OS VÍNCULOS DE MUZAMBINHO COM CARLOS LUZ E O GOLPE DO GOLPE DE 11 DE NOVEMBRO DE 1955

Publicado em 07/04/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

OS VÍNCULOS DE MUZAMBINHO COM CARLOS LUZ E O GOLPE DO GOLPE DE 11 DE NOVEMBRO DE 1955

Para melhor interesse e compreensão deste artigo, de conteúdo da História do Brasil, nada mais apropriado que extraiamos da Wikipédia a biografia do advogado, professor, jornalista e político brasileiro, Carlos Luz, que ocupou interinamente a Presidência da República do Brasil, de 8 a 11 de novembro de 1955, no mais curto período dentro de um definitivo processo sucessório brasileiro, época em que o País ainda era oficialmente denominado de Estados Unidos do Brasil.
Carlos Coimbra da Luz nasceu em Três Corações-MG, em 4-8-1894, e morreu no Rio de Janeiro, em 9-2-1961, aos 66 anos. Era neto materno do Coronel Cesário Cecílio de Assis Coimbra, que veio para Muzambinho quando o povoado ainda se chamava São José da Boa Vista e, mais tarde, eleito vereador, e primeiro presidente da Câmara Municipal de Muzambinho, em 9-1-1881, cargo que acumulava a função de Agente Executivo Municipal, ora equivalente a Prefeito. Seu pai, Alberto Gomes Ribeiro da Luz, Juiz de Direito e Desembargador, foi casado com uma das filhas do Coronel Cesário C.A. Coimbra, Augusta Cesarina. É interessante se ressaltar que outros dois tios de Carlos Luz, todos oriundos da região do Circuito das Águas de Minas ( Campanha e Baependi) se casaram em Muzambinho com filhas do Coronel Cesário Coimbra, sendo outro deles o Dr .Américo Gomes Ribeiro da Luz (com Hortência Cesarina), médico, vereador e agente executivo de Muzambinho (1884/86), abolicionista, deputado provincial, de 1889/90, e federal, de 1891/93, idealizador da Estrada de Ferro Muzambinho. Dá ele nome à nossa mais antiga e principal avenida – a Av. Dr. Américo Luz.
Parentes próximos e contemporâneos de Carlos Luz em Muzambinho foram os irmãos médicos Fábio (casado com a farmacêutica e filantropa Dona Josefina) e o Coronel-Médico da Polícia Militar-MG, Ismael de Oliveira Coimbra (casado com a sra.Yone Prado Coimbra) ). Permanecem residindo nesta cidade os descendentes de Dr.Ismael e Dna.Yone, a saber: Profa.Maria Antonieta Coimbra Campedelli, que foi vereadora na legislatura 1989/92, inclusive presidente da Câmara Municipal no segundo biênio do mandato; Dr. Carlos Prado Coimbra, dentista, ambientalista e vereador à Câmara Municipal de Muzambinho entre 2001/04 e dois de seus três filhos, Dr.Thiago Bezerra Coimbra, advogado e presidente da ONG ‘Verde Gaia’ e Fabinho Coimbra, produtor rural e adestrador de cães; além da família do respeitável médico muzambinhense, Dr. Camilo Márcio Prado Coimbra, falecido há pouco mais de um ano, sendo Raquel de Assis Pereira Coimbra, sua viúva, e um dos filhos do casal, Mateus, empresário e exímio organizador de eventos artísticos e sociais na localidade.
