Quando os humanos se tornam peçonhentos

Publicado em 07/02/2020 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Quando os humanos se tornam peçonhentos

É bom que nos lembremos dos chamados animais peçonhentos. A medida que a vida vai passando, quase resta à maioria das pessoas a simples lembrança de que peçonha é um veneno produzido por certos animais. Na verdade, eles excretam essas substâncias tóxicas ou corrosivas como um meio de defesa, ou mesmo, de sobrevivência. Esse veneno injetado, ou em simples contato com as pessoas, pode ser causa de irritação e dor na pele, até mesmo de intoxicação sistêmica causadora de graves complicações, até de morte. Quem nunca ouviu falar de choque anafilático, ou alérgico, provocado por picadas de abelhas e insetos aparentados? Ou das lesões irritativas e dolorosas decorrentes do contato de nossa pele com as taturanas ou as águas vivas? Ou dos efeitos neurotóxicos de picadas de artrópodes como aranhas e escorpiões? Ou dos distúrbios da coagulação do sangue e da paralisia do funcionamento dos nossos rins causados pelos variados acidentes ofídicos – pelas serpentes? Sem que esqueçamos de arraias marinhas ou peixes peçonhentos.

Após a minha graduação, durante um ano de residência médica em policlínica, no maior hospital público de urgência e emergência da capital mineira, vi exemplos de tudo isso. Jogado na arena da vida, ao longo do exercício da minha carreira profissional, incontáveis vezes tive que tomar decisões, solitariamente, que amenizassem o sofrimento ou o risco de morte das pessoas, adultos ou crianças, vitimadas por acidentes desse tipo, com denominações pomposas como: queimadura química, choque anafilático, aracnidismo, escorpionismo ou ofidismo. Por duas vezes, no mencionado hospital de pronto socorro, com todos os seus recursos e experiência de seus quadros médicos, acompanhei a evolução até a morte de dois garotos entre cinco e dez anos, em períodos diferentes, picados pelos mortíferos escorpiões amarelos da região belorizontina, pois, socorridos tardiamente não se livraram das complicações cardiocirculatórias e do edema pulmonar agudo, secundárias à neurotoxicidade.

Eu mesmo sou um sobrevivente de escorpionismo. Quando criança, ainda usando as calças curtas da época, que hoje deram lugar a adequadas bermudas, fui picado por um deles. Foi num dia de meu aniversário. Ao acordar pela manhã, percebi que a minha calça havia caído ao chão dos pés da minha cama. Peguei-a e me vesti, logo sentindo forte dor na região interna da minha coxa direita. Ainda bem que era uma calça curta, fácil de retirada, que continha dentro um escorpião. Meu pai era ferroviário e morávamos no prédio principal da estação, a uma distância de 20 km da paulista Campinas. Ainda era um tempo de muita desinformação e atraso sanitário. Nesse contexto, meu pai, que era um autodidata com escolaridade primária, se julgava um entendido em primeiros socorros e fitoterapia, andou me aplicando arnica e permanganato de potássio no local da picada. Lembro-me muito bem de passar quase que o dia todo com o meu membro inferior direito totalmente anestesiado. Eu me expressava que a perna estava tão pesada como que eu estivesse carregando nela “um grande peso de chumbo”. Depois que adquiri um suficiente aprendizado profissional, fiquei a imaginar que não morri no dia do meu nono ou décimo aniversário, porque Deus tinha um propósito para aquele menino quase que roceiro, da estação rural de Tanquinho, da Cia. Mogiana de Estradas de Ferro. Suponho que o escorpião possa ter gasto parte da sua toxina com alguma barata, sua presa preferida, em sua andança noturna. Ou, então, que os escorpiões paulistas daquela região fossem de uma espécie menos letal – Tityus bahiensis, o amarronzado/preto – mais comuns no sul do Brasil, ao contrário daqueles que mataram os garotos das cercanias de Belo Horizonte – Tityus serrulatus, o amarelo – mais encontradiços no sudeste, nordeste e centro-oeste brasileiros.

Não cabe aqui falar em tratamento, por óbvias razões. Entretanto, muitos dos leitores poderão estar curiosos nesse sentido. Então, passo apenas a fazer citações superficiais. No caso de lesões da pele, dependendo do agente causador, lava-se o local com algum líquido adequado e faz-se infiltrações com anestésicos locais. No caso de abelhas, aranhas e escorpiões, o alívio da dor local se faz com o mesmo tipo de infiltrações. Manifestações alérgicas são combatidas com injeções de prometazina e corticoides. Ataques de escorpiões, certas espécies de aranha e cobras são tratados com soros específicos, dependendo da avaliação de sua gravidade.

Conforme o título deste artigo, estou aqui incluindo a peçonha humana, facilmente encontrada nas redes sociais para todo e qualquer assunto. Quero me ater ao sectarismo de setores do atual governo brasileiro e de seus adeptos. O veneno que espalham ao vento são surpreendentes, mentirosos e desavergonhados, inundando as redes sociais, certamente expedidos por ágeis robôs e contando com os compartilhamentos céleres do seu quadro de fanáticos. Vou dar exemplos.  (1) Encontrei uma postagem que criminaliza a esquerda como cúmplice do recente assassinato de marido, mulher e filho, em Santo André / São Bernardo do Campo-SP, porque dentre os suspeitos há um casal de lésbicas, sendo uma delas, filha e irmã das vítimas. A homossexualidade é a alegação irracional e absurda, porque atribuída como incentivada pela esquerda. Mas, eu retruco com o caso da filha dos Von Richtophen, na Capital paulista, que era heterossexual e junto com o namorado também assassinou seus pais.    (2)  Em outra situação, um militante extremado de direita, que defende a tortura, a volta de um governo militar ditatorial, invoca e detona os “petralhas” como responsáveis pela fila de quase dois milhões de segurados do INSS à espera de solução para seus benefícios. “Querem que se resolva esta situação em um ano, que ‘eles’ não resolveram em 16 anos”. Vejam quantas contradições e argumentos descabidos. A fila na busca de aposentadorias e outros benefícios do INSS se formou e se agravou nos dois anos do Governo Usurpador de Michel Temer e, neste, de Jair Bolsonaro, em decorrência das incursões, discussões e aprovação da Nova Previdência, que provocaram uma “corrida às aposentadorias”, tanto na população em geral como dentro do próprio Governo, que teve perda de funcionários no quadro de servidores do INSS. A leviandade é tamanha que falam em 16 anos de governos petistas, sendo que o 2º mandato da Presidente Dilma Rousseff praticamente não existiu, pois a combateram e a sabotaram desde o 26 de outubro de 2014, dia em que foi confirmada a sua reeleição em 2º turno. Portanto, no máximo 13 anos de governos do PT.

Os exemplos das distorções e do destempero político sob os quais vivemos são às pencas. É gente “se achando” e fazendo abaixo-assinados virtuais para aplicação de “impeachment” em Ministros do Supremo Tribunal Federal, no Presidente da Câmara dos Deputados e no do Senado Federal, tudo inócuo e impossível. É o Presidente Bolsonaro condenando a mesma imprensa que perseguiu o PT e deu o Golpe em Dilma Rousseff. É o Presidente Bolsonaro e certos Ministros falando em “ameaça socialista” que não houve no período petista. Se assim ele pensa das ações ideológicas legítimas e democráticas que nortearam aqueles governos, ele age da mesma forma buscando implantar as suas diretrizes de “viés ideológico” direitista. Enquanto esses embates acontecerem no campo democrático farão parte do jogo. Ditadura Nunca Mais.   


*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)