Os fantasmas do nazismo parecem se materializar

Publicado em 29/09/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Os fantasmas do nazismo parecem se materializar

Não poderia me omitir quanto à estupefação mundial, inclusive dos gestores da política alemã, a respeito das eleições parlamentares do domingo (24/09) naquele país germânico, quando as urnas confirmaram o que as pesquisas vinham sinalizando: a extrema-direita alemã, no caso a AfD (Alternative für Deutschland, Alternativa para a Alemanha) passa ocupar espaço no parlamento alemão – o Bundestag – pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, ao conquistar 12,6% dos votos, ou 94 assentos.

           Recorro ao meu velho aliado, mas atualizado, Almanaque Abril, e ao jornal virtual DW – Deutsch Welle, Onda Alemã, www.dw.com/pt-br/como-funcionam-as-eleicoes-na-alemanha/a-37636866 - para dar algumas explicações e fazer algumas comparações. A Alemanha possui 82,7 milhões de habitantes (2013), dos quais 61,5 milhões são eleitores, maiores de 18 anos. O voto é facultativo, ou seja, não é obrigatório. No domingo passado, o comparecimento às urnas foi de 76,2%, cerca de 5% a maior do que nas eleições de 2013. Teoricamente, o Parlamento Federal da Alemanha seria composto de 598 deputados, mas no pleito de 2013 foram eleitos 631 deputados e, agora 709, escolhidos no sistema distrital misto, possuindo cada distrito um contingente de 250.000 eleitores, ao todo 299 distritos.  Em cada um deles é eleito um deputado pelo voto direto e majoritário dentre aqueles lançados pelos diversos partidos. O segundo voto do eleitor é dado para um dos partidos – o voto de legenda – os quais apresentam uma lista fechada de candidatos, sendo que o primeiro da lista também é candidato ao cargo de Chanceler ou Primeiro-Ministro, que sai da lista do partido mais votado, o de maior número de cadeiras no Parlamento. Foi o caso da recondução de Angela Merkel para mais quatro anos, que irão significar 16 anos seguidos que ela chefiará de fato esse país, pois seu partido, a CSU, União Social Cristã ao lado do seu meio irmão da Bavária, a CDU, União Democrática Cristã, lideraram os resultados com 33% dos votos, que resultaram em 246 cadeiras, embora isto tenha significado uma queda em relação às 310 obtidas em 2013.

          Ainda me cabe fazer observações: (1) pelo texto do DW, conquistam vagas no Bundestag os partidos que conseguem 5% ou mais dos votos de legenda (nossa já conhecida e debatida cláusula de barreira) ou que permanecem por três mandatos consecutivos naquela Casa; (2) discorre ainda o DW, “O Bundestag tem, via de regra, 598 assentos (deputados), mas esse número costuma variar a cada legislatura. Isso acontece quando um partido elege mais deputados pelo voto direto do que teria direito pelos votos em legenda”; (3) apesar dos 299 distritos, a República Federal da Alemanha possui 16 estados federados e adota o regime parlamentarista, onde o Presidente exerce funções simbólicas e cerimoniais, enquanto o Chefe de Governo, ou Chanceler, escolhido nas eleições legislativas é o verdadeiro formulador das políticas do país; (4) apesar das críticas acerca de existirem no Brasil 513 deputados federais, isto é pouco se comparando com os 709 da Alemanha, que, territorialmente é menor do que Minas Gerais, precisamente do tamanho de Mato Grosso do Sul, e o país bem menos populoso do que o nosso. Sem nos esquecermos de que também lá existem assembléias estaduais.

          Na Alemanha de Adolf Hitler imperou a política da raça pura e a discriminação aos judeus, ciganos, negros e outras minorias. O III Reich, ou III Império, instalou-se em 1933, com a ascensão do Partido Nazista, e evoluiu com todas as peripécias durante a II Guerra Mundial, desencadeada em 1939, com a ampliação do conflito e as consequencias funestas sobejamente conhecidas dos nossos leitores.