Contam o Dr. Carlos e Dr. Thiago a respeito dos embaraços familiares advindos com o posicionamento político do Deputado Federal Carlos Luz no período que antecedeu e se seguiu à sua efêmera e turbulenta passagem pela Presidência da República, em 1955. Político de escol do PSD muzambinhense (Partido Social Democrático), o mesmo a que era filiado o Deputado, seu primo Dr. Ismael Coimbra mantinha uma acirrada rivalidade no município com os componentes da UDN (União Democrática Nacional), agremiações partidárias que carregaram fanatismo e paixões em todo o território nacional, após o fim da Ditadura Vargas, 1946, e o início da Ditadura Militar, em 1964. Era habitual que em muitas das cidades brasileiras essas correntes políticas recebessem denominações populares. Em Muzambinho, respectivamente, eram “picapaus” versus “tucanos”, inclusive cada uma dispondo de sedes diferentes para seus clubes sociais, no caso o “Automóvel Clube” e o “Clube Recreativo Muzambinho”, ambas hoje em disputas judiciais pela sua posse. Outro partido era o catalizador da massa trabalhadora e seus sindicatos – o PTB, Partido Trabalhista Brasileiro, com figuras expressivas como Getúlio Vargas, João ‘Jango’ Goulart, Leonel Brizola e o mineiro San Thiago Dantas. Considerado um partido político de força regional ainda havia o PSP (Partido Social Progressista) pelo qual seu líder, Ademar de Barros, elegeu-se governador de São Paulo e foi candidato a Presidente da República. Todos eles, junto com o PSB, PRP, PST, PTN, PL e outros nanicos foram extintos por ato de força da Ditadura Militar de 1964, num desserviço à democracia, porque a população estava bem organizada em torno deles. Em substituição a essa organização partidária foram criados de cima para baixo a ARENA (Aliança Renovadora Nacional, de Situação) e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro, de Oposição), num falso bipartidarismo, pois cada um deles foi autorizado a funcionar com até três sublegendas, uma maneira do militarismo conquistar apoio nos municípios, abrigando sob o mesmo guarda-chuva correntes tipo “picapaus” e “tucanos”, porque quase todos buscavam ficar com o Poder Central e a maioria do povo, dos políticos, de empresários e a nossa grande imprensa hipócrita, todos apoiavam a ditadura.
Pois bem, o embaraço político dos Coimbras, em Muzambinho, deu-se em razão de Carlos Luz se tornar um dissidente de seu partido – o PSD – opondo-se ao mandato democrático conquistado por Getúlio Vargas, que voltou a governar o País, através de eleições livres de outubro de 1950 até o seu suicídio, em 24 de agosto de 1954. Para os Coimbras de Muzambinho tornou-se constrangimento não mais votar no parente dissidente, bem como recebê-lo como opositor da campanha e do governo de Juscelino Kubitscheck (JK), que foi contemporâneo do Dr. Fabio Coimbra nos tempos de estudante de medicina na Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), não somente colegas, mas amigos. Como todos eles ficariam diante do cenário de “picapaus” x “tucanos”?
Entrementes, enquanto a família Coimbra, em Muzambinho, era fiel ao seu lado político, nos altos patamares da República o racha no PSD levava cada vez mais o Deputado Federal Carlos Coimbra da Luz para os lados da UDN. Em 02-02-1955 ele é eleito Presidente da Câmara dos Deputados. Revela-se contrário à candidatura vitoriosa de JK a Presidente da República, concretizada em outubro de 1955. Getúlio havia se suicidado em agosto de 1954, assumindo seu lugar o Vice-Presidente, o potiguar João Café Filho (PSP). Em 8-NOV-1955 o presidente Café Filho é hospitalizado em decorrência de um mal cardiovascular. JK tinha um mês que ganhara as eleições para a Presidência. Seus ásperos adversários nos meios político-militar – os mesmos que levaram Vargas à morte – tinham vaticinado que ele não venceria para Presidente; caso fosse eleito não tomaria posse; e se fosse empossado seria derrubado do poder. Nesse clima, um membro do Clube Militar, o Coronel Bizarria Mamede, discursou no velório do General Canrobert Pereira da Costa, no Dia de Todos os Santos, 1º-11-1955, utilizando palavreado antes usado pelo próprio morto, inclusive insistindo que os 36% dos votos obtidos pela chapa Juscelino-Jango (PSD/PTB) não daria0020 legitimidade para o novo governo, pregando um segundo turno ou anulação do pleito, situação não existente na Constituição Federal. A maioria da Aeronáutica e da Marinha comungava dessas posições golpistas, mas, no Exército havia maior comprometimento com a obediência à Carta Magna. Nesse dia 1º, Carlos Luz, Presidente da Câmara dos Deputados, cumprimenta o orador rebelde após o seu discurso. No dia 8, Café Filho adoece e Carlos Luz assume o cargo de Presidente da República, em decorrência de vacância de poder e de linha sucessória.
Uma crise estava instalada porque o Ministro da Guerra, representante do Exército (também havia os ministérios da Aeronáutica e da Marinha) exigira dias antes que Café Filho devolvesse o Cel. Bizarria Mamede para as hostes do Exército. Ele estava cedido à Escola Superior de Guerra (ESG) havia três anos. O intuito não declarado pelo Ministro Henrique Duffles Teixeira Lott era puni-lo pelo discurso contra a posse de Kubitscheck, posse da qual Lott era leal fiador.
