ONU, A BABEL DOS NOSSOS TEMPOS

Publicado em 22/09/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

ONU, A BABEL DOS NOSSOS TEMPOS

A ONU – Organização das Nações Unidas – teve como precursora a Liga das Nações, que foi fundada após a I Grande Guerra Mundial (1914/18), no âmbito da Conferência de Paris, saindo do forno como Sociedade das Nações, em 1919.  Anteriormente a isso, as relações internacionais se davam através de conferências, organizações isoladas e tratados, a exemplo do Tratado de Versailles, que selou o fim dessa guerra.

          Nem tempo houvera de se esquecer da primeira e grande bestialidade, quando é desencadeada a II Grande Guerra Mundial (1939/45), com a multiplicação por milhões de perdas humanas e cenários dantescos de destruição. Ao final de mais esse belicismo, nações arrependidas, aliadas a outras de índole mais pacifistas, se juntam às oportunistas – colonialistas ou de tendências imperialistas, como a União Soviética (CCCP, em russo, ou URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), aos Estados Unidos da América (EUA), ao Reino Unido, à própria França, na busca de um organismo internacional mais amplo e eficiente do que a Liga das Nações.

         Em decorrência disso, a ONU é criada pelos signatários da Carta das Nações Unidas, de 26 de junho de 1945, San Francisco-EUA, idealizada pelo presidente norte americano, Franklin Delano Roosevelt, com os objetivos principais de promoção da Segurança Mundial, da Paz e dos Direitos Humanos, também de proteção ao Meio Ambiente e de auxiliar no Desenvolvimento Econômico e Progresso da humanidade. Na época, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, no período ditatorial de Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, gaúcho de Alegrete, teve participação nesse movimento criacionista, tudo com as bênçãos das duas potências rivais de então, EUA e URSS. Para o orgulho dos brasileiros, a Sessão Especial de Abertura da nova Nações Unidas ocorreu em 24 de outubro de 1945, emoldurada pelo majestoso painel Guerra e Paz, de Cândido Torquato Portinari, notável pintor brasileiro, aqui das nossas vizinhanças – Brodósqui-SP .  Embora sediada em New York-EUA “por consenso dos países fundadores” (?!?!), a ONU possui importantes atividades nos escritórios de Généve, Suiça; Viena, Áustria, e Nairóbi, Kênia. Da meia centena de fundadores, desta organização mundial de fins altruístas, contam-se, hoje, 193 países. Ela representa uma miscelânea de raças, etnias, línguas e tradições culturais, certamente uma vitrine planetária da espécie humana. É bem verdade que essas representações defendem pontos de vistas diferentes, governos de perfis variados dentro de um espectro que vai da democracia à ditadura, ou, ainda hoje, sofrendo influências tribais primitivas. E não é menos verdade que o equilíbrio mundial passa pelas decisões de cinco países mais influentes, os quais compõem o Conselho de Segurança Permanente – EUA, Rússia, China, Reino Unido e França – órgão máximo decisório, onde os vereditos somente serão válidos pela unanimidade. Se um único país opta por veto a alguma proposta é o suficiente para sua desaprovação. Mais verdadeiro ainda é o poder de manipulação por parte do poderoso mundo capitalista. Bloqueios econômicos impostos a certos países são uma violência meio que disfarçada aos opositores dos EUA, o que foi decretado contra Cuba, Irã e Coreia do Norte, uma maneira cruel de matá-los de inanição, pela qual os países membros ficam proibidos de transações comerciais com os apenados.

          Cobra-se muito dos adversários dos EUA, sobretudo em resoluções aprovadas pela ONU. É o caso dos embargos econômicos que acabamos de mencionar.  Entretanto, fazem vistas grossas a inúmeras resoluções tomadas contra Israel, que as deixou de cumprir e ficou tudo por isso mesmo. De maneira pior, em 2003, passando por cima de uma resolução em contrário da ONU, os EUA de George W. Bush invadiram o Irak, com o apoio de mãe-Inglaterra, de Espanha, Itália, Polônia, Austrália e outros puxa-sacos.