          Entretanto, guerras isoladas continuam acontecendo pelo nosso mundo desde o final da grande conflagração mundial. Aqui e acolá desastres naturais. A pobreza e a miséria atingem um grande número de países. Migrantes sempre houve: são aqueles que deixam seus lugares de origem em busca de uma vida melhor. Mais contundente é o problema dos refugiados, que fogem de perseguições políticas, religiosas, dos desastres da natureza, das guerras e da ofensa aos direitos humanos. Tudo isso provoca grandes movimentos migratórios para as nações de maiores estabilidades política e econômica. Temos visto isso, inclusive no Brasil, que recebeu grandes levas de haitianos, de africanos e até de árabes, neste início de milênio. Porém, aos imigrantes são imputados obstáculos como a disseminação de atentados terroristas, atividade que se confunde com os árabes islâmicos, a perda de empregos por parte dos nacionais, diferenças culturais, raciais e religiosas, reacendendo a xenofobia, que é a aversão pelos estrangeiros.

              A barreira aos imigrantes acontece nos Estados Unidos com Donald Trump à frente do país, que faz uma proibição ainda seletiva, isto é, um bloqueio da entrada de pessoas de certos países. Pior na Europa, aonde chegam legiões de refugiados de países árabes do Oriente Médio e do norte da África, ou africanos mais remotos. São amontoados de clandestinos que cruzam mares de maneira suicida até os litorais da Itália, Grécia e Turquia, ansiando chegarem à França, Inglaterra ou Alemanha. Esta é a situação da Europa atual, que vê surgirem movimentos contrários a essa recepção em massa, dando asas à xenofobia, através do crescimento de partidos extremistas como a Frente Nacional, francesa, conduzida por Marine Le Pen ou à surpreendente AfD, do último domingo, na Alemanha, parcela ruidosa e contrária à guarida dada a essa gente por Angela Merkel.

          A chegada repentina de quase uma centena de parlamentares da extrema-direita ao Bundestag, através da AfP, esparramou temor pelo planeta. Nessa facção política não congregam apenas os xenófobos da atualidade, mas os antissemitas do passado e os nacionalistas que desejam as rédeas germânicas da unificação e da reconstrução. Eles sabem que também participaram dessa guinada alemã - da destruição e humilhação na guerra perdida a carro-chefe da União Europeia. Muitos deles estão imbuídos da vontade de fazer ressoar a contestação da propaganda destrutiva feita em cima de certas assertivas de Hitler e seus comandados, uma espécie daquilo que foi dito pelo Marechal Hermann Göring ante o Tribunal de Nuremberg, em 1946, que o condenou à pena de morte: “O vencedor será sempre o juiz e o derrotado o acusado”. Esse tribunal julgou cerca de duas centenas de oficiais nazistas e um juiz de direito do regime, condenando a maioria à morte, outros à prisão perpétua e poucos absolvidos. Depois da guerra, o Estado de Israel empreendeu caçadas intermináveis a outros nazistas por várias partes do mundo. Ficou célebre a ação do Mossad que capturou/sequestrou na Argentina o responsável pela implementação da “solução final” – extermínio nas câmaras de gás –, Adolf Eichmann, levado para Israel e executado. No Brasil, foi encontrada e identificada a ossada do oficial-médico alemão, Josef Mengele, cognominado “o anjo da morte”, célebre por suas experimentações com prisioneiros.

           Tenho vontade de rever o filme de longa metragem e com quase três horas de duração, em preto e branco, dirigido por Stanley Kramer, ‘O Julgamento de Nuremberg’, que vi no Cine São José, de Muzambinho, na minha época de secundarista. Apesar da inevitável propaganda norteamericana, trata-se de uma estupenda obra cinematográfica, estrelada por Spencer Tracy (Juiz), Maximilian Schell (Advogado de Defesa), Richard Widmark (Promotor), Montgomery Clift, Marlene Dietrich, Judy Garland e outros, cujo registro está contido no meu Caderno de Filmes I, que foi moda daqueles tempos – anotação de filmes assistidos com os mais diversos detalhes, numa época em que inexistia televisão, tornando-se uma atividade cultural – por sinal já os emprestei para o amigo e advogado muzambinhense, Antonio João Salvador, para atualização da sua fantástica memória do cinema de outrora.

          Já se fala que uma parlamentar eleita domingo passado pela AfD teria deixado a legenda temendo os excessos e a radicalização de antigos companheiros. Protestos dos acomodados com a Alemanha do pós-guerra eclodiram pelo país. Os fantasmas do nazismo, que ficaram insepultos e imunes aos rituais de exorcismo por mais de 70 anos parecem se materializar fora das sessões espíritas e assustam os seus inimigos.

 *Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]