O Brasil Treme

Publicado em 26/05/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

O Brasil Treme

Neste último 12 de maio transcorreu o primeiro ano do golpe de estado “constitucional”, que afastou da presidência da República Federativa do Brasil a primeira mulher eleita para governá-la. Somos sabedores que o processo foi engenhado e consumado pelo inconformismo da derrota do candidato Aécio Neves (PSDB-MG), pois nem bem as urnas de 2014 apontaram a vitória de Dilma Rousseff (PT-RS), começaram a pipocar manifestações pela anulação do 2º turno do pleito presidencial. Por trás dessa negação eleitoral foram se sucedendo os mais estapafúrdios motivos até que, um ano depois, a engenharia política produziu e sedimentou a tese das “pedaladas” fiscais e da abertura irregular de créditos suplementares, violações estas condizentes com o “tapetão” eleitoral e do mesmo nível rasteiro do “tapetão” da justiça esportiva.
Ao condenar o golpismo nunca deixei de admitir a corrupção que se instalou nos governos petistas. São coisas diferentes. Mas, o que a todos surpreendeu foi a facilidade e presteza como eles se envolveram nisso, nos fazendo crer que peemedebistas, peerristas e pepistas (PMDB, PR e PP) tenham oferecido aos petistas (PT) o “mapa da mina”, trazido por eles de administrações anteriores. Foi através desse mapa que os neófitos vieram a percorrer as veredas da corrupção com bastante desenvoltura. Essa proposição se embasa na cobiça e no encastelamento desses partidos em verdadeiros filões da corrupção. Notoriamente, qualquer brasileiro, de medianos conhecimentos políticos, sempre soube que o Ministério dos Transportes era um filão de propinas em função da sua proximidade com grandes empreiteiras de obras rodoviárias e outros setores da infraestrutura; não muito diferente do Ministério de Minas e Energia ao qual estão vinculadas a Eletrobrás e a Petrobrás, quer dizer, grandes empresas da hidroeletricidade – como Furnas –, da mineração, do petróleo, da termoeletricidade e termonucleares.
As delações dos empreiteiros Emílio e Marcelo Odebrecht, bem como dos irmãos Batista, donos da multinacional brasileira do ramo das carnes e outros alimentos, deram a impressionante dimensão da roubalheira no nosso País, da variedade de governantes nela envolvidos e dos longos anos em que ela vem ocorrendo. Pelo menos é o grande elo que une políticos em cena nos últimos trinta anos. Um deles é o responsável pelo slogan “ROUBA MAS FAZ”, que o tornou um mito vitorioso e aplaudido nas urnas nesse tempo todo. Finalmente, no meio desta semana, ele foi condenado por goleada no STF – Supremo Tribunal Federal – num alento que estamos mesmo em mudança, pois a justiça não alcançava os poderosos e os vem pondo na cadeia desde o desfecho do petrolão.
Assim sendo, estaremos diante de uma horrenda aberração se o Presidente Temer e o seu grupelho não forem exemplarmente banidos do poder. Com indícios cada vez mais claros que a propina alimentou as últimas eleições e que a sua origem é decorrente do conluio e do superfaturamento das obras governamentais, portanto dinheiro público, é inaceitável que esse bando partidário, que usufruiu oito anos com Fernando Henrique Cardoso (e com os escândalos abafados das privatizações bilionárias), mais oito anos com Lula e mais cinco com Dilma, persista posando de salvadores da pátria, embora enlameados na corrupção. Acuado por delatores, pela justiça e pela população que vai ser penalizada com o projeto de reforma da previdência, o governo Temer treme, mas tenta sobreviver. Promove agrados como a liberação de contas inativas do Fundo de Garantia, compra deputados com verbas parlamentares da mesma maneira que os comprava seu aliado Eduardo Cunha, hoje preso em Curitiba. Essa tática de suborno é antiga e pode ser vista no filme ‘hollywoodiano’ produzido por Samuel Bronston, em 1964, A Queda do Império Romano. Nele se retrata o cruel imperador Lucius Commodus (Cristopher Plummer) e sua irmã Lucila (Sophia Loren), filhos de Marco Aurélio (Alec Guiness), sitiado por legiões romanas comandadas por Lívio (Stephen Boyd) e que as muda de lado enviando farto dinheiro que foi distribuído aos soldados.
Mais inaceitável é que um governo, que a cada dia tenha mais integrantes envolvidos na corrupção, recorra a um deturpado expediente constitucional de colocar quase dois mil homens das Forças Armadas para protegê-lo, como o fez nesta 4ª feira, editando decreto presidencial com validade de 24 a 31 de maio, um quase estado de sítio regionalizado, a pretexto da garantia da lei e da ordem, diante das manifestações ocorridas em Brasília. Além do mais, gasta dinheiro com publicidade, alimentando a imprensa que o apóia, exibindo vídeos que fazem alarde do governo ao invés de dar respostas claras às denúncias de corrupção, tentando passar um clima de normalidade e que nada o abala. No fundo Temer treme. Seu fim menos demorado e menos traumático poderá ser nos primeiros dias de junho, através da cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE – Tribunal Superior Eleitoral – que retiraria o desconforto das elites, punindo o Presidente com a perda do mandato, mas, tornando a ex-presidente inelegível pelo prazo de oito anos.

[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).