           Ao meu modo de ver, felizmente ainda contamos com potências respeitadas e discordantes no Conselho de Segurança Permanente, como a Rússia e China, senão, politicamente, a ONU seria uma exclusividade do mais forte e do pensamento único. Seria a vitória cantada antes da hora pelo sociólogo nipoamericano, Francis Fukuyama no livro O FIM DA HISTÓRIA E O ÚLTIMO HOMEM, de 1992. Mais de 20 anos depois disso, encontramos na Revista Exame, virtual, de 25-JAN-2016, matéria escrita por André Lehóz com o título: “A História venceu e Francis Fukuyama joga a toalha” com o subtítulo: “Primeiro ele quis acabar com ela. Agora o sociólogo quer entendê-la”. Escreve Lehóz: “Dizia Fukuyama que com o colapso do comunismo (ao que sempre eu, Marco Regis, corrijo... com o fim da URSS) a procura por um modelo moderno de sociedade havia chegado ao fim”. Nessa reportagem, diz a revista que Fukuyama ficou milionário com o livro, vivendo hoje numa mansão em Palo Alto, Califórnia-USA, onde leciona Relações Internacionais na “prestigiosa” Universidade Stanford, certamente manipulando as mentes, enquanto eu neste “prestigioso” semanário tento desfazer essa manipulação,  uma tarefa inglória.  

          Feita a menção acima ao ministro getulista Oswaldo Aranha, preciso sair do propósito deste artigo, para resgatar a imagem dele que foi sonegada a partir do Estado de São Paulo porque gaúcho e getulista que era, fez parte da Aliança Liberal, da articulação para a derrubada do Presidente Washington Luís e defensor do governo federal no embate com a Revolução Constitucionalista paulista de 1932.  No entanto era descendente, pelo lado paterno, de tradicional família de Campinas-SP, cuja avó fora a Viscondessa de Campinas. Seu pai, militar do Exército, radicou-se no sul, tornando-se um estancieiro. Oswaldo Aranha foi advogado, político, diplomata e renomado estadista, que ainda hoje é nome de ruas em cidades de Israel, como Tel Aviv, Beserba e Ramat Gan. Em Jerusalém dá nome a uma praça na qual existe uma placa de gratidão a ele, colocada pelo governo israelense.

              O cabimento de tamanhas homenagens reside em fatos como a sua influência no governo Vargas para a definição do apoio aos Aliados na II Guerra Mundial – em que os judeus foram massacrados pelo nazismo – e, mais do que isso, foi o fato de que Aranha não somente presidiu sessões da ONU que fizeram a partilha da Palestina e a criação do Estado de Israel, em 1947, mas como presidente fez manobras e articulações para que fossem obtidos os 2/3 dos votos necessários para isso.

               A façanha do Brasil, através do estadista Oswaldo Aranha, deixou como legado a tradição da ONU de disponibilizar para o nosso País o discurso de abertura da sua reunião anual mais solene. Por isso, foi uma desventura para nós brasileiros, nesta semana, dia 19, a abertura da 72ª Assembleia Geral da ONU, quando o Presidente golpista do Brasil, Michel Temer, recebe essa dádiva e vai defender meio ambiente, depois de assinar recente decreto, hoje ainda contestado na Justiça, liberando a RENCA (Reserva Nacional do Cobre e Associados), em plena Amazônia, para grandes mineradoras; condenou a Venezuela falando que não há alternativas na democracia, depois de trair sua companheira Dilma Roussef e dar um golpe na nossa democracia; falou em reformas que não foram feitas; omitiu-se como personagem acusado de corrupção e de membro de organização criminosa.

          Sem falar no mandatário dos EUA, Donald Trump,  que chamou a ONU de ineficiente dentro da casa dela; que pregou o aniquilamento da Coreia do Norte, com a mesma prepotência de seus antecessores republicanos que aniquilaram o Irak, constrangendo um plenário cuja maior aspiração é o entendimento e a paz.

             Enfim, tenho um ponto de vista: ruim com a ONU, pior sem a ONU. Contrário às palavras de Trump na ONU e às provocações do líder da Coreia do Norte, Kim Jong-um, emerge sempre a figura de um conciliador, o Secretário-Geral, atualmente, o português Antonio Guterres. Se Trump pregou o desvario da humanidade, como lhe é peculiar. Se o coreano do norte ameaça atacar aliados americanos na Ásia – Coreia do Sul e Japão – outros tantos na ONU estão a pedir moderação, pois, teoricamente, a instituição é pacifista e humanista. Na Bíblia, em Gênesis 11: 1-9, vamos entender a iniciativa dos filhos de Noé para a edificação da cidade e a torre de Babel. Apenas usamos de analogia entre o escrito bíblico comparativo com a ONU pela diversidade de línguas nela presente, por isso mesmo, a Babel dos nossos tempos.

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]