O NOVO MASCATE VENDE O BRASIL

Publicado em 30/08/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

O NOVO MASCATE VENDE O BRASIL

Consta da História do Brasil, principalmente no acervo doado pelo Príncipe Pedro Gastão de Orléans e Bragança ao Museu Imperial de Petrópolis, em 1948, que o sábio Imperador Dom Pedro II fez uma viagem de quase dois anos, considerando-se as paradas e os meios usados como transporte – navio, trem e carruagem –, a partir de 1876, visitando regiões do Oriente Médio, como o Líbano, Palestina e Síria. No entanto, essa longa viagem começou pelos Estados Unidos, oportunidade em que percorreu o país de costa a costa, durante três meses, inclusive participando das comemorações do centenário da independência americana. Em seguida, passou pelo Canadá e adentrou a Turquia pela Europa. Porém o destino primordial do nosso imperador itinerante era estar na Síria, Líbano, Palestina, enfim em Jerusalém. Sua Majestade lia e tinha profundo respeito e paixão pela Bíblia Sagrada. Desejava conhecer lugares, documentos e ruínas das referências bíblicas. Encantou-se muito com o País dos Cedros e fez convites públicos para que os libaneses fossem viver no Brasil.
Embora o Censo brasileiro de 1871 tenha registrado três libaneses aqui vivendo, eles começaram a vir para cá, em maior número, de 1880 em diante, sendo estimados hoje em oito milhões de descendentes, enquanto o Líbano possui em torno de quatro milhões de habitantes, dos quais uns sessenta mil brasileiros-libaneses que para lá voltaram, conforme informações de entidades oficiais e culturais desse país. Aqui chegando pelos portos de Santos e do Rio de Janeiro, eram chamados de “turcos”, do que a maioria não gostava, porque toda aquela região árabe estava anexada ao Império Turco-Otomano, um dos mais longos da História Universal, que durou de 1299 a 1923, e os passaportes deles eram expedidos pelas autoridades desse Império. Encontrando imigrantes de outros países dedicando-se à agricultura, os sírios-libaneses logo perceberam um vazio no comércio e habilidosos que sempre foram nesse segmento se estabeleceram – como na Rua 25 de Março ou no bairro do Brás, em São Paulo, ou na Rua da Alfândega, no Rio de Janeiro – ou passaram a percorrer cidades interioranas, sendo conhecidos como “mascates”.
Pormenores da saga dos libaneses no Brasil podem ser acessados em pdf, em obra monumental do descendente libanês, André Gattaz, que transformou sua tese de doutoramento em livro sob o título: Do Líbano ao Brasil – história oral de imigrantes. O mesmo pode ser buscado em www.editorapontocom.com.br/livro/9/9-gattaz-libano.pdf. Nele está contida a veracidade do mito dos mascates libaneses, cujo labor incansável e suada poupança lhes permitiu acumular recursos financeiros, passando para o varejo e, muitos deles, para o comércio atacadista e empresariado industrial, enquanto seus descendentes foram galgando as profissões liberais.
Minas Gerais, ao lado do estado paulista, acolheu de muito bom grado os imigrantes libaneses. No sul de Minas, há de se destacar Guaxupé cuja prosperidade foi construída ombro a ombro com os sírio-libaneses. Na internet, o caro leitor encontrará várias referências à cidade, onde sugerimos: www.anba.com.br/noticias/21870116/artes/arabes-com-sotaque-mineiro. Outra curiosidade se refere à religiosidade desses imigrantes, constando que a Igreja Ortodoxa de Guaxupé foi a quarta a ser construída no Brasil (1927), sendo a primeira em São Paulo, numa pequena travessa da Rua 25 de março (1904); a seguir a Igreja de São Nicolau, no Rio de Janeiro (1918); a 3ª. Em Ituverava-SP (1925); Guaxupé-MG (1927); Bariri-SP (1933); São José do Rio Preto-SP (1936); etc., conforme dados extraídos no texto “Christian Religiosity among Arabes in São Paulo: past and present”.
Nosso tributo aos descendentes de libaneses deve ser elevado a um sem número de personalidades, a começar pelo premiadíssimo escritor Raduan Nassar, benemérito da Universidade Federal de São Carlos-SP, à qual doou parte de sua fazenda. No ano passado ao receber o Prêmio Camões, instituído pelos governos de Portugal e Brasil, ele fez severas críticas ao governo golpista de Michel Temer. Outros que merecem citação: o filólogo Antonio Houaiss; o médico Adib Jatene; a atriz Tânia Khalil; o ambientalista Aziz Nacib Ab’Saber; o ministro do TCU, Jorge Hage; o publicitário Roberto Duailibi; bons e maus políticos, conforme a sua avaliação, tais como: Geraldo Alckmim, Esperidião Amim, Paulo Maluf, Michel Temer, Tasso Jereissati, ex-senador/RS, Pedro Simon, ex-ministro da Justiça da Ditadura Militar, Alfredo Buzaid, Fernando Hadad, prefeito Calil de BH, ex-presidente da OAB/RJ e deputado federal Wadih Damous.
