O DUELO DAS VACINAS VISTO DA ARQUIBANCADA DO CIRCO

Publicado em 22/01/2021 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

O DUELO DAS VACINAS VISTO DA ARQUIBANCADA DO CIRCO

O momento não é para brincadeiras nem para ironias. É de respeito às vítimas da Pandemia. Afinal de contas, em pouco mais de um ano, o nosso mundo já contabiliza dois milhões de mortos em decorrência do Corona Vírus. O Brasil com mais de 200.000 vítimas fatais só fica atrás dos Estados Unidos da América (EUA) onde passam das 400.000. Entretanto, como que a gente se mantém comportado e comedido, enquanto continua assistindo ao duelo ideológico a respeito da enfermidade nas várias partes do mundo? Aqui no nosso país não tem sido diferente. Todos querendo meter o bico num assunto bem melhor entendido por virologistas, infectologistas, imunologistas e o arrojado grupo do pessoal da Saúde que enfrenta esse combate na linha de frente à custa de centenas de profissionais mortos nessa luta inglória. Sempre é bom lembrar que não somente pessoas graduadas em diversas profissões formam este contingente da Saúde, mas, inclui técnicos em radiologia, de laboratório, e o pessoal auxiliar nas áreas administrativa, de alimentação, de segurança e de transporte de pacientes.

                        No entanto, à boca pequena, nas rodas inapropriadas que se formam em agências bancárias, em órgãos públicos, nas lotéricas, nos estabelecimentos comerciais, nos veículos de transporte coletivo e outras dependências é inevitável que surjam discussões e polêmicas. Porém, a agressividade e a intolerância estão sobremaneira presentes nas redes sociais. Até porque há segmentos invisíveis criando teorias ideológicas e conspiratórias, as alardeadas “fake news” consagradas pelo símbolo dos direitistas extremistas, ex-Presidente dos EUA, Donald Trump. Essas falsas notícias se espalham como o próprio vírus pela internet, numa turbulenta avalanche de informações, provocando aplausos ou indignação nos ingênuos e nos incautos. Nos últimos dias os focos incendiários na imprensa e redes sociais foram as questões do colapso do sistema de saúde em Manaus e as vacinas contra a Covid.

                         As acusações e exacerbações partem de todos os lados. Hoje os ruídos antibolsonaristas são bastante perceptíveis, autointitulados de “70% contra Bolsonaro”, porque englobam grupos diversos, que vão desde os militantes de governos petistas passados, passando pelos apoiadores de Ciro Gomes, mais a Direita Arrependida, ou seja aquela que embarcou na aventura de Jair Bolsonaro não por crença, mas pela aversão ao petismo. Os fanáticos seguidores do atual Governo classificam todos esses blocos linearmente, numa catalogação simplista de esquerdistas e comunistas. Não existe entre eles o conhecimento do que seja esquerda e direita. Nem a menor percepção de que a própria e verdadeira esquerda é um balaio de gatos de todas as cores.

                           Além do mais, essas forças governistas de Extrema-Direita NÃO DISTINGUEM os partidos da aparente Direita civilizada ou Centro-Direita, aos quais, ridiculamente chamam de comunistas ou esquerdistas, e que são capitaneados pelo Democratas (DEM), o qual é integrado, dentre outros pelo presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia/RJ, pelos governadores Ronaldo Caiado/GO, Mauro Mendes/MT, pelo do ex-Ministro da Saúde, Mandetta/MS, o ex e o atual prefeitos de Salvador/BA, ACM Neto e Bruno Reis. Nesse rol se acrescenta o PSDB dos governadores João Dória/SP, Eduardo Leite/RS, Reinaldo Azambuja/MS e do ex de MG, Aécio Neves. Por que não “cristãos novos”, do PSD? Este conta com os governadores Ratinho Júnior/PR e Belivaldo Chagas/SE e o ex de MG,Antonio Anastazia, e seu próprio fundador, Gilberto Kassab, SP/, ex-prefeito de São Paulo e que tanto foi ministro de Dilma Rousseff (Cidades) como do golpista Michel Temer/MDB/SP (Ciência e Tecnologia). Não distinguem como direitista nem engolem o governador afastado do RJ, Wilson Witsel/PSC. Nem sei se eles percebem as tendências adesistas nas condutas dos governadores Romeu Zema, MG/NOVO; Wilson Lima, AM/PSC; GladsonCameli, AC/PP; Helder Barbalho, PA/MDB; Renan Filho, AL/MDB; e Ibaneis Rocha, DF/MDB.