Carlos Luz assume a chefia de uma nação dividida no dia 8. Simpático aos contrários à posse, inteligente e astuto ele solicita pareceres à ESG, que informa ser final de ano letivo, sendo necessária a permanência do instrutor, Cel. Mamede. Estando a ESG subordinada hierárquicamente ao Estado Maior das Forças Armadas (EMFA) para ali foi a nova consulta, que acata o pedido de permanência, pois no EMFA havia equilíbrio entre os três ministérios militares, não podendo o da Guerra sobrepor aos demais. Obtido isso, Carlos Luz pede um parecer do Consultor-Geral da República, que vai no mesmo embalo. Com isso Lott sente-se desautorizado e pede sua renúncia do Ministério da Guerra. Sabendo disso pelo próprio Lott, no dia 10, o Presidente Carlos Luz convida um general da reserva, muito influente, para substituir Lott, em cerimônia a acontecer na tarde do dia 11. Este ainda não entregara o cargo. Passá-lo-ia na solenidade de posse no Ministério. Lott e seus fiéis companheiros filtram que nesses rumos haveria um golpe para impedir a posse de Kubitscheck. Então antecipam um contragolpe, ou um golpe preventivo, ou o golpe do golpe. Nessa mesma noite, do dia 10 para o dia 11, os quartéis são mobilizados. Carlos Luz e oficiais da Marinha, mais seus ministros, prevendo essa ação, embarcam no Cruzador “Tamandaré”, ainda nessa noite, com o objetivo de chegarem a São Paulo, no porto de Santos, onde teriam recebido promessa de apoio do Governador Jânio Quadros. Ocorre que do Forte de Copacabana e do Forte de Duque de Caxias o Exército disparou tiros de canhão contra o navio-de-guerra, que estava sob o comando do Almirante Pena Boto e do Capitão-de-Mar-e-Guerra, Silvio Heck. Segundo Carlos Luz, foram disparados doze tiros de canhão contra o Cruzador “Tamandaré”. Nenhum acertou em cheio o navio, passaram por cima ou caíram pelos lados. Carlos Luz afirma que deu ordens para que a embarcação não revidasse, porque poderia fazer muitas vítimas civis em terra, enfatizando que o poder de fogo do Cruzador “Tamandaré” era superior ao das fortalezas. Pelo rádio receberam informações de que também o porto de Santos estava tomado pelo Exército e, assim País afora. Mais tarde, outro rádio dava conta que a Câmara dos Deputados e o Senado votaram o “impeachment” de Carlos Luz, dando posse ao novo presidente, que, pela linha sucessória era o senador catarinense Nereu Ramos, então Vice-Presidente do Senado Federal, agora o novo Presidente do Brasil.
O presente artigo é fruto de depoimentos pessoais de familiares de Carlos Coimbra da Luz, residentes em Muzambinho, da Wikipédia, de trechos de jornais da época. Mas, essencialmente, é o sentimento do próprio Carlos Luz, contido num opúsculo de 77 páginas, editado como Documentos Políticos III, intitulado “Em Defesa da Constituição”, editado por Organização Simões, Rio de Janeiro, 1956. Na verdade, ele é a íntegra do discurso proferido pelo Deputado Federal Carlos Luz (PSD/MG) na tribuna da Câmara dos Deputados, na Capital Federal, quando ainda sediada no Rio de Janeiro e três dias depois dele ter sofrido o “impeachment” presidencial. Para gente como eu, que vivia o início da adolescência, mas antenado nos acontecimentos nacionais e internacionais, através do rádio, dos jornais, e do círculo de conversas sérias entre as pessoas (não do besteirol das redes sociais de hoje), lendo e relendo o longo discurso de Carlos Luz, formo a minha opinião de que o 11 de Novembro de 1955 foi um dia de homens correndo da própria sombra. O General Lott difundiu que um golpe contra a posse de JK estava em andamento. O Presidente Carlos Luz, nosso 19º Presidente, que governou o Brasil na velocidade da luz, na sua fuga marítima concluiu que sofreu um golpe de estado, pois ajudava o Brasil numa travessia tão perigosa como a sua. Cada um vai crer em uma das versões. Mas, o final que precisa ser recontado é que Café Filho se restabeleceu, quis voltar, mas, também levou um “impeachment” dias depois, em 21 de novembro e os brasileiros viveram sob estado de sítio desta época conturbada até a posse de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, a quem fizeram covardias e perseguições, mas que sempre manteve o sorriso nos lábios, a paz no coração e a determinação pelo trabalho.

[email protected] - Marco Regis é médico,
foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08)
e deputado estadual-MG (1994/98; 1999/2003)