O “PODCAST” DA FLORESTA QUE VIRA CINZAS

Publicado em 30/08/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

O “PODCAST” DA FLORESTA QUE VIRA CINZAS

  Fatos antigos de repente se tornaram assuntos repetitivos e candentes na nossa – querendo ou não – mais influente cadeia televisiva. Um deles é antiquíssimo no nosso Brasil, poder-se-ia dizer milenar, para nos situarmos apenas dentro das nossas fronteiras: a destruição das nossas florestas por grandes queimadas. Sem dúvida alguma, a questão foi pautada por todos os nossos meios de comunicação e se alastraram pelos veículos midiáticos mundiais. Mais do que isso, gerou uma troca de insultos entre o despreparado Capitão Bolsonaro, nosso Presidente da República, e o seu colega francês, Emmanuel Macron. O outro acontecimento tem a ver apenas com o Grupo Globo, considerado o maior conglomerado de mídia e comunicação da América Latina que, durante esta semana, anunciou o lançamento de uma nova modalidade dentro do seu império denominada de “podcast”.

                   Vou começar a descrição deste último, pois, a partir dele, desejamos produzir um conteúdo acerca dos incêndios na Floresta Amazônica que, mais à frente, com o acréscimo sonoro de modernos estúdios muzambinhenses, como os de Robertinho Cardoso ou Helinho Dipe, poderão ser baixados onde e quando o caro leitor desejar, através de computadores ou celulares, ou outro dispositivo móvel, tornando-se, certamente, mais um dos “podcasts” que tratarão a respeito das atuais e terríveis queimadas. Mais ou menos isto seria o jeito de produzir uma diversidade de conteúdos e disponibilizá-los para homens e mulheres sequiosos de conhecimentos e sem tempo para lidar com eles. Quando incluí o “podcast” como um fato antigo, obrigo-me a explicar que assim deve ser considerado diante da velocidade fantástica como vão surgindo as inovações tecnológicas. Afinal de contas essa nova mídia, é baseada em modelo de difusão da Internet. Em trabalho de projeto de mestrado em Novas Médias e Práticas Web na Universidade Nova Lisboa / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, no Departamento de Ciências da Comunicação, elaborado pela mestranda Marta Izabel Rebelo Pacheco, à pág. 9, extraímos: “Podcast” – ‘foi eleito como termo do ano em 2005 pelo New Oxford American Dictionary”, derivando-se da fusão de “iPod” (marca de equipamento da Apple, que permite ouvir músicas sem o gasto de bateria do “iPhone”)  com “Broadcasting” (transmissão) dissecando-o como “grátis, simples, portátil e cômodo. Permite, graças à tecnologia RSS (Really Simple Syndication) a distribuição de ficheiros pela Internet, através de uma subscrição, evitando, assim, que o ‘user’ ande à procura dos conteúdos constantemente”. Historicamente, diante das pegadas da civilização, temos que considerá-lo recentíssimo, bem como a idealização e os primeiros passos da Internet com fins militares, nos Estados Unidos da América, anos 1960; e a Rede Mundial de Computadores (ou, Teia de Abrangência Mundial, livre tradução de World Wide Web, ou www), que foi desenvolvida no início dos anos 1990 pelo cientista inglês Tim Berners-Lee. Enquadramos o “podcast” como antigo, no início deste texto, porque são 15 os seus anos de existência e somente agora a TV Globo o põe na prática.