                              Fato é que a nossa Extrema-Direita, simpática e submissa aos ideais do norte-americano Donald Trump, tem como guru um brasileiro radicado há anos nos U.S.A., jornalista, escritor e filósofo autodidata, Olavo de Carvalho. Compondo e direcionando o atual Governo da República existe o chamado Núcleo Ideológico, que dá o tom conservador retrógrado e anticomunista, comandado pelo próprio Presidente Bolsonaro, que estimula os ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Ricardo Sales (Meio Ambiente), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), o ex-ministro Abraham Weintraub (Educação), o Presidente da Fundação Palmares, uma versão moderna de “capitão do mato”, Sérgio Camargo, e outros. Fortalecendo esse grupo há os governadores Carlos Moisés/SC, Antonio Denarium/RR e Coronel Marcos Rocha/RO eleitos pela sigla do PSL, de onde aflorou grande parte dos bolsonaristas em 2018, formando uma bancada de 52 deputados federais e o próprio Presidente.

                          Inconstantes e incontidos promoveram um “racha”no PSL na tentativa ainda frustrada de fundação do “Aliança Brasil”, permanecendo muitos “Sem Partido”. Todavia o Congresso não funciona somente com partidos, funciona com ajuntamentos corporativos como as chamadas BANCADAS BBR: da Bala (com parlamentares oriundos do meio militar outras forças de segurança), da Biblia (a maioria dos evangélicos) e Ruralista (os ricaços da Agricultura e Pecuária tipo exportação, e seus agregados). Além do Corporativismo, o Fisiologismo dá lugar a Blocos informais como o Centrão, uma reunião de partidos direitistas e conservadores com ambições pessoais em nomeações para cargos de confiança federais e na liberação de emendas parlamentares. Sua sustentação se dá no PP, PL, Republicanos, PTB, PRÓS, PSC, Solidariedade, Avante e Patriotas, muitas vezes recebendo adesões do MDB, PSD e DEM, dispondo de cerca de 240 dos 513 deputados federais.

                            Quais são de verdade as forças de esquerda?  Teoricamente, a Extrema Esquerda existe legalizada no Brasil, mas não tem representantes eleitos no Congresso Nacional. Seriam três esses partidos: PSTU, PCO e PCB. Há analistas que classificam o PSOL no leque da extrema esquerda. As atuais bancadas de esquerda estão assim formadas: PT, 52 deputados; PSB, 30; PDT, 26; PSOL, 10; PC do B, 7;  PSOL, 10; PC do B, 7; Cidadania/PPS, 7; PV, 4; e REDE, 1. Os atuais governadores de esquerda são: Renato Casagrande, ES/PSB; Waldez Góis, AP/PDT; Rui Costa, BA/PT; Camilo Santana, CE/PT; Juiz Flávio Dino, MA/PC do B; João Azevedo, PB/ ex-PSB, Cidadania desde 2020; Paulo Câmara, PE/PSB; Wellington Dias, PI/PT; e Fátima Bezerra, RN/PT.

                             Estabelecidas as cores partidárias e suas ideologias, compreende-se melhor um Grupo do “Facebook”, que se denomina “Somos 70% Contra Bolsonaro”, ficando claro que o mesmo é uma UNIÃO INSTÁVEL DE INTERNAUTAS da Direita, Centro-Direita, Centro-Esquerda e Esquerda VERSUS o Bolsonarismo. Uma utopia das pessoas diante do pragmatismo predominante na Câmara e no Senado. Nas ruas, nas redes sociais e nas reuniões virtuais do Congresso Nacional são essas correlações de força que debatem e que brigam.

