casos, purifiquei o meu coração cristão e vim a apertar as mãos deles, consagrando o gesto do perdão.
Como eu, tanta gente se revoltou contra os achincalhadores de Marisa Letícia no seu leito de morte. Quero terminar transcrevendo apenas um trechinho, para muito não me alongar, da jornalista mineira Tereza Cruvinel, hoje blogueira do Brasil 247, que trabalhou no ‘Jornal do Brasil’ (Rio), ‘Correio Braziliense’(DF) e por 24 anos no jornal ‘O Globo’(Rio), sendo que 21 anos escrevendo a coluna ‘Panorama Político’, além de comentarista política nos dez primeiros anos da Globonews. Na sua coluna virtual de 26 de janeiro passado, ela faz alusão à guinada do comportamento dos brasileiros como se fora da influência dos deuses da mitologia grega – de Eros, deus do amor, para Thanatos, deus da morte, a qual a psicanálise define como pulsão da vida e pulsão da morte, bem dissertada em trabalho do Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara, em 30-6-2015. No entanto, aqui vamos pinçar trechos objetivos da crônica da famosa jornalista na fonte acima citada. “As moças da porta do Hospital Sírio-Libanês terão tido algum dia algum parente lutando pela vida? Terão visto alguém de suas famílias morrer por falta de bom atendimento médico? Alguma vez protestaram contra tantos políticos internados naquele hospital particular, alguns deles de notória folha-corrida, porém brancos e bem-nascidos? [......] Para além daquelas moçoilas paulistanas que foram à porta do Hospital Sírio-Libanês pedir Lula na cadeia e Marisa no SUS escorreu uma enxurrada de agressões nas redes sociais. [...] Foi de perder a esperança na humanidade”.

*[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).