                         Isto feito, vou estabelecer um roteiro para o meu “podcast” para a floresta que vira cinzas. A isso, também no início datei como devastação antiga, até milenar, pois, estudos deduzem que não somente a Floresta Amazônica teve suas beiradas queimadas pelos nossos primitivos habitantes em torno de 8 a 10 mil anos atrás, bem como o Cerrado, onde o fogo foi muito destrutivo, legando um solo pobre de nutrientes e vegetais com raízes longas para a busca de água mais profunda, em que pese a existência de grandes rios na região como o Tocantins, Araguaia e São Francisco. Geograficamente, o Brasil, é dividido em seis grandes biomas, que são formados por um conjunto de ecossistemas, enquanto estes representam o conjunto de seres animais, vegetais e minerais interagindo entre si. Os biomas mais extensos são a Floresta Amazônica, com mais de 4 milhões de quilômetros quadrados (Km2), cujas correntes de umidade, verdadeiros “rios voadores”, regulam o clima e o regime das chuvas no nosso centro-oeste, sudeste e sul do país, ainda influindo nas barragens de numerosas usinas hidrelétricas; o Cerrado com mais de 2 milhões de Km2, hoje sacrificado pelas grandes culturas irrigadas do agronegócio; a Mata Atlântica que cobria nossas regiões litorâneas do Nordeste ao Sul do Brasil, correspondendo, à época, a 15% do nosso território, bastante desmatada nos últimos 300 anos, restando hoje uma cobertura em torno de Hum milhão de Km2, embora seja um dos biomas melhor protegido pela legislação de preservação, considerando-se a importância da sua biodiversidade animal e vegetal; a Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, ocupando grande parte do nordeste brasileiro, com área de aproximadamente 800.000 Km2, e cuja escassa cobertura vegetal tem sido respeitada pelos seus habitantes; restam os biomas do Pantanal, uma das maiores planícies inundáveis do planeta, e os campos do Pampa, ambos estendendo-se por 150.000 Km2 cada.

                           A despeito do desmatamento contínuo das nossas florestas, ora mais, ora menos, as manifestações de protesto e revolta contra o Presidente Bolsonaro e seu omisso Ministro do Meio Ambiente, Recardo Sales, devem-se a diversas situações criadas neste governo recém-iniciado: oferta feita aos norte-americanos, em sua primeira visita àquele país, para a participação deles na exploração amazônica; incentivo aos desmatamentos, e consequentes queimadas, no afã de estender nossas fronteiras agrícolas em direção à floresta e ao desejo de reduzir os territórios indígenas, provocando a ação invasiva de garimpeiros, de grileiros, posseiros e grandes fazendeiros; descrédito aos meios de vigilância espacial sobre os desmatamentos e incêndios florestais feitos pelo INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – e à própria Agência Espacial dos Estados Unidos; atritos e perda de recursos internacionais de países como Noruega e Alemanha, que aportaram bilhões de reais em programas de conservação e fiscalização nos últimos dez anos; finalmente, o desprezo e o deboche com que o Presidente vinha tratando entidades governamentais e não governamentais do Brasil e da Europa, culminando com sérias divergências com o Presidente francês, Macron, inclusive o péssimo comentário feito em rede social por Bolsonaro, a um seguidor seu, de sobrenome Andreaça (com Ç, sim), que fez postagem de foto do casal Macron e do casal Bolsonaro, dizendo que o francês tinha inveja do brasileiro em decorrência da maior beleza da Sra. Bolsonaro, sendo sabido que a Sra. Macron é mais de 20 anos mais velha do que o marido, que tem 40 anos. Bolsonaro comentou: “Não humilha, Andreaça! Kkkkkkkkkk”. Por outras razões, o francês, já irado, chamou o nosso Presidente de “mentiroso”. Agora o G7, países mais ricos do planeta, querem doar 83 milhões de reais para ajudar no combate aos incêndios florestais, mas, Bolsonaro se recusa a receber enquanto Macron não lhe pedir desculpas. Birra de molequinho mimado!

                      Numa clara demonstração de que os protestos atingiram os pontos fracos do presidente bravateiro, ela demonstra reconhecer sua omissão no trato nacional e internacional de questões ambientais, enviando o Exército com seus aviões e helicópteros na tentativa de debelar os incêndios, pelo menos amenizá-los até que as chuvas caiam nessas regiões. Enquanto isso, animais e plantas são exterminados, a atmosfera vai sofrendo com as toneladas de gás carbônico produzidas pela combustão das árvores. E as cinzas virarão pastos para a alegria dos inconscientes e gananciosos agricultores, e garimpeiros.

                           

                         *Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)