Pois bem, o atavismo mascate ressurge no descendente de libaneses, Michel Miguel Temer Lulia, o beneficiário de um movimento golpista, hoje um usurpador na Presidência da República Federativa do Brasil. Não bastando os retrocessos sociais, escancarados nas reduções de verbas para as universidades, para as pesquisas, para os remédios, para o SUS, para os programas de assistência social, no arrocho do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal sobre os pequenos tomadores de empréstimos e no próprio desmonte dessas instituições financeiras, na deterioração das rodovias federais que foram magnificamente restauradas pelos governos petistas, no embuste do combinado valer mais do que o texto legal – estabelecido pela reforma trabalhista – e pela ameaçadora reforma previdenciária, o novo mascate, Michel Temer, quer vender o Brasil e a soberania nacional ao mercado internacional e sua viagem à China é a primeira e grande jogada.
Não sejamos sectários nem cegos. Ponderemos que algumas medidas devam ser tomadas em nome do reequilíbrio das contas públicas e até para a eficiência do Estado. Não alardeamos o gigantismo do Estado, mas condenamos o Estado Mínimo imposto pelo Consenso de Washington na década de 1990 – o neoliberalismo – que liquidou com o patrimônio público de muitos países, a exemplo da Argentina do corrupto árabe-portenho, Carlos Menem, ou do Peru, do nipoperuano, Alberto Fujimori, cumprindo pena na prisão por corrupção. Nada de mal privatizar aeroportos e outros ativos apropriados à iniciativa privada, que são fontes de ineficiência, roubalheira e cabides de emprego nas mãos de políticos. Entretanto, há empreendimentos estratégicos para a soberania de um país, como o setor energético, ou mesmo os bens naturais – como a água – que devem ser controlados pelo Estado e não por particulares, por motivos óbvios: ao particular somente interessa o lucro, mandando empregados para a rua, deixando de atender populações isoladas que não lhes dão esse lucro, além de fugirem do controle do estado diante das reclamações haja vista os bancos e as empresas de telefonia. Imaginemos, então, um bem precioso como a água na mão dessa gente. Vejam bem que a Coca Cola já detem o domínio de inúmeras fontes de água, cuidado!
O Presidente Michel Temer tenta ser um ilusionista das palavras quando discursa e rodopia seus compridos dedos indicadores; já assustava desde os tempos do Governo Fernando Henrique, época em que o político baiano Antonio Carlos Magalhães o descreveu como Mordomo de Filme de Terror; hoje, reencarna seus antepassados como mascate, não pelo uso da boa lábia para vender seus produtos e alimentar suas famílias, mas tenta passar a lábia no povo brasileiro acolhedor, vendendo o patrimônio não seu, mas de gerações e gerações de brasileiros, como se fosse um bom negócio para salvar o Brasil. Na verdade, tenta vender de afogadilho não com o intuito de estabilizar a economia do País, mas para diminuir o rombo nas contas públicas da União, tentando nada mais do que uma travessia em 2017 e, quem sabe em 2018. Ilude a população exaltando supostas conquistas econômicas, mas elas estão muito distantes da população pobre. Este governo ilegítimo provoca retrocessos ambientais, inclusive, agora, liberando, por simples decreto, a exploração de recursos minerais na divisa dos estados do Pará com o Amapá, em plena Amazônia, uma área equivalente a do estado do Espírito Santo ou da Dinamarca. Por essas e por outras ele passou pelo vexame e pelo pito do governo norueguês, que reduziu verbas para a conservação da Amazônia, quando de sua recente visita àquele país nórdico.
Nossa admiração e o nosso respeito pelos imigrantes libaneses e a mensagem positiva deixada pelos mascates do passado foi acima extravasada. Mas, essa reencarnação de mascate mercenário, apátrida, rodeado por ministros e parlamentares acusados pelo Ministério Público Federal, uma verdadeira quadrilha que se apoderou da Pátria, tem de ser rechaçada. Essa ponte para o futuro de extensão de apenas dois anos tem de ser implodida.

[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).