                               Escrevemos no começo deste texto que um dos focos acalorados de discussão, nos últimos dias, têm sido o colapso do sistema de saúde da capital do Amazonas, em que a falta de planejamento e coordenação causaram a escassez de oxigênio nas Unidades de Saúde de Manaus e outras cidades daquele Estado. Em consequência disso houve mortes de pessoas portadoras da COVID-19, que necessitavam desse Oxigênio para alívio ou manutenção da vida, fosse através de cateter nasal, ou fosse por um equipamento conhecido por AMBU, inventado em 1956, de uso manual e contendo válvulas que é utilizado até com ar ambiente ou acoplado a uma tubulação de oxigênio, ou, ainda, um terceiro método, utilizado em anestesias e C.T.I.s, por meio de entubação endotraqueal, com o paciente sedado, tipo coma induzido, através dos chamados ventiladores mecânicos. Todas as esferas de governo, quer dizer, no âmbito municipal, estadual e federal tiveram informações do repique de casos de Covid em Manaus, no final de dezembro do ano recém-findo, principalmente pela desobediência ao distanciamento social e uso de máscaras, mormente em decorrência das comemorações natalinas e de Ano Novo. A empresa produtora e fornecedora desse gás, a White Martins, informou as autoridades da sua incapacidade de produção para atendimento a um aumento da demanda.  Chegou-se ao caos que todos acompanhamos e à dramaticidade dos acontecimentos. A polêmica ficou por conta de que o STF – Supremo Tribunal Federal – TERIA proibido o Governo Federal de interferir em Estados e Municípios, o que nunca foi verdadeiro. Mas, o próprio Presidente Bolsonaro insistiu nessa tese inverídica em entrevistas. Na verdade, o STF não proibiu o Governo Federal de agir como coordenador das ações contra a Pandemia, através do Ministério da Saúde. Reconheceu o STF que Municípios e Estados, como entes federativos, têm autonomia para adotarem regras locais de isolamento social, quarentena, funcionamento de escolas e do comércio e da circulação das pessoas. Outro ponto de constrangimento causado aos bolsonaristas foi a ajuda humanitária feita pelo governo da Venezuela, enviando uma doação 107.000 m3 de Oxigênio, suficientes para o abastecimento de Um dia e meio a todas unidades de saúde de Manaus. A frota de caminhões-tanque foi carregada no Polo Petroquímico de Barcelona, Estado de Anzoátegui-VEN, percorrendo 1.500 até Manaus, onde chegou na noite desta 3ª.feira, 19. Os robôs bolsonaristas dispararam informações em contrário, dizendo que não houvera doação, mas uma importação de Oxigênio por parte da própria White Martins, de Manaus, de uma sua subsidiária venezuelana. Sistemas de Verificação, chamados de “Fact-checking” desfizeram a intriga demonstrando a veracidade da doação, enquanto a importação da White Martins também tenha ocorrido, bem menor, de 30.000 m3.

                        Outro ponto em debate, tem sido as Vacinas contra a COVID. O Governo Federal tem sido criticado pela incapacidade e atraso na compra de vacinas dos diversos institutos produtores de imunizantes. A única negociação estabelecida, de maneira tímida, foi com a Vacina de Oxford, do Laboratório AstraZênica, que mantém parceria com a Fundação Instituto Oswaldo Cruz/Rio de Janeiro, a FIOCRUZ, que, além de adquirir as vacinas, também receberá insumos para que elas sejam aqui produzidas e envazadas. Aliás, no momento noturno desta 5ª.feira, 21, em que findo este texto, os telejornais já noticiam que, finalmente, foi resolvida pendência com a AstraZênica no sentido da entrega ao Brasil de DOIS milhões de doses da Vacina de Oxford, desenvolvida no Reino Unido, mas fabricada no Serum India Institute, na cidade de Pune, oeste indiano, o maior fabricante mundial de imunizantes/vacinas. O avião com a carga decolou de Mumbai e chega ao Brasil nesta 6ª.feira, 22, para alívio do General Pazuello e o Capitão Bolsonaro, dando outros toques nas discussões. Seus defensores, atacaram os adversários nas redes sociais nesta semana, acusando a “esquerda” de “mimimi”.  Eu mesmo, decidi intervir e reproduzo o que escrevi no “Facebook”: “QUEM criou polêmicas e mimimi com as vacinas contra a CoViD-19 foi o Presidente Bolsonaro. Poucos meses atrás, o Ministro da Saúde e General da Ativa, PAZUELLO, anunciou que o Brasil iria comprar vacinas do INSTITUTO BUTANTAN, pertencente ao Estado de São Paulo, que firmou parceria com o chinês SINOVAC, produtor da vacina CORONAVAC. No mesmo dia, o Presidente Bolsonaro, pela TV, desautorizou seu Ministro afirmando que NÃO COMPRARIA VACINA CHINESA:::::Pois, AGORA, o Governo brasileiro, vendo fracassar as entregas da sua vacina preferida, a de Oxford, em parceria com a FIOCRUZ, Rio, decretou o confisco das “vacinas chinesas do Butantan” sob a alegação de que elas são do Brasil, enquanto o Governador João Dória (PSDB/SP), que foi quem decidiu pela parceria Butantan/China, bate o pé, querendo vacinar os paulistas sem depender do Ministério da Saúde, contrariando uma antiga tradição em que o Ministério sempre coordenou as Campanhas de Vacinação no Brasil. Dória pertence à Direita e Jair Bolsonaro à Extrema-Direita. A esquerda nada tem a ver com isso, assiste o duelo da arquibancada desse Circo.

   *    Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]