OS ‘HACKERS’ NA NOVA VERSÃO DO BEM CONTRA O MAL

Publicado em 19/05/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

OS ‘HACKERS’ NA NOVA VERSÃO DO BEM CONTRA O MAL

Recentes ataques cibernéticos a computadores de instituições públicas e privadas de quase 100 países em todo o globo terrestre realçaram a figura do ‘hacker’, palavra que não deve ser pronunciada na língua inglesa como se fossem “dois erres”, pois já nos ensinava o saudoso professor de inglês do então Colégio Estadual de Muzambinho, Sebastião Mariano Franco de Carvalho, recentemente falecido, em Alfenas, tratar-se de “agá expirado”. Numa definição mais simples e, talvez ampla, a Wikipédia define ‘hackers’ como sendo: “necessariamente programadores habilidosos, mas não necessariamente disciplinados, que têm motivações muito variadas, incluindo curiosidade, necessidade profissional, vaidade, espírito competitivo, patriotismo, ativismo ou mesmo o crime”. Claro que existe uma tendência atual de considerá-los unicamente como criminosos invasores de computadores alheios. Porém, nem sempre é bem assim, pois inumeráveis ‘hackers’ foram premiados pelas suas inovações no mundo dos computadores não nos permitindo, a escassez de tempo e de espaço, que embrenhássemos em pesquisa desse porte.
No entanto, não poderíamos omitir ao menos o nome de um deles, o australiano Julian Assange, um dos fundadores do WikiLeaks, que, dentre tantas publicações, difundiu métodos escabrosos praticados por militares norteamericanos no Iraque e no Afeganistão. Assange, que desde adolescente demonstrou habilidade para acessar computadores de terceiros, refuta que seja hoje um ‘hacker’ embora tenha praticado ações desse gênero e, por isso, até tenha sido preso na Austrália. Ele procura demonstrar que difundir pela internet assuntos secretos de países é uma forma de denunciar uma espécie de totalitarismo que eles praticam. Nos últimos anos, ele vive confinado na embaixada do Equador em Londres, uma verdadeira vida de prisioneiro, pois existe um processo de sua extradição para a Suécia, onde foi acusado da prática de abuso sexual, estando o governo inglês vigilante para a sua prisão caso ele ponha os pés fora da embaixada equatoriana. O temor não somente de Julian Assange, mas de organismos de direitos humanos, inclusive da ONU – Organização das Nações Unidas – é que extraditado para a Suécia seja reextraditado para os Estados Unidos da América e vá para a prisão perpétua, tamanha a sanha das autoridades daquele país em capturá-lo.
Não há duvida de que têm sido relatados ciberataques cuja principal finalidade seja a extorsão, onde os pagamentos dos resgates são feitos em moeda virtual muito corrente, que é o ‘bitcoin’. Não sei se propositalmente, em decorrência do mega-ataque cibernético do último final de semana, em uma das madrugadas do mesmo, um dos canais de televisão fechada exibiu um quadro de “emergências médicas” no qual um hospital dos Estados Unidos viu-se envolto numa pane dos computadores, raqueado que fora. Sob a imposição de um pagamento de 30 ‘bitcoins’, tudo ficou paralisado – acesso aos prontuários dos pacientes, comunicação com outros centros hospitalares, incapacidade de realização de exames laboratoriais e por imagem, administração de medicamentos e outros detalhes. Sob expressa ordem da administração hospitalar para que não se negociasse com bandidos, baleados, infectados e cardíacos tinham seus procedimentos retardados, um drama para os emergencistas, que foi contornado pelo restabelecimento do sistema quando, anonimamente, alguém pagou o resgaste em nome das vidas que estavam em jogo.
Se, por um lado, a faceta criminosa deva ser combatida, porque facções criminosas são frias e assassinas, como condenar-se o lado oculto da opressão corporativa ou governamental sobre os cidadãos? Além do mais, como reprimir atividades criminosas sem estendê-las para os esgotos imundos das redes sociais em que circulam, impunemente, boatos mentirosos, ações discriminatórias e todos os tipos de agressões, de responsabilidades muitas vezes assumidas, mas, outras, camufladas nos chamados “fakes”?
Os ‘hackers’ passam, paulatinamente, a ser a nova encarnação do Mal, enquanto a internet em toda a sua amplitude possa ser vista como o Bem. Pessoalmente, achamos que não possa ser uma dicotomia tão simplista, um novo maniqueísmo, como conseqüência da velha doutrina estabelecida na Pérsia, hoje Irã, por Zoroastro ou Zaratustra, quinhentos anos antes de Cristo. Até porque as visões maniqueístas dependem da ótica de quem as vê, tornando-as falsas, perigosas e radicais. A visão do 11 de Setembro – dos ataques às Torres Gêmeas e ao Pentágono – é um exuberante exemplo de como um determinado fato pode ser, ao mesmo tempo, condenado ou comemorado, dependendo do lado como for visto, e foi o que aconteceu na época.
Enfim, vivemos em uma era em que o cidadão comum continua sendo massacrado e oprimido pelo mais forte e mais poderoso. Se não há mais espaço para os grilhões de ferro da escravidão, há sim uma opressão virtual. Os direitos, quando pisados e rasgados sempre são justificados e escamoteados como falha ou imposição do “Sistema” – que não tem face nem coração para um diálogo. Neste contexto não podemos fazer uma superficial acusação aos ‘hakers’. Eles tanto podem ser vistos como do Bem ou do Mal como entendia o histórico Zaratustra, mas, tal julgamento só a Deus pertence.

[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)